Políticas de esquerda: a reforma agrária
Depois do fechamento das comportas da barragem do Alqueva e do tão esperado crescimento do mar de água, parece pertinente pôr a seguinte pergunta: e agora? A resposta, que tarda, parece ser óbvia: agora é o regadio. Assim, por acção quase divina, o grande lago irá só por si reconverter o extenso mar amarelo e seco que caracteriza os latifúndios alentejanos em férteis e verdejantes prados e pomares. Como se as práticas de gestão agrícola mudassem apenas com a instauração (muito lenta) de uma rede de distribuição da água.
O aproveitamento das potencialidades proporcionadas pela barragem para a generalização da cultura de regadio é incompatível com duas situações estruturais no Alentejo: a manutenção de uma estrutura fundiária assente na grande propriedade e a manutenção de uma mentalidade de gestão pouco dinâmica e empreendedora. Se não se intervir nestas matérias, o futuro da agricultura desta região estará ainda mais comprometido. Para além, dos campos de golf e da especulação imobiliária para fins turísticos, é provável que se assista à invasão de agro-industriais com “fome de terra”, que praticam uma agricultura que explora sem privações os recursos naturais e ecológicos bem como os recursos humanos. Veja-se o que se passa na Andaluzia, onde o modelo agrícola está à beira da saturação.
Em vez de uma agricultura assente no lucro desenfreado e na exploração da mão-de-obra barata imigrante, é imprescindível promover uma agricultura de qualidade, se possível biológica, que se dedique fundamentalmente a culturas de origem mediterrânea. É importante dinamizar o cooperativismo agrícola de modo a desenvolver redes de solidariedade económica e social que se concretizem na eficácia do escoamento, distribuição e comercialização dos produtos agrícolas.
Deste modo, torna-se fundamental exercer uma concreta política de esquerda que assuma sem complexos a necessidade de uma reforma agrária que promova a pequena e média agricultura, incentivando, por seu turno, a fixação de jovens agricultores (nacionais e imigrantes). Só por intermédio da reforma agrária é possível apoiar o desenvolvimento de uma dinâmica classe de empresários agrícolas no Alentejo.
Neste sentido, o Projecto de Lei nº383/VIII, proposto pelo PCP (já lá vão uns anos) é um excelente ponto de partida para uma efectiva política agrícola de esquerda. A constituição de um “banco de terras”, que, aliás, o programa do actual governo consigna, e o consequente arrendamento por concurso público a pequenos e médios agricultores parece um caminho possível. Pode, obviamente, discutir-se o limite de referência de 50ha para a propriedade, proposto no projecto, mas este não pode ser impeditivo de uma discussão e de um consenso alargado entre os vários partidos e organizações de esquerda.
Penso que não é possível um efectivo desenvolvimento rural e agrícola do país sem enveredar por uma política de reestruturação fundiária que incremente o emparcelamento do minifúndio (a Norte) e o parcelamento do latifúndio a Sul. Muitas coisas melhorariam no mundo rural. A começar pela floresta, cujo ordenamento só é verdadeiramente viável se existir uma vontade política em mexer na propriedade.
7 Comments:
Então e por que espera o governo para avançar??
Ou será que a floresta só é importante quando a comunicação social aparece de microfone em punho atrás dos bombeiros??
Boa pergunta.
O emparcelamento acima do Tejo teria a grande vantagem de dimuir os riscos de incêndio durante o Verão. Quando perguntam às pessoas a razão por que têm as propridades sujas, a resposta é sempre a mesma: não vale a pena.
Essas ideias já foram rejeitadas ha 30 anos.
Há 30 anos as pessoas conquistaram a liberdade de se expressar sem se esconderem no anonimato.
ao contrário do que diz um "anonynous" estas ideias foram tentadas a partir do final da G.G.M., tendo sido implantadas sem sucesso duracte a década de 50.
O que impediu ( e impede) a restruturação da dimensão das parelas agrícolas exploradas em Portugal? - 900 anos de história e muita resistência à mudança da estrutura de propriedade.
Como mudar? apostar no mercado livre que está a agregar áreas florestais a norte e a retalhar áreas vinícolas e de regadio a sul. Mas para acelarar a mudança nada como taxar em dobro unidades territoriais não produtivas (está em projecto lei desde antes do Durão).
Mané
Eis que surgem no horizonte da planície os cavaleiros da boa sementeira, galopando as searas ondulantes, fazendo saltar bolotas e soltando o slogan final: Alentejo, quintal de Portugal!
Calcados pelos cacos dos cavalos, jazem poeirentos os argumentos do ignorado lavrador Luciano Amaral: latifúndio alentejano como introdutor da mecanização no país, modernização só com políticas racionais, etc., etc..
Valerá a pena resgatá-los da poeira e, quiça, replicá-los?
Enviar um comentário
<< Home