segunda-feira, março 20, 2006

Espírito enclausurado

Todas as ideologias criam os seus lugares idílicos. Até as supostamente mais pragmáticas transportam os seus romantismos. Normalmente é a direita que acusa a esquerda de candura e de saudosismo por um tempo que nunca existiu, mas ao qual teima em retornar com esperança de ouvir cantar um certo amanhã. Mas neste caso, o romantismo virou à direita. São dois os paraísos perdidos do liberalismo: o mercado e a comunidade. Sobre o primeiro já discorremos alguns caracteres, faltava falarmos do segundo.
Como se pode ler neste post de AA, a comunidade é a solução para a suposta ineficácia do Estado. Por exemplo, as aldeias despovoadas do interior e os subúrbios superpovoados do litoral são espaços em crise porque, em grande medida, o Estado falhou. Mais propriamente, a escola falhou. No primeiro caso, falhou porque estão a ser encerradas, no segundo porque se densificaram em demasia tanto em número de alunos como em diversidade (social, cultural, étnica). Pelo facto de se terem esvaziado ou por se encontrarem a abarrotar, estes espaços desestruturaram o sentido tradicional de comunidade. As aldeias perderam-no, os subúrbios nunca o vislumbraram. Contudo, apesar da anemia ou da anomia é possível estas populações reencontrarem os laços perdidos, desde que (é claro!) o Estado (leia-se a escola pública) se vá embora.
No caso das aldeias ainda bem que se foi embora, e em relação aos bairros suburbanos não perde pela demora. Saindo o Estado acontece um milagre. Uma espécie de entidade divina (uma mão invisível com tacto social) ligará todas as pessoas por intermédio de um imenso laço comunitário. E por obra e graça desta força transcendente despontarão professores jovens e com iniciativa em aldeias envelhecidas, com vontade de criar escolas para as duas criancinhas residentes. Também os bairros da metrópole conhecerão as benfeitorias desta entidade. Professores de todas as etnias e cores irradiarão de muitas marquises e virão construir a sua escola. Assim, para cada cor teríamos uma escola pintada à sua semelhança, como se fosse um arco-íris. Não é tão harmonioso? Nunca mais as cores destoantes vindas de fora se intrometerão na vida local. Cada galho no seu ramo! E assim os subúrbios transformar-se-iam em grandes aldeias enclausuradas na sua solidariedade e imunes ao exterior. Ficariam tão sossegadinhas que deixaríamos de dar por elas.
É este o mundo perdido dos liberais, que em pleno século XXI ainda pensam a comunidade com o espírito da Idade Média.

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