Regionalização?
O nível de concentração populacional em torno das grandes cidades é um dos maiores problemas do mundo. Na era do capitalismo industrial as cidades foram parte da solução para o abandono dos campos, causado pela mecanização agrícola. Os camponeses procuraram as fábricas para trabalhar e mudaram de classe. Embora vivendo em bairros pobres e imundos os operários construíram a cidade industrial. Hoje, a cidade tornou-se um problema. O esvaziamento dos campos foi de tal ordem que se constituíram autênticos monstros urbanos quase ingovernáveis. Quer no mundo desenvolvido, quer nos países em vias disso, o crescimento urbano tornou-se avassalador.
Portugal não é excepção. Nestes últimos 30 anos, a cidade de Lisboa afogou-se por completo na muralha suburbana que a circunda. Não fora o Tejo e esta cidade perdia o ar e o encanto da sua luz. Enquanto no litoral a muralha se agigantou, no interior o mundo rural continuou rural, basicamente, porque não se desenvolveu e se despovoou brutalmente. As cidades médias, embora tivessem crescido, não geraram, salvo algumas excepções, a dinâmica suficiente capaz de inverter a desertificação dos campos e das aldeias envolventes.
O atrofiamento que se vive em mais de metade do país não deveria ser encarado como irreversível. No entanto, quando se observa que o próprio Estado é um agente catalizador dessa tendência regressiva, ao tomar medidas que afectam profundamente algumas localidades do interior, perde-se a esperança do país mudar. Num post anterior referi-me a três medidas que podem até fazer sentido para a resolução da situação financeira do país, mas perdem razão de ser quando impõem os mesmos critérios às cegas, independentemente do contexto local e regional. Os nossos políticos olham de cima para o país e vêem um pequeno rectângulo. E como têm brincado com este rectângulo nestas últimas décadas! As políticas têm mudado muito, mas todas padecem do mesmo autismo: são uniformes e concebidas para uma homogeneidade que não existe, nunca existiu.
Era importante começar a agir politicamente de modo diferenciado. Curiosamente, para este governo essa diferenciação só se justifica no caso das auto-estradas. O alcatrão é assim tão decisivo para o desenvolvimento regional? É por estas e por outras, que vale a pena voltar a debater a regionalização e os possíveis modelos de descentralização.
7 Comments:
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