quarta-feira, novembro 02, 2005

A fuga da direita liberal

O que procura a direita liberal? Este post publicado num blogue homónimo (mas de direita), é revelador do modo como esta área política encara a sua missão na sociedade portuguesa. Primeiro, não deixa de ser curioso verificar a mudança do estilo retórico. Palavras como batalha ou luta deixaram de ser exclusivas do vocabulário da esquerda. E isso é positivo. Mas que luta é essa? Basicamente são dois os alvos dos liberais. Por um lado, apregoam o desmantelamento radical do Estado Providência que, segundo a sua visão, representa o cancro maior da nossa sociedade. Por outro, entendem que a partir os despojos desse Estado emergirá a verdadeira liberdade individual, sob a alçada de uma sociedade de mercado. Ou seja, uma sociedade onde o indivíduo dependa exclusivamente de si e das suas condições objectivas e subjectivas para poder não só subsistir, como ascender economicamente. No fundo, a ideia base é: mate-se o Estado para que reine a vontade individual. É uma utopia antiga que tem por base uma crença: a crença que uma tal mão invisível faça justiça. Isto é, se todos os indivíduos jogarem o mesmo jogo (sem perversão, nem corrupção), utilizando as mesmas regras (as do mercado), aqueles que são mais capazes vencerão e terão naturalmente acesso a melhores condições de vida. Portanto, a consequência da mão invisível (o tal jogo livre do mercado) é uma espécie de selecção natural que separará o trigo do joio. Só assim a sociedade tornar-se-á mais fértil e logo mais avançada.

Ao propor uma batalha cultural, o que indica uma certa perspectiva vanguardista, a direita liberal tenta distanciar-se do pensamento conservador. No entanto, não é difícil perceber que no essencial a direita liberal continua a utilizar a mesma lógica conservadora para criticar o Estado social. Segundo Albert Hirschman, o pensamento conservador utiliza sobretudo duas teses para pôr em causa o Estado Providência. A primeira é a da futilidade, que nos diz que este tem o seu fim anunciado independentemente da vontade política dos governos e de grande parte da sociedade civil: o Estado social é fútil porque não tem remédio, por isso, vai destruir-se. A outra tese é a da perversão, que considera que o definhamento do Estado social se deve ao facto de este ter gerado uma série de perversões ao seu objectivo inicial. Ou seja, o Estado providência foi constituído para atenuar as desigualdades sociais, mas acabou por gerar um sem número de perversões que tiveram precisamente o efeito contrário: gerar mais desigualdades. As teses da perversidade e da futilidade são caras à direita tradicional e, neste aspecto, a direita liberal veste uma roupagem essencialmente conservadora.
Quanto ao seu projecto vanguardista, este, como vimos, não passa de uma crença. Basicamente tem-se fé numa mão que ninguém vê. Também aqui pouca diferença a direita liberal faz em relação ao património conservador. Basicamente não propõe nada de novo. A sua diferença é meramente na sua retórica mais agressiva e voluntarista. E também isso não é novo, pois, não fizeram mais do que importar algumas bandeiras da esquerda, como a ideia da revolução cultural… De facto, a direita liberal está para o conservadorismo, um pouco como o maoismo estava para o comunismo soviético. Mudam-se as vestes mas o fato continua a ser talhado com a mesma tesoura.

6 Comments:

Blogger AA said...

Caro Renato Carmo,

A "crença" não é na mão invisível, mas na liberdade individual do indivíduo, que dispensa mãos visíveis a puxar cordelinhos...

E aproveito para apontar que neste post não se procurou refutar nenhuma das teses que atribui à "Direita Liberal"...

Cumprimentos,

António Costa Amaral

1:24 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

Se nada vos separa da direita conservadora, então qual é o vosso projecto? Pretendem ser uma espécie de movimento de causas avulsas um pouco à semelhança daquilo que o Bloco faz à esquerda? Se é isso, mais vale manterem-se apenas pela blogoesfera!

3:20 da tarde  
Blogger AA said...

Admitindo o rótulo "Direita liberal" com base de discussão, separa-nos da Direita conservadora a convicção que o Estado não deve impor modelos económicos ou sociais à comunidade. Isso é um programa em si mesmo.

É perfeitamente compatível ser-se simultaneamente liberal e conservador de princípios. Bastará não impor à sociedade por via política as nossas convicções morais pessoais.

5:59 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

Mas sempre com uma fé inabalável no milagre da mão invisível...

7:06 da tarde  
Blogger AA said...

Esse termo é venenoso. A Mão Invisível de Adam Smith era na verdade a mão de Deus a zelar porque as transacções entre os homens fossem mutuamente vantajosas. Mas não nos concentremos em Deus,mas na conclusão de Smith.

Em regime voluntário, uma transacção comercial só ocorre se for mutuamente benéfica. As excepções ocorrem quando há coacção , ou quando não há alternativas (os monopólios que os Estados tanto nutriram).

Caro Renato, não há economista que não reconheça a validade da Mão Invisível.

4:53 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

A mão invisivel do forte contra o fraco ou do norte contra o sul?

5:35 da tarde  

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