quarta-feira, novembro 16, 2005

Globalização e liberdade

A globalização neoliberal assenta em três pilares fundamentais: a) o comércio livre destituído de qualquer proteccionismo; b) a desregulação dos mercados financeiros, que permita a circulação de capital sem barreiras; c) a deslocalização da produção, que apenas procura a maximização do lucro. Estes três factores associados provocam uma efectiva hegemonização económica e também cultural. Um mercado global plenamente aberto favorece a acumulação de capital e a constituição de gigantes grupos económicos. Favorece também a hegemonia do consumo, do gosto, das práticas culturais e do lazer. A globalização neoliberal é essencialmente uniformizadora!
A esquerda, em contrapartida, não deve refugiar-se no discurso da resistência contra a globalização. Como se esta fosse de facto homogénea. Ao fazê-lo e sem apresentar uma alternativa está, de certa forma, a legitimar o projecto neoliberal. Neste sentido, considero, quase em jeito de manifesto, que a esquerda deve lutar por uma globalização constituída a partir de outros três pilares: a) o comércio justo, em que se ponham a claro as condições sócio-económicas e ecológicas da produção dos bens que consumimos; b) o enfoque na territorialização das empresas, salvaguardando as regiões e os Estados da saída extemporânea das fábricas; c) a regulação global dos mercados, que passe, entre outras coisas, pela tributação das transacções financeiras.
Não se pretende impedir ou travar a circulação do capital ou das empresas, isso seria uma ideia sem sentido, já que a sociedade em rede se funda, acima de tudo, na velocidade de circulação de um sem número de fluxos. O que se pretende é regular por intermédio de três instâncias bem definidas: a) o indivíduo consumidor, cuja consciência pode determinar a lógica de produção das empresas ao recusar-se adquirir bens que são produzidos numa base de exploração; b) o Estado Nação, que pode atenuar o impacto da deslocalização se detiver o poder para aplicar um conjunto de deveres e de direitos às multinacionais; c) finalmente, a institucionalização de uma agência global responsável pela tributação das mais valias. Nada disto é novo na discussão teórica e ideológica. Mas no discurso e na prática político-partidária estas ideias esmorecem e são abafadas por uma empedernida retórica conservadora. A esquerda tem de reconquistar a vanguarda do mundo! E, por isso, deve lutar por uma globalização que potencie a diferenciação individual e a autonomia do Estados.

7 Comments:

Anonymous JL said...

Renato, obrigado pelo excelente texto. Agora, como afirmaste, muito mais preciso sobre o que devem ser as grandes bandeiras da esquerda do futuro. Ou desta esquerda no futuro.
Estou de acordo com os três pilares propostos e acrescentaria outras duas dimensões: a ecologia e a cultura.
Devemos defender uma industria limpa e um comportamento de máximo respeito pela natureza e por todos os seres vivos. Uma esquerda global deve ser contra a morte e exploração dos seres vivos.
Quanto à cultura, proponho que também apareça uma agência mundial para a defesa da diversidade cultural, que faça respeitar os hábitos e costumes de cada povo. Contudo, esta agência terá de lutar contra todos os costumes que firam os direitos humanos e dos outros animais.

Outro abraço e parabéns pelo lançamento do tema.

JL

6:54 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

Obrigado jl! As tuas propostas são interessantes. No entanto, tenho algumas reservas em relação a uma agência mundial pela preservação das culturas supostamente ameaçadas. Acho que a própria globalização tem contribuído para que as culturas locais se recriem e se tornem também globais. Tudo depende da mobilização e da capacidade cívica das populações em causa. O equilíbrio entre regulação e liberalização é periclitante. E, por vezes, um excessivo ênfase nos factores de regulação podem também provocar efeitos perversos inesperados.

Um abraço

10:04 da tarde  
Anonymous JL said...

Renato! Não sei se tens viajado muito por esta casa comum, mas todas as pessoas que pelo mundo fora se preocupam com os aspectos culturais de cada povo são da opinião que se não houver a sua defesa organizada e consciente, o padrão da cultura ianque num mercado desregulado dizimará e uniformizará tudo.
Eu estou totalmente de acordo com a tua visão dos pilares, mas defendo que a ideologia de esquerda de futuro tem de se preocupar com a unidade, tenha ela as características que tiver (indivíduo, grupo, tribo, nação). Isto sempre respeitando os direitos que enunciei, as fontes limpas de energia, o conforto e a felicidade do ser humano e acima de tudo a paz.
Já agora acrescento dois temas deliciosos de abordar do ponto de vista de uma esquerda de vanguarda: a energia nuclear e a exploração espacial.

Os meus agradecimentos pela tua resposta e um grande abraço.

JL

10:30 da tarde  
Blogger AA said...

Caro Renato Carmo,

De novo um texto provocante, mostrando que não é só na cor dos templates que as nossas Artes andam opostas.

Há vários erros fundamentais nesta sua análise que merecem ser destacados.

1. Primeiramente, a globalização é um processo que nada tem que ver com fenómenos "neoliberais" seja lá o que isso queira dizer.

Não querendo cair no ridículo de recuar demasiados séculos, bastará dizer que face à riqueza dos países de então, o mundo do século XIX era muito mais globalizado do que é hoje em dia.

Nessa altura não havia "neoliberais selvagens", mas gente interessada produzir riqueza pelo comércio livre. As taxas, tarifas, barreiras alfandegárias etc, apareceram na sua maioria neste século, sob a égide do controlo do Estado sobre a Economia.

2. O modelo liberal assenta, de acordo, no comércio livre, na abolição de proteccionismos, na livre circulação de pessoas, bens, serviços, capitais e informação, porque é o sistema que proporciona maior prosperidade às pessoas e às nações.

Falar de promover a deslocalização da produção é não compreender o capitalismo, algo que a pedagogia marxista muito bem fez. Aqui não queria alongar-me porque a retórica antiglobalização tem "resposta a tudo", e todas são falaciosas porque contradizem a realidade.

O investimento é feito não só onde é mais barato produzir, mas onde é mais _produtivo_ produzir _e_ existe um quadro legal e social propício para a criação de riqueza. É por isso que a maior parte do investimento global é feito nos países desenvolvidos (e não no "sub-mundo explorado") - porque os investidores querem saber o seu capital bem seguro. E não há risco de "fugas de capital" para o mundo sub-desenvolvido, ou vice-versa, conforme apetece ao folclore halloweenesco dizer.

3. O capitalismo é o sistema que menos promove hegemonia. Pela liberdade de escolha económica, os cidadãos podem comprar o que mais se ajusta aos seus costumes, e os investidores têm todo o interesse em proporcioná-lo.

A questão é sempre muito simples: dá-se liberdade ao consumidor de escolher entre produtos mais baratos, e os tradicionais que podem ser mais caros. Isso implica que a tradição é abandonada (é estranho a Esquerda refilar!). Mas é por esse processo que não andamos todos vestidos com os trajos típicos das nossas terras, tipo ilustração do Estado Novo. A menos que queiramos deixar os países mais pobres na miséria para que possam preservar a sua cultura, temos de aceitar que possam erguer-se economicamente abandonando velhos hábitos.

Há um fenómeno interessante na globalização: os países em vias de desenvolvimento aprenderam com o mundo desenvolvido a não fazer os mesmos erros. Aprenderam que a sua cultura tem valor económico. É natural que a preservem melhor do que nós fizemos (veja-se os valores franceses queimadinhos nas banlieus). Claro que é triste não podermos fazer "turismo de miséria", e quando vamos lá, tudo é "para turista ver", mas não temos de invejar a prosperidade dos outros.

4. Sobre o resto, especialmente a questão do comércio justo, é coisa que francamente me tira do sério, e estes comentários querem-se racionais e bem humorados... fica para outra altura!

Um abraço,

AA

12:10 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

Caro AA,

O seu comentário é longo e dá pano para muitos posts. De qualquer modo vou tentar comentar os aspectos que considero mais relevantes. Começando pelos “erros”.
1. Considerar o mundo do sec. XIX mais globalizado tendo como critério o nível de riqueza dos países mais ricos de então, é não ter a noção de como se organizam actualmente as sociedades e os mercados. Vamos ser claros, a globalização dos nossos dias tem por base um sistema organizado em rede de natureza informacional e comunicacional. O nível de circulação do capital é muito mais acentuado, e é nessa capacidade de circular que advêm a sua riqueza. Ou seja, no sec. XIX o investimento de capital tinha como objectivo a acumulação de riqueza, actualmente, o objectivo é que este circule de modo a conseguir o máximo de mais valias.
2. Esquece-se que a economia do sec. XIX era dominada pelo grande império inglês e por outros mais pequenos. Evidentemente que existiam menos taxas, tarifas e barreiras alfandegárias. No interior do império o comércio era sem dúvida livre! Felizmente, durante o séc. XX passou-se da égide da dominação imperial para a égide do “controlo do Estado sobre a economia”. O problema é que muito ‘boa gente’ ambiciona o retorno do domínio imperial para que o comércio volte novamente a ser “livre”. Considera que o capitalismo industrial e o comércio livre do sec. XIX proporcionaram maior prosperidade às pessoas e aos territórios colonizados? Na sua opinião a miséria actual desses países não é, em parte, uma consequência desastrosa desse sistema que vigorou até há umas poucas décadas atrás?
3. É obvio que a maior parte do investimento continua a ser feito nos países desenvolvidos. Mas se tivermos em conta somente o sector da produção material (fábricas), verificamos que actualmente este se canaliza sobretudo para os países sub-desenvolvidos. Quando falo de deslocalização refiro-me às fábricas que se implantam em determinadas zonas do mundo tendo como único objectivo a maximização do lucro, independentemente das consequências nefastas que podem causar a nível ambiental, social e humano. Não há o intuito por parte das multinacionais em contribuírem, pelo menos directamente, para o desenvolvimento sócio-económico das regiões em causa. E não é preciso descrever-lhe o estado em que deixam certas zonas depois de saírem para outros destinos. Porque não refere aqui o exemplo de muitos industriais do séc. XIX que foram pioneiros em políticas paternalistas ao nível da integração dos operários e na melhoria das suas condições de vida. Neste ponto até foram percursores naquilo que viria a ser o Estado Social, que a direita liberal tanto abomina.
4. O comércio justo baseia-se numa lógica de diferenciação. Diferenciar as empresas que não poluem e não exploram pessoas daquelas que o fazem selvaticamente. Já percebi que isto lhe é indiferente, tudo se resume a uma questão de produtos mais baratos ou mais caros. Pois bem, para a esquerda este aspecto é central e é tudo menos uma questão de trocos.
Bem, este meu comentário a seu comentário já vai longo…

Um abraço, Renato.

10:34 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

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11:18 da manhã  

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