segunda-feira, dezembro 05, 2005

Ser de esquerda

Surgem aqui e ali tomadas de posição sobre o que representa ser de esquerda e de direita. Considero que não só continua a ser pertinente uma clara distinção ideológica, como, a meu ver, se torna importante aprofundar os sentidos dessa oposição. Por isso, é importante retornar, em certa medida, às proposições simples, aquelas que realmente valem para definir e orientar a nossa identidade política. Sendo assim, entendo que ser de esquerda implica, antes de qualquer outra coisa, uma preocupação com o problema das desigualdades sociais.
Para a direita a desigualdade é uma inevitabilidade das sociedades e dos mercados é o custo legítimo que se tem de pagar para a criação de riqueza. Nestes termos, a atenuação da desigualdade não é uma prioridade mas uma consequência secundária resultante da capacidade das economias produzirem mais. Havendo mais riqueza as condições de vida melhorarão quase automaticamente. Neste sentido, é indiferente para a direita que a produção de riqueza assente numa base de exploração entre os homens. Para esta o conceito de exploração é uma mistificação.
A esquerda, para além de entender que nada justifica a exploração, considera que um dos factores subjacentes à desigualdade é a sua própria reprodução. Por isso, entende que, por si, a criação de riqueza leva naturalmente à acumulação e não à repartição. Isto é, se dado sistema económico se sustenta a partir de uma base acentuada de exploração, estas condições não se alterarão e continuarão a prevalecer se nada for feito em sentido inverso. Daí a importância que a esquerda atribui ao Estado e a outras instituições reguladoras. Daí a crítica à actual globalização económica que tendencialmente favorece a acumulação de capital e a reprodução das desigualdades sociais.
Para a direita o Estado representa um factor de deturpação das leis do mercado no qual os mais capazes vingarão e conquistarão as suas oportunidades. A acção estatal tende a ser vista como geradora de perversões ao gratificar os incapazes e ao prejudicar quem conquistou vantagens. E, neste sentido, a liberdade individual é posta em causa.
No caso da esquerda, o Estado é encarado como um agente que garante uma equidade de oportunidades dado que as pessoas partem de condições sócio-económicas muito diferenciadas. Nesta óptica, as vantagens de alguns indivíduos não são vistas como meras conquistas, mas como o resultado determinado em parte pela reprodução desigual das condições de partida. Só garantindo o acesso a certos direitos básicos (educação, saúde, justiça…), se consegue atenuar as assimetrias de base. E isso faz-se por intermédio de políticas públicas que quebrem parcialmente a reprodução das desigualdades sociais. Só assim uma vantagem se transforma de facto numa conquista. Este torna-se um requisito fundamental para alcançar uma verdadeira liberdade individual.
Eu não tenho dúvidas sobre o lado que tomo. Mas considero que partir destas preposições simples se devem gerar outras mais complexas e inovadoras de modo a que o projecto da esquerda não se quede em posições teimosamente conservadoras e basicamente resistentes. É imperativo assumir sem complexos uma postura crítica e imaginativa perante os pressupostos básicos que enumerei neste post.

11 Comments:

Blogger AA said...

cuidado com as cores dos textos... este mal se consegue ler...

3:09 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Excelente texto, Renato (aliás, como é habitual). Vou partilhá-lo com alguns amigos com quem tenho debatido esta questão, e com quem me perco em tentativas de enunciar "preposições mais complexas e inovadoras" da esquerda, dando as mais simples como adquiridas. Ao ver estas últimas expressas deste modo, parece-me inequivoco que devem, sempre, constituir o ponto de partida para a reafirmação da nossa pertença ideológica.
Sandra

8:52 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

Sandra, ainda bem que este post vai ser mote para clarificar e aprofundar o debate. É importante que a discussão de ideias ultrapasse os circuitos (virtuais)da blogsfera.

Cumprimentos, Renato.

10:26 da manhã  
Blogger Joao Galamba said...

Caro Renato,

Ha uma dimensao que julgo preceder a redistribuicao e que, na minha opiniao, e fundamental para que ela se torne posssivel: o elemento e soberania da dimensao politica da sociedade. A Esquerda liberal americana (vulgo, Rawls e seus herdeiros) refugiaram-se numa componente constitucional e legalista, ignorando (ou mesmo combatendo) a componente democratica do Liberalismo de esquerda. Penso que sem esta o futuro da esquerda e' negro, pois acaba em moralismos varios (reduzindo a politica 'a elaboracao de principios eticos sem qualquer ligacao a realidade politica e conomica do mundo).

Um abraco,
Joao Galamba

2:38 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

Caro João, o objectivo deste post é o de enumerar um conjunto de questões básicas que separam claramente a esquerda da direita.
Concordo com o seu comentário. A dimensão política não só é essencial como deverá ser recriada noutros espaços e círculos para além dos mais tradicionais e institucionais. Mas isso ficará para próximos posts.

Um abraço, Renato.

2:58 da tarde  
Blogger Joao Galamba said...

Caro Renato,

Este comment serviu tambem para responder parcialmente a questao que me colocou no metablog ( no post dos neoliberais e marxistas). Dentro da esquerda em revejo-me em posicoes de autores como Michael Walzer e Charles Taylor que tentam recuperar a dimensao de cidadania e o vigor da practica democratica que tinha sido negligenciada por alguma (a maior parte?) da esquerda Americana.

Um abraco,
Joao

3:40 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

A dicotomia Esquerda-Direita apresentada no texto do renato reduz-se à sua dimensão económica, e associa a Esquerda à defesa da intervenção do Estado contra uma Direita defensora dum Estado não-interventor.

Acho que esta abordagem faz o jogo da Direita, escondendo o que verdadeiramente está em causa, e liga a Esquerda ao Estado-aparelho quando nem toda a Esquerda comunga da mesma visão do papel do Estado nem a Direita sequer defende um Estado não-interventor.

Vamos por partes.

(1) O que distingue a Esquerda da Direita? A atitude perante o Poder. A Esquerda pertende que o Poder (seja político, económico ou social) esteja distribuído tão equatitativamente quando possível. A Direita não o quer: pretende que o Poder esteja nas mãos dos que "o merecem" segundo os seus próprios critérios (ex. nascença, mérito perante o mercado).

(2) De (1) resulta uma série de estratégias possíveis para chegar a cada um dos objectivos, quer à Esquerda quer à Direita. No que concerne a Esquerda, uma das estratégias possíveis é a construção de um Estado que, tal como o renato descreve, tente gerar igualdade no que se refere às condições indespensáveis para que um cidadão deenvolva ao máximo todas as suas potencialidades: alimentação, saúde, habitação, educação. Esta estratégia, está na base do que se designa por (social-)liberalismo, social-democracia, socialismo, comunismo. A diferença entre estas diferentes vias, tem principalmente a ver com o nível de intervenção do Estado na sociedade, e não com a qualidade da sua intervenção. No entanto, há uma tradição de Esquerda, o Anarquismo, que acha que a instituição de um Estado é um erro estratégico da Esquerda, pois este será inevitavelmente colonizado por aqueles que pretendem ter mais Poder do que os outros. Este receio foi exemplarmente demonstrado com o que se passou por ex. na URSS: um Estado que à partida se pertendia comunista transformou-se num Estado que efectivamente implementava políticas de Direita, onde o Poder estava extramamente concentrado nas mãos de poucos.

(3) É falso que a Direita, mesmo a neo-liberal, não pretenda um Estado-interventor. A Direita conservadora e neo-liberal precisa do Estado para assegurar a manutenção da propriedade nas mãos de poucos, e reprimir via exército, polícia e tribunais todos aqueles que contestem essa propriedade.

(4) Decorre daqui que a Esquerda deve ter cautela ao pedir Estado, e mais Estado? Sim. Mas principalmente deve dar mais atenção ao modo de controlo do Estado. Para que o Estado não seja usado contra os objectivos da Esquerda, o seu controlo deve estar distribuído pelos cidadãos. Ou seja o governo deve estar permanentemente nas mãos dos cidadãos muito mais do que hoje, de modo a impedir que interesses privados, contrários ao interesse da maioria colonizem o Estado e o usem em seu proveito. Precisamos rapidamente de uma Democracia Participativa. Só assim é que a Esquerda, que luta pelos interesses da maioria, terá a garantia que a longo prazo irá prevalecer sobre a Direita. Experimentem propor a Democracia Participativa a alguém de Direita e vão ver o horror nas suas faces. Estrategicamente a Democracia Participativa é hoje o mais importante objectivo da Esquerda.

Pedro

4:28 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

Comentário

Pedro, concordo no essencial com o seu interessante comentário. No entanto, devo relembrar que o objectivo deste post era o de definir um conjunto de proposições básicas que separam esquerda e direita.
No entanto, tenho alguns reparos. Quanto a mim, a questão primordial, que antecede todas as outras, é a da desigualdade social (que é mais do que um problema económico). A exploração e, também, a alienação continuam a ser os efeitos mais brutais do capitalismo, como bem identificou Marx. Contudo, considero que o Estado não pode ser encarado como o meio de resolver tudo. E muito menos o Estado que temos hoje. Sou muito crítico de uma certa visão de esquerda (conservadora) que protege o Estado a todo o custo. Acho que o Estado também é um elemento gerador de desigualdade, sobretudo no que concerne à manutenção de privilégios de algumas elites.
De qualquer modo, só o Estado pode garantir alguns direitos básicos que permitam a atenuação da desigualdade de oportunidades. E estes têm de ser defendidos a todo o custo.
Entendo que a esquerda tem de procurar outras instâncias e formas de participação política e, também, de reabilitar algumas que têm sido recalcadas no inconsciente da sociedade civil (por exemplo, a reforma agrária, as comissões de moradores...).
É verdade que existem outras vertentes do pensamento da esquerda (originárias do principalmente do séc. XIX) que foram postas de lado ao longo do séc. XIX. É importante reabilitar alguns desses contributos como o de Proudhon.
Cá estaremos!

Um abraço, Renato.

5:42 da tarde  
Anonymous JL said...

Renato, mais uma vez um brilhante artigo. Perfeito.
Esta é uma argumentação muito válida sobre a separação entre esquerda e direita. Concordo plenamente.
Já agora, gostaria de juntar a minha voz ao AA que solicita uma mudança do fundo do texto. Seria um grande avanço, pois torna-se mesmo muito incómodo ler os textos. Sei que isto implica mudar de servidor, mas podemos sempre tentar.
Fica aqui o alerta porque cada vez é maior o número de pessoas que vos visitam. E ainda bem!
Um abraço,
JL

12:07 da manhã  
Blogger Renato Carmo said...

Ok, vamos pensar na tua sugestão. Mas já estamos a ficar habituados ao fundo preto.

Um abraço.

12:29 da manhã  
Anonymous Daniel Melo said...

Pois é, com esta posta entraste definitivamente no círculo dos presidenciáveis, parabéns.
Já só te faltam 7499 declarações, a minha humilde aqui fica.
Não esquecer a regulação e a fiscalização, sem estas tudo se esvai. E a avaliação do desempenho. E as parcerias com o 3.º sector.
Lá mais para a frente do campeonato, quiçá.
Só uma pequena heresia: as políticas públicas não têm necessariamente que ser exclusivo do Estado...

7:55 da tarde  

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