sábado, outubro 22, 2005

A loja do bairro


Dos poucos documentários que tive oportunidade de ver neste último Doclisboa, gostava de destacar Alimentation Générale de Chantal Briet. O filme retrata os dias vividos na única loja existente num bairro suburbano perto de Paris. Um subúrbio inóspito igual a tantos outros, onde coabitam mais de cem nacionalidades. Muitas destas pessoas frequentam regularmente o supermercado de Ali (o dono). Mas este espaço é mais do que uma loja. É o centro do bairro. E para algumas destas pessoas é o centro do mundo – como nos contava Manuel da Fonseca a propósito do largo da aldeia. Na verdade, tal como o largo da aldeia, o supermercado de Ali é povoado por personagens que marcam o seu quotidiano. Nele encontramos o jovem alienado (às vezes alcoolizado ou pedrado), as velhotas que vão comparar o pão da manhã, as crianças à procura de guloseimas, os jovens desocupados, os trabalhadores cansados… Acompanhamos algumas dessas personagens através do seu dia-a-dia na loja. Todas se sentem ligadas àquele lugar no qual se reconstrói os resquícios de uma identidade comunitária. Durante o filme vamo-nos familiarizando com as pessoas que por ali passam, e que falam de si e dos outros. No meio daquele betão frio que se ergue no cinzento dos prédios, o pequeno supermercado ganha uma cor calorosa e, de certa forma, reconfortante para muitos daqueles residentes. O anúncio da demolição do casarão que alberga a loja gera intranquilidade. Para as personagens, já nossas conhecidas, a possibilidade do supermercado fechar é encarada com tristeza. Felizmente tudo se resolve, a loja transfere-se para um edifício novo situado mesmo ao lado do anterior. As pessoas mobilizaram-se e no final comemoraram a sua pequena vitória. O centro do mundo não se desfez e a utopia continuou a fazer-se no dia-a-dia daquele supermercado.

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