segunda-feira, março 20, 2006

Esquerda, direita, volver

Este debate com o blogue Arte da fuga tem sido, quanto a mim, muito interessante e esclarecedor relativamente aos diferentes modelos de educação e, de certo modo, de sociedade. Mas chegamos a uma altura da argumentação em que o que resta são as convicções ideólogicas de cada lado (e ainda bem que restam!). Nestas fugas cruzadas ficou por comentar este post de AMN que é muito clarificador quanto àquilo que cada um pensa sobre o ensino. Para a direita liberal a organização do sistema deve ser determinada segundo as lógicas do mercado, não havendo por isso lugar para a escola pública, na medida em que esta deturpa as leis (justas?) do próprio mercado. Segundo esta concepção, perante um cenário de total liberalização as famílias teriam maior liberdade em escolher a escola que entendessem ser mais apropriada para os seus filhos.
Para a esquerda (pelo menos, a minha esquerda), a escola não deve ser encarada como uma coisa (bem, serviço) que se define e se organiza em função das flutuações do mercado. Isso não quer dizer que se entenda o sistema educativo como algo homogéneo e uniforme. Longe disso! Na minha opinião a educação deve ser um sistema misto (com escolas públicas e privadas). Esta coexistência não é nefasta, bem pelo contrário. A escola privada não deverá ser encarada como um mero complemento da pública, no sentido em que ou fica com os restos (como acontece com algumas universidades privadas), ou se vocaciona para o recrutamento e reprodução das elites, como no caso de certos colégios.
As escolas privadas deverão ser agentes de inovação (não de imitação), conseguindo para tal atrair públicos diversificados que não pertençam somente aos estratos mais favorecidos. Esses projectos, se tiverem procura e se forem pertinentes do ponto de vista social, pedagógico, etc., deverão ter o apoio do Estado, em função de parcerias ou de protocolos especiais. Não deve ser o Estado a definir essa pertinência, mas entidades e especialistas externos e, se possível, vindos do estrangeiro.
Por seu turno, a escola pública deve caminhar para a diferenciação. Admito que um dos grandes erros do sistema tem sido o de aplicar a mesma cartilha aos mais variados contextos sociais e culturais. E, muitas vezes, a cartilha não é a mais adequada para grande parte das populações educativas. Isto é, a escola deverá gerar mais especificidades sem, no entanto, perder a sua equidade centralizadora que, no meu entender, é dos garantes da democraticidade do sistema.
Por exemplo, os exames no final dos ciclos deverão ter um âmbito nacional, em que todos os alunos são avaliados segundo os mesmos requisitos e os mesmos parâmetros. Não descortino qualquer outra modalidade que possa ser mais justa. E, quer se queira, quer não, só o Estado pode salvaguardar essa equidade e legitimar essa exigência. Considero que esta é uma das vantagens objectivas em se manter e aprofundar a eficácia de determinados mecanismos de centralização.
Como vêem, são dois modelos inconciliáveis. É por este e por inúmeros outros motivos que ainda faz sentido a distinção entre Esquerda e Direita. A blogsfera aí está para o demonstrar!

4 Comments:

Blogger AMN said...

Mas Renato, o que não explicas neste post é como podem os mais necessitados aderir a uma escola privada se, num contexto local, esta for melhor e mais adequada, do que a escola pública que o Ministério da Educação ordenou que fosse a do aluno em causa. Entramos num capítulo muito importante para mim, que é o da liberdade de escolha.

Penso que estes debates são importantes, ainda que tenham menos sound-bytes e menos audiências, porque permitem-nos, a mim e a ti, sair das tiradas divertidas e retoricamente agradáveis, e desmistificar as ideias pre-concebidas que eu tenho quanto ao modelo do estado social, e tu quanto à do estado liberal.

um abraço,
a.

11:46 da manhã  
Blogger Renato Carmo said...

Bem, pelo menos, numa coisa estamos de acordo. Aliás, a propósito de sound-bytes, questiono-me, muitas vezes, se a blogsfera pode ser um espaço de reflexividade. Tenho a sensação de que os debates se perdem no rasto das redes. E muitas vezes nem rasto deixam.
Quanto à liberdade individual, é um assunto para dar ainda mais pano (não sei se terei mangas suficientes). Penso que ele merece muita reflexão por parte da esquerda. Novos posts se seguirão, mas com mais calma.

5:31 da tarde  
Anonymous António Melo said...

Segui o debate sobre a escola pública e estou de acordo com o Renato Carmo. Infelizmente, a esquerda a que pertence é muito minoritária em Portugal.
Do louvor às "Crianças Livres de Summerhill" até às avaliações-passagem feitas na sala de aula pelo professor-camarada, assitiu-se a tudo para acabar com a escola da I República, acusada, por causa de leituras apressadas de Bourdieu e de Althusser, de todas as piores repressões da história da humaidade. Os criativos da esquerda ficaram com um má impressão da escola, que não os premiava e até punia, com reprovações humilhantes. Provavelmente vai ser preciso fazer a catárse da escola segmentada, cada cultura com a sua escola, e até cada família com a sua cultura, para se perceber que a escola pública é tão perversa qt a democracia: é a pior, à frente de todas as outras. Será preciso recordar que a campanha contra os exames universais e nacionais foi conduzida pela federação de professores mais pluralista e de esquerda do país? Que teve o apoio de todos os partidos de esquerda, incluindo o PS, que na altura estava na oposição?
Concluindo, acho que não vai haver dinheiro para cada família escolher o seu modelo escolar, pelo que o melhor é insistir junto das federações sindicais para que retomem o espírito responsável do tempo da semi-clandestinidade e se batam por uma política democrática de ensino, de promoção social e não apenas de remuneração profissional docente. Já basta de discursata.

10:42 da manhã  
Blogger Renato Carmo said...

Não me parece que seja somente esquerda que tem as mãos sujas. Não se esqueça que a maioria dos ministro de esducação foram do PSD. Esquece-se, por exemplo, do legado de Roberto Carneiro que substituiu os exames às disciplinas por uma prova geral que só teve um impacto: favorecer as elites no acesso ao ensino público.
Concordo consigo em relação ao papel perverso que os sindicatos da educação têm desempenhado. A sua primeira e quase única preocupação tem sido a defesa dos interesses corporativistas dos que já estão no quadro. Como fazia falta um sindicalismo de vanguarda!

12:03 da tarde  

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