domingo, janeiro 15, 2006

Pátria, liberdade e saudade

O resultado que Alegre tem obtido nas sondagens é verdadeiramente surpreendente. Muito se deve à emergência de um discurso e à construção de uma imagem que poucos estariam à espera de ouvir e ver. Na verdade, dentro do PS, Alegre sempre foi visto como um dos homens mais à esquerda e, em certas alturas, como nas últimas eleições para secretário-geral do partido, representou a ala que via com bons olhos uma aproximação estratégica ao PCP e ao BE. Mas, curiosamente, como candidato à presidência, revela-se numa campanha que apela a um conjunto de valores caros à direita (como o de pátria), embrulhados numa espécie de saudosismo bacoco dos tempos da clandestinidade e da luta pela liberdade. É uma mistura completamente inconsistente, como se viu nos debates, mas eficaz nos flashes noticiosos que cobrem a campanha. Quase todos os dias o poeta venera a memória de um grande Homem falecido, assumindo uma postura meio aristocrática que lhe garante um ar distinto de homem sério que os portugueses tanto apreciam. Alegre é o candidato compadre, é aquele senhor que cumprimenta sempre com umas pancadinhas nas costas, ao qual se retribui respeitosamente. Os portugueses adoram estes “homens sérios” que se lembram sempre de saudar os saudosos e de aparecer em todos os velórios da aldeia. Esta imagem faz com que Alegre seja, a seguir a Cavaco, o candidato que mais penetra no eleitorado do centro (e centro-direita) que deu a maioria absoluta a Sócrates. Há uns meses atrás ninguém imaginaria tal coisa. É assim a política à portuguesa!

8 Comments:

Blogger GG said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

12:06 da manhã  
Blogger GG said...

É isso mesmo, a campanha de Alegre tem sido lamentável mas muito eficaz nos telejornais. É o candidato do vazio.
Por outro lado a campanha de Soares também não tem sido eficaz com os seus ataques à comunicação social e abraços a Valentim Loureiro.
Louçã e Jerónimo concorrem por motivos partidários.
Resumindo: a esquerda tem quatro candidatos mas não há uma verdadeira alternativa.

Um abraço
Gabriel Gonçalves

12:08 da manhã  
Anonymous Daniel Melo said...

Mas isto é a eleição do PR ou do PE- Pres. da Esquerda?
Agora virou moda junto das elites mandar cartuchada em cima de quem se afirme patriota.
Falta o balanço imparcial, em especial a questão da candidatura Alegre ter aberto uma brecha (ainda tímida, mas foi a única) na partidarite reinante.
Depois, a criação duma simbologia republicana é melhor do que nos fixarmos na Amália, no Sidónio e poucos mais dum Panteão bolorento, ou não? Não suscita apreensão termos passado sem luto nacional na morte da Pintassilgo, de Costa Gomes, etc.?
A chamda de atenção para a situação calamitosa da justiça, o papel da lusofonia (vejam o ex. de Espanha e do seu Inst.º Cervantes, descomplexado e cosmopolita), a ida a fábricas com dinamismo, etc.?
Enfim, aqui ficam motivos para debate, para lá dos preconceitos...

1:51 da tarde  
Anonymous Daniel Melo said...

Só mais isto: a grelha esquerda-direita como forma única de leitura da realidade tem os seus limites.
Precisamente, porque é demasiado redutora, e, por vezes, maniqueísta.

1:54 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

Daniel, não te imaginava um ferveroso Alegrista!
A campanha de Alegre para secretário geral do PS assentou essencialmente nesse maniqueísmo, assumindo-se, na altura, como o representante da esquerda face a Sócrates e a João Soares. Parece que agora já não vale assim tanto intitular-se de esquerda. Nada disto tem a ver com oportunismo eleitoral, pois não?
Quanto à questão de considerares que Alegre deu uma pequena machadada na 'partidarite' reinante, parece-me que ele só contribuiu para enfatizar ainda mais um discurso populista e primário contra a política e os partidos em geral. Neste aspecto não difere muito de Manuel Monteiro.
Uma campanha eleitoral (efémera e excessivamente mediática) não parece ser o espaço apropriado para refrescar o panteão.

3:25 da tarde  
Anonymous Daniel Melo said...

Devolvo-te a flor de retórica: Renato, não te sabia um ferveroso soarista!
Se apresentar argumentos para rebater o enésimo tiro ao boneco preconceituoso é sinómino de militância vou ali e já venho (foi o que literalmente fiz, valha a verdade)!
Alegre fustigado por falar a todos os portugueses como se fosse uma cedência pecaminosa ao centrão: olha que o teu candidato é o menos indicado para esses purismos ideológicos, é o cata-ventos do regime!
Dos meus argumentos, só te referiste à questão da campanha pró-cidadania, e, valha a verdade, dum modo injusto, além de infeliz.
Se um candidato a PR já não pode pugnar pela pátria, o que é que ele vai defender: a torre Eiffel? o atomium de Bruxelas? a torre de Londres?
Enfim, confirma-se a dificuldade duma certa área socialista/ progressista (do PS mas tb. do BE) em conviver com o pluralismo à esquerda. É pena.
Fez-me sempre impressão este excesso de clubite e de bota-abaixismo à esquerda: depois admirem-se da direita estar sempre por cima!
É esta a reflexão à portuguesa que merecemos?

10:28 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

Não tenho problema com o pluralismo à esquerda. Pelo contrário, sempre o tenho defendido e, de certa forma, praticado (já votei, em diferentes eleições, nos três partidos de esquerda). Considero que faltam causas novas à esquerda e mais uma vez esta eleição não fugiu à regra. Mas acho, sinceramente, que a questão da pátria não é uma delas. Sobretudo, o enfoque saudosista e personalista que Alegre lhe tem atribuído.
Desde o primeiro momento tenho fortes dúvidas em relação às verdadeiras motivações que levaram à sua candidatura. Não é em dois meses que se passa de aspirante a candidato partidário para candidato independente, movido por uma onda de cidadãos sem partido político. O que é facto é que Alegre só começou a levantar a bandeira da cidadania depois da recusa do PS e do apoio a Soares.
Relativamente a este último, não há dúvida que desde o fim dos debates a sua campanha denota uma grande desorientação. Mas continuo a achar que, face aos candidatos que avançaram, é o único que poderia mobilizar qualquer coisa de positivo neste país. Pela sua capacidade congregadora e de certa forma irreverente que já demonstrou como PR. Além do mais, mostrou nestes últimos anos uma capacidade de participação cívica desligada dos partidos não comparável a nenhum outro candidato (veja-se a sua postura na luta contra a guerra do Iraque). Quanto a Alegre tirando a sua vertente literária, nunca foi um homem dado a intervenções políticas que ultrapassassem a esfera do seu partido. Com a excepção do caso da coincineração. Aliás, aqui movido por interesses meramente regionalistas, e de certa forma mesquinhos, contrários ao interesse nacional (da tal pátria que agora tanto apregoa). Acho que é importante a esquerda reinventar-se e procurar espaços alternativos, mas não considero que Alegre os represente. Pelo contrário, acho que a primeira coisa que fará, depois das eleições, será virar-se para o interior PS com o intuito de rentabilizar o seu poder.

Um abraço, Renato.

11:43 da tarde  
Anonymous Daniel Melo said...

Para encerrar a polémica: a co-incineração em Souselas foi tb. contestada pelos ambientalistas, e o próprio Sócrates deu entretanto o braço a torcer, como bem sabes. Donde, só contaste a 1.ª metade da história.
Outra desconversa: Alegre só avançou depois do PS lhe ter tirado o tapete: e depois? O 25 de Abril não deflagrou por uma mera questão de carreiras?
Irá virar-se para o interior do PS: e depois? Não é essa uma questão central da esquerda em Portugal, a incapacidade em romper com o tabu n.º 1 da política lusa, uma coligação de esquerda?
O pré-requisito de rodagem em palco pseudo-antiglobalização é despropositado, as ideias e postura na candidatura é que são o essencial.
Enfim, promover o ancião Soares a jovem inquieto, realmente, só não vê quem não quer.
Não te diz nada a nomenclatura gerontocrática esparramada na varanda do Kremlim, as ocultações de Miterrand, etc.?
Como é que um problema relevante no país, a partidarite actual, não merece um átomo de inquietação, uma simples posta?
É só 1 ex., outros poderia lançar, e outros tb. já foram por vós abordados, claro.
Mas visa-se sempre um constante melhoramento, não é?
Um abraço,
Daniel.

1:05 da manhã  

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