sexta-feira, novembro 25, 2005

Tabloidização vs tabloidização

O assunto das faltas de substituição tem gerado muita polémica. É uma medida simples, perfeitamente justificável e que em princípio não deveria causar tanta revolta. Mas os sindicatos são, cada vez mais, organizações corporativistas dominadas por um discurso de resistência que tende a encarar qualquer mudança como um atentado às conquistas passadas e adquiridas. Optando por esta estratégia os sindicatos acabam por proteger fundamentalmente os interesses dos trabalhadores instalados (os tais efectivos). Daí toda esta mobilização fervorosa em torno da extensão da idade de reforma e agora das horas de substituição. De repente, parece que deixaram de haver outros problemas na educação, nomeadamente, o da precariedade e da instabilidade de emprego nos professores mais jovens. Paradoxalmente, a bandeira de luta contra as aulas de substituição suplantou a questão central do concurso de professores, que está igualmente a ser debatida com o governo.

Contudo, considero que esta ênfase dada às aulas de substituição e às faltas se deve em grande medida à inabilidade e a alguma arrogância que o governo demonstrou em todo este processo. Não entendo porque é que o actual governo ‘socialista’ se deixa afectar tanto com o facto dos funcionários públicos fazerem greve. Não compreendo porque é que iniciou e/ou respondeu à contestação, que naturalmente o sindicatos assumem nestas circunstâncias, com uma estratégia arruaceira. No dia da greve ouvimos o Secretário de Estado da Educação avançar com um número claramente provocatório, sugerindo directamente que os professores são dos profissionais mais faltosos da Função Pública (em declarações à TSF). O que é que ganhou o governo com esta postura guerrilheira? Acharia o governo que os sindicatos e alguns partidos de esquerda optariam por uma atitude construtiva e de concertação com um governo que fez tudo para a inviabilizar?
O Secretário de Estado não só foi muito inábil politicamente como demonstrou uma grande falta de sentido de Estado, porque face à contestação respondeu, ele sim, com a ‘tabloidização’. E todos nós sabemos que quando se entra no jogo da mediatização, gera-se e é-se alvo de mais mediatização. Por isso, não entendo o espanto de algumas vozes do PS, como Paulo Pedroso, sobre a dita tabloidização levada a cabo pelo Bloco de Esquerda sobre o caso das faltas não justificadas do ex-vereador Valter Lemos. O BE não fez outra coisa com os governos do PSD, lembre-se do caso da filha do Ministro dos negócios estrangeiros. E nessa altura o PS sorria e até achava alguma piada ao estilo. Não têm por isso nenhuma legitimidade para se virem agora queixar com ar ressentido do estilo tablóide de Louçã.

3 Comments:

Anonymous JL said...

Olá Renato!
Parabéns pelo artigo sobre os políticos que nos têm governado até hoje, a propósito do "valter".
Vejo que demonstra interesse pelos problemas educativos do nosso país. Isso acontece a todos nós, pois todos temos, felizmente, alguma ligação ao sistema educativo português. Somos alunos ou professores, ou temos algum familiar que é aluno ou professor. É muito bom que sejamos todos um pouco conhecedores deste nosso sistema.
Sobre as aulas de substituição, penso que existem alguns dados que lhe podem ajudar a perceber porque tem sido um assunto tão melindroso. Desde o 25 de Abril que todos lutamos por um ensino universal e contínuo (para alguns, onde me incluo, gratuito). Os professores têm vindo constantemente a propor que se criem estruturas para garantir que nenhum aluno fique sem aulas em qualquer momento do dia ou do ano. A estas propostas todos os ministros têm respondido com um desinteresse total.
Este ano lectivo e com a euforia economicista, os tais do "valter" viram nas aulas de substituição um filão. Ignorando totalmente os professores, alcunhando-os de parasitas e improdutivos, avançaram com estas medidas sem nexo. Um professor que seja cumpridor, que prepare muito bem as suas aulas e que nunca falte, para além de ter que suportar o sacrifício do seu trabalho ainda tem de ir dar as aulas de outro colega que faltou. Acresce que este professor pode ser de desenho e tem de ir inesperadamente dar uma aula de inglês, sem estar preparado e sem saber em que ponto vai o cumprimento do programa. Noutros casos o mesmo professor pode ter de ir dar aulas a alunos do 1º ciclo mesmo que a escola fique longe daquela onde lecciona.
Renato, não sei se sabe o que isto significa para qualquer profissional, nem sei se concordaria que fosse tão simples assim, você fazer o seu trabalho integralmente e, por ser cumpridor, ainda ir fazer o trabalho de outros profissonais que tivessem faltado, ainda por cima longe do seu local de trabalho. Falta aqui acrescentar que não receberia nem mais um centavo por tal.
Pelo que tenho lido dos seus escritos, parece-me uma pessoa inteligente e sensível perante as injustiças e o desvario exercidos por estes "valteres" que nos desgovernam, infelizmente há 30 anos.
O povo português não é nenhuma corja de malandros constituía em organizações corporativas, como o "nosso" primeiro apregoa. Nem um antro de privilegiados que se rebela a qualquer vento de mudança.
Acredite, Renato, este foi o pior erro que o PS fez em toda a sua história. Este povo deu de peito aberto uma maioria absoluta a estes inefáveis, porque acreditou na mensagem, na palavra. Estava farto e pensava que tinha batido no fundo. Infelizmente desconhecia que abaixo do fundo ainda havia mais fundo.
Você tem de reconhecer que não merecíamos tamanha traição. Não há acto mais repugnante que é virar as costas a quem acreditou em nós. Viriato nunca esteve só, e neste país infelizmente o seu triste fim é encenado e mimificado diariamente.
Você neste seu artigo aborda também o problema da aposentação. Fico a aguardar uma nova insistência para poder comentar, já que este primeiro tema excedeu o tolerável espaço de um comentário.
Pelo facto apresento as minhas desculpas, mas penso ter-lhe dado mais alguns argumentos para a compreensão do estado em que o nosso povo se encontra.
Este meu comentário não deve ser encarado como qualquer crítica, mas sim como um sentido elogio ao melhor e mais sadio sítio onde se pensa política portuguesa na rede.

Os meus cumprimentos,
JL

12:55 da manhã  
Blogger Renato Carmo said...

Caro jl, muito obrigado pelo elogio. Ainda bem que aprecia o registo desta fuga. Contudo, vamos esclarecer uma coisa: não há comentários longos de mais, portanto, não de acanhe em escrever e vamos acabar com a cordialidade. Está bem?

Quanto ao conteúdo do seu comentário estou de acordo com muitas coisas que diz, mas penso que é um pouco excessivo abordar o problema da substituição de aulas, como uma questão que agrava as desigualdades perante as condições de trabalho. Comparado com a instabilidade de emprego que afecta dezenas de milhar de docentes, essa questão até parece quase irrelevante. Aliás, se os níveis de instabilidade e de permanente mobilidade não fossem tão elevados, o número de faltas diminuiria certamente. Por isso, penso que a questão dos concursos é verdadeiramente central. Acho que os professores e, sobretudo, os sindicatos têm transmitido para a praça pública uma imagem de aversão a qualquer tipo de mudança, o que representa uma forma clara de conservadorismo.

Mas em toda esta discussão há uma coisa que não entendo. Os professores alegam que não faz sentido a substituição entre docentes que leccionam matérias muito diferentes. Mas qual é o problema de, por exemplo, um professor de filosofia que vai substituir uma hora de educação física poder dar ou orientar os alunos sobre as matérias de filosofia? Qual é o problema de naquela semana a turma x ter tido 5 ou 6 horas de filosofia? Há um limite de horas para o conhecimento? Assim, cada grupo até poderia planificar actividades e conteúdos a serem desenvolvidos nas tais horas de substituição. Aliás, até seria um pretexto para o aprofundamento do trabalho em equipa que é tão deficitário na maior parte das escolas.


Um abraço, Renato.

3:54 da tarde  
Anonymous JL said...

Renato, obrigado por me pores à vontade. No mesmo sentido lanço a proposta para nos tratarmos na 2a pessoa.

Fiquei satisfeito pelo tom muito mais compreensivo com que abordas desta vez as aulas de substituição.
Comecei por afirmar que os professores sempre defenderam um regime de acompanhamento total dos alunos, o que me parece extremamente correcto. Discordo dos epítetos de corporações e conservadorismos com que a direita, na qual se tem incluido este PS, tem apelidado os professores.
Em Portugal, reside na escola o melhor e mais vanguardista que existe. Seres humanos incansáveis que pensam dia e noite nos seus alunos, que se preocupam com a sua vida social e económica, para quem o dia de trabalho não tem limites. Felizmente, desde muito novo frequentei a escola, sempre adorei os meus professores, tudo o que hoje sou a eles lhes devo. Acho uma tremenda injustiça a forma despudorada com que este governo trata a nata do nosso povo.
Como demonstras, em poucas linhas traças uma série de orientações simples de aplicar e com as quais estou totalmente de acordo. Não existe excesso de conhecimento, na minha opinião, nunca.
Contudo, segundo o que eu sei, o que foi feito foi dar uma ordem autoritária, sem nexo nem qualquer racionalidade, para que as aulas das disciplinas fossem ocupadas mas pelas matérias das disciplinas.
Esta ordem foi ditada, como em muitas outras áreas da nossa administração, sem ouvir ninguém. Impunha-se dialogar com todos os interessados e encontrar uma forma de aplicação desta medida tão necessária. Agora, uma coisa não tenho dúvida: eu nunca penalizaria um professor cumpridor, não seria esse professor que iria dar as aulas de substituição.
Se queres dizer que esta seria uma via de dar emprego a muitos professores que estão sem escola. Aí estou totalmente de acordo. Mas concerteza que não isto que os neoliberais defendem, eles não se preocupam com a educação das nossas crianças. Não vejo este simulacro de ministra minimamente preocupada numa educação de qualidade. Só existe uma coisa que preocupa esta gente: tentar ficar com a maior fatia do bolo possível e partilá-la com com quem eles servem.
Estamos mundialmente nesta onda, os vampiros estão na rua, à luz do Sol.
Já agora em relação às faltas, é do domínio público que os números foram manipulados pelos senhores do ministério. É também conhecido que é na classe docente onde existe menos absentismo. É o sector do estado onde existe menos absentismo, não sei se sabias deste dado. O que estes "valteres" fazem é contar como faltas todas as aulas não dadas. Entram aqui os atrasos nas colocações, as visitas de estudo, as situações de encerramentos das escolas por múltiplas razões. Apenas uma parte, que não é a maior, é devida a razões pessoais do professor.
Para qualquer pessoas sensata isto não passa de uma reles vigarice.
Temos um governo de gente não corajosa. Em todas as classes, militares, saúde, justiça, educação, administração, existem incumpridores. Ora, um governante corajoso resolvia de uma forma decidida todas estas falhas. Mas localizadas, dirigidas a quem não cumpre. Isto era de louvar.
Pelo contrário, o que eles fizeram foi enxovalhar os profissionais mais dignos deste país, de todos os quadrantes.
Ninguém, neste momento sente mais pena desta oportunidade perdida, do que eu. Tinham tudo para fazer tudo bem feito. Não conseguem fazer uma de jeito. Parece sina nossa.
Não se pode fazer uma coisa mais grave a um profissional competente do que feri-lo na sua dignidade.
E foi este o crime que estes inefáveis fizeram neste 9 meses, e infelizmente parece que, apesar de todos os alertas das instâncias mais altas, teimosamente não desejam fazer qualquer alteração em tão nefasta forma de agir.
Por isso não te admires de uma coisa que te parece tão simples, e é, dar tanta turbulência. Amanhã será noutra qualquer área. O ambiente no país é explosivo e nunca sabemos onde o rastilho pode começar a arder.
Portanto, na minha opinião o que temos na nossa governação é um conjunto de pessoas que se julgam possuidas de uma poção mágica, em transe, que pensam que tudo podem fazer só porque o nosso povo ingenuamente lhe deu o seu voto.
E assim vai esta nossa mediocracia.

Um abraço, JL

12:36 da manhã  

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