segunda-feira, fevereiro 27, 2006

'Desarrollo' acima de tudo

Na semana passada fui a Espanha participar num colóquio. Mais propriamente a Huelva. Como quase sempre acontece acabei por me perder quando procurava a universidade onde decorria o evento. Estava um dia medonho, muito frio e chuvoso. A visibilidade era reduzida e, claro está, não virei na rotunda certa. Tinha de ser uma rotunda! Pelo menos nesta coisa de plantar rotundas em todos os cruzamentos os espanhóis não são tão diferentes dos autarcas nacionais. Não há como a gente se perder para dar umas voltas por estradas distantes dos olhares turísticos. A periferia de Huelva é um emaranhado de indústrias e de estufas. As fábricas e as explorações agro-industriais concorrem pela mesma terra e desbastam tudo o que resta da reserva ecológica. Pelo menos assim parece. Por esses caminhos perdidos vêem-se ranchos de imigrantes que todos dias palmilham estufas e pomares à procura de jorna. Fazem lembrar os assalariados de outros tempos, que eram recrutados nas aldeias pelos manageiros e feitores das herdades. Nesse dia muito(a)s deambulavam à chuva. Este é o outro lado do intenso desenvolvimento que Espanha conhece actualmente. Um lado ocultado pelos índices do sucesso.
E em certa medida ocultado nos discursos e reflexões sobre o desenvolvimento rural. Durante o resto do dia assisti a um colóquio sobre estudos rurais. A palavra mais ouvida, dita e redita até à exaustão, foi desarrollo. Reina o discurso do sucesso e os espanhóis querem mais e estão a fazer por isso. Em Portugal jamais um colóquio desta natureza estaria a abarrotar de gente e, sobretudo, de jovens (académicos, técnicos e estudantes) a discutir estratégias, programas, fundos… Fiquei surpreendido com o espírito pragmático, o voluntarismo e a vontade de fazer. Não há dúvida, neste aspecto temos muito a aprender com nuestros irmanos.
Contudo, neste colóquio o tema da imigração praticamente não existiu. Falou-se dos inúmeros territórios do rural, das novas comunidades, falou-se muito da PAC, do Leader, do Feader, mas, curiosamente, olvidaram-se os caminhos trilhados pelos novos jornaleiros que servem as agro-industriais com a sua força de trabalho. É em ocasiões como esta que o chato do Marx teima em bater à consciência. Não tenho outro remédio senão abrir-lhe a porta…

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