segunda-feira, abril 10, 2006

O CPE de todos nós

O projecto do governo francês sobre o contrato de primeiro emprego (CPE) representa uma aliança entre o Estado e o mercado, a favor deste último. O modelo do Estado Social afunda-se e o governo tenta salva-lo aplicando uma medida desreguladora nas relações contratuais que afecta, num primeiro momento, os mais jovens. Estranha esta cumplicidade entre o Estado e mercado, como se esperasse que este resolvesse a ineficácia do primeiro: desregula-se no sector privado com a esperança de que a medida alivie o sistema público. Grande parte dos jovens franceses ambiciona uma carreira no funcionalismo público, como isso não é possível abre-se a porta à liberalização completa das relações contratuais de modo a que estes abandonem a expectativa e se digladiem pela manutenção de um emprego precário nas empresas. Ao virar-se para o mercado, o Estado tenta institucionalizar o modelo económico do século XIX nas relações laborais vigentes no século XXI.
Contra esta aliança, a sociedade civil emergiu com força suficiente para inflectir a política governativa e afogar, por enquanto, as esperanças dos empregadores. Estas manifestações são uma reacção contra as investidas desreguladoras que pretendem naturalizar as formas de exploração e transformá-las em capital social. Nas tribunas televisivas, batalhões de especialistas de economia (economistas, jornalistas-economistas, economistas-jornalistas, sociólogos que ambicionam ser economistas…) repetem até à exaustão a lenga-lenga da inevitabilidade da globalização e aplaudem fervorosamente o CPE.
Face a este discurso, a mera reivindicação por um emprego estável tornar-se-á ineficaz a curtíssimo prazo. Sem se apontarem alternativas para a organização do Estado e da sociedade, estas manifestações cairão em saco roto e transformar-se-ão num movimento intrinsecamente conservador, que não se diferenciará muito de meras movimentações sindicais. Seria importante que da sociedade civil despoletasse um movimento que rompesse com o estabelecido e traçasse novos rumos para o rejuvenescimento do Estado social e para a reorganização da sociedade assente nos pressupostos da solidariedade inter-individual, inter-classista e inter-geracional.
Mas para se dar esse grande passo a esquerda não pode continuar a olhar para ontem…

10 Comments:

Blogger randomblog said...

CPE est mort!

12:14 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

Ressuscitará, se tudo continuar como dantes.

1:54 da tarde  
Blogger Hugo Mendes said...

Caros, umas notas sobre o Estado social francês

http://veu-da-ignorancia.blogspot.com/2006/04/sobre-as-esquerdas-e-o-estado-social.html

abraço
Hugo

11:35 da tarde  
Blogger bruno cardoso reis said...

Caro Renato, fico à espera ansioso por essa soluções.

Solidariedade? Parece-me que me lembro de ouvir falar nisso a respeito da China e da India e de outros países pobres. Agora parece que eles não precisam. Será que eles vão nisso?

Infelizmente, talvez haja Sarkozy em vez de solidariedade no Eliseu.

9:37 da tarde  
Blogger Tiago Alves said...

Concordo Renato. Vai ressusctiar, quem sabe bem mais liberalizador (o que é bom), quando se atingir o fundo. Porque só quando tocarem no fundo os franceses se aperceberão do tremendo erro que se está a cometer. Não so com a revogação do CPE, mas com todo o sistema.

10:39 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

Caro Bruno, se a sua direita é a desalinhada, como será então a alinhada?
Para a próxima, fico à espera (mas não ansioso) de ler a sua argumentação.

8:56 da manhã  
Blogger Renato Carmo said...

Caro Tiago, eu não concordo lá muito consigo.

8:58 da manhã  
Blogger bruno cardoso reis said...

Caro Renato

Se fala em desalinhado suponho que tenha ido ver o Amigo do Povo. A argumentação está lá. Mas resumo: o desemprego de longa duração é um problema social muito sério. Ele tem a ver com a rigidez do mercado de trabalho (não só, mas também). Se a esquerda não encontrar soluções creativas para isso é provável que a direita as encontre.

Alguns dos problemas mais gerais e algumas das soluções de esquerda possíveis até são referidas pelo seu colega de blogue Daniel Melo.

A solidariedade está muito bem, mas o emprego está melhor. Além do mais para se ser solidário é preciso produzir riqueza.

PS - A "minha" direita é desalinhada? Nem sequer consigo perceber o que é que isso poderia querer dizer. Mas em todo o caso entendeu mal. O blogue é que é desalinhado. (E não é meu, é nosso: gosto de colectivos a sério). Um conceito que é capaz de ser difícil de perceber.

4:52 da manhã  
Blogger Renato Carmo said...

Caro Bruno, assim está melhor.
É que nós aqui na fuga gostamos de discutir ideias, e o seu 1º comentário não trazia nenhuma (bem pelo contrário).
Quanto à "direita desalinhada", foi uma pequena provocação, não é para levar muito a sério.
Espero que volte, para discordar (e também para concordar).

Um abraço, Renato.

8:33 da manhã  
Blogger bruno cardoso reis said...

Caro Renato, até breve e não deixem de fugir para a vitória.

9:01 da tarde  

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