Putos de Abril

As primeiras memórias que tenho do dia 25 de Abril são cheias de cor. Recordo o colorido desses dias sempre solarengos. Pequenos pontinhos vermelhos brotavam por todos os poros do bairro. Pendiam dos vasos que enchiam as varandas e as marquises. Irrompiam das minúsculas hortinhas que polvilhavam as inúmeras ilhas de terra que iam resistindo à construção. Erguiam-se em cada lapela como se fossem troféus. Logo de manhã recebíamos o cravo entre os muitos que se distribuíam na rua e cuidávamos dele até ao fim do dia. Lutávamos por ele, caso quisessem tirá-lo ou se caísse no chão com a confusão das tropelias. Nesse dia aconteciam muitos eventos organizados pela Junta de Freguesia ou pelas associações de moradores. Os torneios desportivos abriam a manhã e à tarde, em cima de palcos mais ou menos improvisados, ouvia-se cantar os sons da recente liberdade.
Lembro-me sobretudo das tintas que usávamos para pintar, até à exaustão, cravos em canos de espingardas. Era uma promiscuidade de cores que se misturavam em cima de pranchas enormes assentes em cavaletes de madeira. Pintávamos tudo! Borrávamo-nos uns aos outros na troca das cores. Digladiávamos tonalidades entre o perímetro das várias folhas, fazendo com que os desenhos se prolongassem e não respeitassem as margens do papel. Através desta luta acabávamos por construir um puzzle que se reconstruía à medida que os desenhos eram retirados e substituídos por novas folhas em branco. E quando estas acabavam saíamos da prancha de madeira e invadíamos as paredes híbridas do subúrbio.
1 Comments:
Bravo, puto!
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