domingo, novembro 20, 2005

Soares e o nevoeiro

Soares pretende unir os socialistas na primeira volta, unir a esquerda na segunda, para, finalmente, unir os portugueses se for eleito presidente. A unidade parece tornar-se a sua grande bandeira de campanha. É uma bandeira gasta pela esquerda e que actualmente só é utilizada no reduto de alguns partidos e movimentos de resistência. Sempre que fala em prol da tal unidade Soares torna-se escravo das sondagens e revela a sua fragilidade. Demonstra que está com receio de perder. Em termos sociais e identitários a unidade é uma mistificação, representa a igualização do não igual. O povo português sempre adorou a fábula de uma unidade mítica em torno de um desejado salvador da pátria. Nestas eleições, Cavaco manipula todo o seu silêncio de forma a construir a imagem do desejado unificador. Soares jamais terá qualquer hipótese se jogar nesse tabuleiro. Nunca venceu nenhuma eleição incorporando uma figura sebastiânica. Pelo contrário, ganhou sempre por exclusão de partes. Em momentos decisivos tirou dividendos de uma fervorosa conflitualidade verbal e até física, que o levaram à vitória contra políticos que, esses sim, alimentaram a sua imagem pública recorrendo muitas vezes a um certo misticismo (Cunhal e, em alguns momentos, Eanes). Soares foi o único político que conseguiu vencer os D. Sebastiões da nossa democracia. Fê-lo porque nunca se deixou envolver em nevoeiros imaculados. Se o fizer desta vez perderá certamente.

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