segunda-feira, março 06, 2006

O mérito em ser global

Os filmes premiados na noite dos Óscares são o exemplo paradigmático de como não se pode olhar para a América a partir de uma só perspectiva. Muita esquerda militante confunde a crítica ao imperialismo com anti-americanismo. Não são posições sinónimas (longe disso!). Nem tudo o que vem dos EUA é imposto tendo por base o poder económico e (ou) bélico. Por exemplo, em termos culturais o país é um mosaico onde fervilha uma imensidão de estilos e de estéticas que se expressam por intermédio dos mais variadíssimos modos de ver o mundo (e de se verem no mundo). Alguns destes estilos impõem-se como produtos comerciais servidos por uma poderosíssima indústria cultural. Mas outros tornam-se incontornáveis pela sua qualidade e irreverência, impondo-se à indústria que se rende e se vende aos seus requisitos. Os dois filmes vencedores (‘Colisão’ e o ‘Segredo de Brokeback Mountain’), para além de deslumbrarem têm a capacidade enterrar o dedo em certas feridas bem profundas, com uma subtileza admirável e marcante. Ambos vêm do cinema dito independente, mas ontem foram enlaçados pelo sistema e transformaram-se em ícones da globalização americana. Serão vistos por muitos mais milhões de pessoas porque ganharam Óscares. Mas não é isso que faz esvanecer a sua beleza e a sua singularidade. Pelo contrário, neste caso, a globalização advém do seu mérito. E, por este motivo, tornam-se obras ainda mais universais.

4 Comments:

Blogger Luís Marvão said...

Concordo, Renato.
Eu diria que os EUA são um país com uma inesgotável e rica contra-cultura.

12:47 da tarde  
Anonymous rui mesquita said...

Eu discordo profundamente. Diria mesmo que, se existe "uma imensidão de estilos e de estéticas que se expressam por intermédio dos mais variadíssimos modos de ver o mundo (e de se verem no mundo)", esta só existe porque se remete para as margens das práticas culturais nos Estados Unidos; caso contrário, perderia em "diversidade" aquilo que ganharia em poder actuante.

A ilusão da contra-cultura é muito atraente, mas, se não é capaz de confrontar de igual para igual a cultura dominante, o seu valor é muito relativo.
No dia em que estas produções desafiarem os valores da "América profunda", o caso será completamente diferente; até lá, não passam de um privilégio duns quantos afortunados das duas costas...

4:26 da manhã  
Blogger Renato Carmo said...

Caro Rui Mesquita, diga-me em que país as contra-culturas (ou sub-culturas) são capazes de "confrontar de igual para igual a cultura dominante"?
Qual será a maior ilusão?

9:53 da manhã  
Anonymous rui mesquita said...

...nenhum. Por isso é que não me interessam as "contraculturas".

Não vou dizer que as contrasculturas sejam uma mistificação, mas não há maior ilusão do que acreditar que elas possam "transformar o mundo". Como disse, o único jogo que vale a pena ser jogado é aquele que confronta de igual para igual a cultura dominante. Caso contrário, não passa de preaching to the converted (e disso os Estados Unidos estão cheios).

5:06 da manhã  

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