sexta-feira, dezembro 02, 2005

A propósito de uma posição liberal de sociedade

Um post publicado no blogue Portugal Contemporâneo “linkado” em quase todos os blogues de direita liberal, levou-me a tecer algumas considerações. O mote para o meu comentário (que transcrevo a seguir) surge desta frase:

“Para o liberalismo a sociedade ordena-se por si mesma, naturalmente, sem necessidade de intermediários”.

Não tenho formação jurídica, no entanto, como sociólogo não deixa de me espantar esta afirmação. O conceito de sociedade é traiçoeiro e utilizado sem precaução torna-se muito ambíguo. Pode significar quase tudo e não representar quase nada. A ideia de a sociedade se ordenar a si mesma é uma mistificação sem qualquer relação com a realidade concreta. De que sociedade está a falar? Quando refere a capacidade da sociedade se auto ordenar, em que escala está a pensar: grupos sociais, comunidades, cidades, regiões, nações… ou tudo isto ao mesmo tempo? Se bem percebi, essa ordenação pressupõe a coesão entre um conjunto de indivíduos de modo a estabelecerem e reactualizarem uma ordem definida e comummente aceite. Essa ordenação é assim gerada naturalmente como se uma mão invisível ligasse cada indivíduo a um todo (colectivo?) resultante da agregação das suas vontades particulares. É gerada sem a interferência de intermediários (leia-se o Estado e demais instituições) que, segundo sua concepção, não pertencem à sociedade mas tentam impor um determinado modelo de organização (o que é um paradoxo). Ao fazê-lo estes tais intermediários enviesam a ordenação natural e deturpam o equilíbrio da mão invisível.

Vai-me perdoar, mas esta visão de sociedade não só é completamente naif, como é destituída de realidade. Não encontro na história da humanidade nenhuma sociedade com essas características. As poucas excepções são certas sociedades ancestrais auto-suficientes, como era o caso das tribos ou de algumas aldeias camponesas comunitárias. Aliás, nestas aldeias encontramos alguns traços daquilo que definiu como liberalismo. Estas organizavam-se tendo por base umas poucas leis tradicionais (e algumas regras básicas) passíveis de serem adaptadas e moldadas às circunstâncias vividas quotidianamente. Normalmente fazia-se por consenso entre todos os elementos da aldeia que se juntavam regularmente numa espécie de conselho. A eficácia deste tipo de sociedade residia num conjunto características fundamentais: grande homogeneidade social, uma certa autonomia económica, forte enraizamento social e ecológico, etc.

Numa sociedade cada vez mais global e essencialmente interdependente, como a actual, essas características são completamente inviáveis. É curioso verificar que a vossa concepção de sociedade não está assim tão longe de um certo comunismo primitivo. É verdade, no que concerne a utopias singelas os extremos aproximam-se e caem nas mesmas falácias. Transformam-se em dogmas! E, como se viu ao longo do séc. XX, a prática dá-se muito mal com visões lineares e modelos absolutos de sociedade.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

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8:02 da manhã  

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