quinta-feira, março 16, 2006

Escola liberal para alguns

O meu post anterior sobre a escola pública suscitou a reacção de um blogue homónimo mas de direita (aqui e aqui). Apesar de não concordar com quase tudo o que por lá se escreve, é um blogue que prezo porque gosta de discutir e de ir ao fundo das questões. Ora bem, nós cá estamos para isso. Quanto ao assunto em causa. Confirma-se a tendência que refiro no meu post. Ou seja, o discurso liberal (de direita) apropria-se de alguns conceitos caros à esquerda para pôr em causa o modelo da escola pública. Um desses conceitos é o de reprodução. Embora não o nomeiem (porque não cabe na sofisma liberal) ele está presente em toda a sua lógica argumentativa.
Basicamente, a noção de reprodução social nasce de um estudo de Bourdieu que, nos anos 60-70, chama atenção para o facto do sistema escolar premiar aqueles que à partida já adquiriram vantagens culturais e socioeconómicas. Isso acontece porque o ensino, e toda a sua base curricular, se estrutura tendo por base um dado arbitrário cultural que valoriza uma cultura cosmopolita e erudita dominante nos estratos mais favorecidos das sociedades ocidentais.
Ao longo destas décadas, a esquerda apropriou-se deste conceito para criticar a escola pública enquanto agente de promoção (e não de atenuação) de desigualdade de oportunidades. Muitos conceitos como os de escola inclusiva representam uma reacção a essa tendência reprodutora. No entanto, para a esquerda a democratização da escola representa um aprofundamento da escola pública. Por exemplo, o conhecimento transmitido deverá ter um carácter público, isto é, diversificado e nada compartimentado. E o acesso a esse conhecimento deverá ser igual para todos, cabendo ao sistema de ensino garantir as condições para que isso aconteça sem discriminações. Contudo, a forma de o transmitir não deve ser neutral. Como se depreende da análise de Bourdieu, não se pode tratar o diferente como se este fosse igual. As crianças sofrem socializações muito distintas devido à sua situação social, económica, religiosa, étnica… Por isso, deverão ser alvo de estratégias pedagógicas diferenciadas. Esse é o grande desafio da escola pública massificada.
Para a direita liberal a escola pública, como é reprodutora, não garante a liberdade individual de escolha, de pensamento… Por isso, a única forma de salvaguardar essa liberdade é privatizá-la. Só assim ela se tornará diferente e se adequará à procura. Ou seja, o mercado resolve. É o milagre da mão invisível: a solução de todos os males. Só que há um grande problema de fundo, o mercado não é parvo e procurará sempre conseguir o máximo de mais valias. E neste modelo, o mexilhão é que se lixa. Pois, a mão invisível tem um particular tacto pelo marisco de alta qualidade (dos fundos dos mares). Quer lá saber daquele que se agarra às rochas com receio de ser levado pela onda. O que quer dizer que teria sempre de ser o Estado a salvaguardar a escola para os pobrezinhos: as do interior e as dos subúrbios mais degradados. E assim teríamos vários modelos: a escola privada para os ricos, a escola semi-privada (subsidiada pelo Estado) para os remediados, e a escola pública para os desfavorecidos. Estes últimos poderiam sempre ter direito a escolher: bastava enriquecer. Perfeito e simples, não é?

5 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Nivela-se por baixo, para não prejudicar os do interior.

12:44 da tarde  
Blogger AMN said...

Caro Renato, já lá está o contraditório. Um abraço e obrigado pelas palavras elogiosas, que só podemos retribuir!
a.

3:17 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Keep up the good work » » »

6:36 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

What a great site » »

9:24 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

best regards, nice info »

12:46 da manhã  

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