segunda-feira, novembro 07, 2005

Esquerda liberal vs direita liberal

Actualmente a ideia de liberalismo esfrangalha-se pela direita e pela esquerda, conforme as conveniências. Para a esquerda o direito à liberdade individual é propagandeada, sobretudo, ao nível dos valores. Nesta óptica, por liberalização entende-se o acesso relativamente livre, de impedimentos legais exclusivistas e excessivamente punitivos, a determinado tipo de práticas sociais e culturais - como é o caso do aborto, do uso de drogas, da sexualidade, etc. Para estas situações, a esquerda considera que o arbítrio moral depende, acima de tudo, da consciência individual de cada um e não de uma regulamentação geral determinada pela chancela do Estado. Neste sentido, a luta pelo liberalismo dos valores é uma luta contra o Estado.
À direita o projecto liberal é fundamentalmente de natureza económica. Também aqui o Estado é o alvo principal de contestação, quando se apregoa a desregulação de todo o tipo de proteccionismos. Para a direita liberal, a liberdade individual só se concretiza plenamente por intermédio do mercado livre.
Deste modo, a esquerda luta contra o Estado em nome de uma sociedade mais livre, a direita luta contra o Estado por um mercado mais livre. A situação inversa parece à partida impossível. Jamais veremos a direita a favor da liberalização das drogas ou do aborto, assim, como será difícil ver a esquerda apoiar uma liberalização absoluta do mercado.

No entanto, há uma grande diferença. Para a esquerda liberal o mercado só pode ser justo se for regulado pelo Estado. E isso faz-se, entre outras coisas, ao conseguir-se garantir uma certa igualdade de oportunidades a todos os cidadãos (à educação, à saúde, à justiça…). Assim, a liberdade perante o mercado só é plenamente alcançada se as principais desvantagens no acesso aos mesmos bens e serviços forem anuladas. Só igualizando as oportunidades se garante uma sociedade meritocrática e, neste sentido, liberal. Esta é a utopia da esquerda (pelo menos da esquerda em que me posiciono). Em contrapartida, para a direita liberal não existe liberalismo nos valores. Nestas questões a sua posição é essencialmente conservadora, na medida em que defende a regulação da moralidade por parte do Estado. Para a direita a moral deve ser imposta pela lei do Estado. Esta deverá estar acima de qualquer liberdade individual.

12 Comments:

Blogger AMN said...

Caro Renato, discordo, como é natural, de vários dos pontos levantados pelo post. Como tempo não é elástico, refiro apenas um.

"Para a direita liberal não existe liberalismo nos valores. Nestas questões a sua posição é essencialmente conservadora, na medida em que defende a regulação da moralidade por parte do Estado. Para a direita a moral deve ser imposta pela lei do Estado. Esta deverá estar acima de qualquer liberdade individual".

É neste ponto que mais discordo. A direita liberal, pode até ser mais conservadora no que respeita ao que pensa do mundo e aos valores individuais que carrega. Mas, ao mesmo tempo, a direita liberal entende que não cabe ao Estado imiscuir-se e regular essa esfera da vida dos cidadãos.

Questão diversa é saber se a direita liberal que se vê e se sente na blogosfera tem alguma correspondência na direita partidária e política em Portugal. Mas a direita liberal que parece surgir na blogosfera, ainda que admito, em alguns casos, possa ser conservadora nos valores, não pede ao Estado que os imponha ou regule. Por maioria de razão, também não pede ao Estado que os ignore.

Um abraço
a.

4:41 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

Bem, se é assim, qual então a posição da direita liberal (da blogosfera) relativamente à despenalização do aborto. Concorda que é fundamentalmente uma questão que depende da consciência individual (das mulheres)? Ou entende que o Estado deve impor, por intermédio da lei, uma determinada concepção que, neste caso, incrimina todas as mulheres que abortem?

5:54 da tarde  
Blogger AMN said...

Na direita liberal da blogosfera existem variados posts sobre o assunto, no sentido da despenalização do aborto. Mas, com o devido respeito, apesar de o exemplo ser estategicamente bem escolhido, não me parece que seja o mais adequado para chegar ao ponto defendido no post.

Porque quanto ao aborto, se houver a noção de que existe uma vida desde a concepção, deixa de estar na margem da livre escolha para os que entendem a vida como um direito fundamental a proteger desde a concepção. Qualquer liberal que entenda que existe vida e que ela deve ser protegida tem de entender que o Estado a tem de proteger. Não há vidas, para quem assim pense, mais vidas que outras.

Mas se falarmos de assuntos polémicos, que não envolvem uma concepção à partida nos termos do aborto, como sejam como as uniões de facto, os casamentos homosexuais, as adopções, a droga então poderemos assistir à emergência dessa direita liberal.
um abraço
a.

7:46 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

Caro amn, se de facto é assim, tenho algumas dúvidas que essa direita liberal consiga emergir para além da realidade virtual. Porque na realidade política e partidária o que se tem verificado é uma aliança estratégica(?) entre o neo-liberalismo na economia e o neo-conservadorismo nos valores.

Parece-me interessante este debate direita - esquerda. Não só nos permite compreender melhor o que pensa o outro, como nos ajuda a esclarecer e sistematizar as nossas convicções e princípios.

Um abraço, Renato.

8:20 da tarde  
Blogger AMN said...

Caro Renato, desta vez concordo um pouco mais, mas pouco ainda...

na "realidade política e partidária o que se tem verificado é uma aliança estratégica(?) entre o neo-liberalismo na economia e o neo-conservadorismo nos valores".

Percebo o que queres dizer, mas não concordo inteiramente.

Que a direita liberal da blogosfera está numa realidade virtual, é algo com que posso concordar, e sobre isso tenho escrito no A Arte da Fuga, variadas vezes. Que existe, por isso, um vazio completo, em termos partidários, da direita liberal blogosférica, 100% de acordo.

O que não consigo concordar é que consideres a direita partidária em Portugal como sendo neo-liberal em termos económicos.

Não quero, por agora, ir aos conceitos. Mas penso que PSD e CDS demonstraram, recentemente, que foram incapazes de fazer as reformas necessárias no sentido da liberalização económica e na fundação de um novo estado por opção ao social.

Na tua opinião, presumo, ainda bem. Na minha, ainda mal.

Mas não só não conseguiram, como não tentaram. Ou seja, o que penso que aconteceu nos governos PSD/CDS, foram passos modestos, num sentido de alguma liberalização, mas sempre dentro do quadro do Estado Social que nunca foi posto em causa, e não penso que tenha sido por falta de coragem. Há um consenso partidário quase unânime quanto ao Estado Social. E mesmo no CDS esse consenso existe.

Quanto ao interesse do debate, concordo inteiramente e cá estamos para isso, na serenidade de quem gosta da discussão.

Um abraço!
a.

10:17 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

Referia-me mais a contextos internacionais, nomeadamente, o americano. Onde se tem verificado uma aliança estratégica e extremamente perversa entre o radicalismo conservador e a concepção liberalizadora da economia e do sistema social. Em termos eleitorais a retórica neo-conservadora atrai votos, nomeadamente, das classes médias e das comunidades rurais; e um certo discurso neo-liberal atrai capital (que, entre outras coisas, financia a campanha). Esta foi a receita de Bush. E só isso explica a vitória de tão mau candidato. Tenho para mim que uma certa direita europeia se sente com vontade de encetar esta aliança. Não tenho grandes dúvidas que o CDS pós Ribeiro e Castro (talvez o de Pires de Lima) enverede por essa linha.

11:46 da tarde  
Blogger AMN said...

"Referia-me mais a contextos internacionais, nomeadamente, o americano".

Estamos então a falar de coisas diferentes, de facto. O exemplo que dás é o dos Estados Unidos onde dizes existir uma "aliança estratégica e extremamente perversa entre o radicalismo conservador e a concepção liberalizadora da economia e do sistema social".

Não posso concordar por inteiro, no sentido em que não consigo separar republicanos e conservadores com os mesmos critérios com que separo esquerda de direita na europa. Por outro lado, os EUA são um país liberal em termos económicos, com ou sem republicanos na presidência. Daí que não haja, na minha opinião, essa aliança de que falas. O que existe é uma Presidência profundamente conservadora, o que aceito sem grandes concessões.

Dizes também que a receita da eleição de Bush foi a retórica neo-conservadora aliada a um certo certo discurso neo-liberal. Esse é outro assunto completamente diferente daquele que nos trouxe a este post e mereceria comentários mais detalhados, que o tempo por agora não permite.

Finalmente, consideras que o CDS pós Ribeiro e Castro (talvez o de Pires de Lima) pode enveredar por esse aliança.

Outra questão a merecer comentários mais alargados. De qualquer forma, continua a pasmar-me a forma como o conservadorismo de Ribeiro e Castro sai impune em quase todas as análises políticas, quando ele é um conservador em termos morais como poucos há. Percebo que o facto de alegadamente ter derrotado a facção Portas lhe granjeie uma certa complacência, mas não posso concordar que esse perigo de que falas seja maior com Pires de Lima e apenas no pós Ribeiro e Castro...

O resto, fica para depois. Back to work

Um abraço,
a.

6:09 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Eu gostaria de saber a difereça de esquerda liberal de direita liberal?

2:51 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Aborto é pecado grave

7:57 da manhã  
Blogger Gael said...

Parabéns, anônimo. Mas se aborto, masturbação ou necropedofilia é pecado, o que tem a ver?

10:32 da tarde  
Blogger matheusrosales said...

Amn, quando voce diz "os EUA são um país liberal em termos económicos, com ou sem republicanos na presidência."voce esta querendo dizer que a força da economia americana é tão grade,que independente do partido que governe o pais, eles vão continuar sendo liberais economicamente?

2:41 da manhã  
Blogger joaquim said...

opa blz kra...
sera que vc podia me esclarecer um pouco da diferença dos dois conceitos...
qual os interesses que a esquerda e a direita defende...
em questao cultural, religiosa, social...
ainda sou um pouco leigo sobre essas questao...
um abraço...

5:57 da manhã  

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