segunda-feira, junho 05, 2006

Cuidado com os tornozelos

Não tenho uma visão maniqueísta deste Ministério da Educação. Entendo que tomou algumas boas medidas que vão dar os seus frutos nos próximos anos, destaco sobretudo uma: a alteração do concurso de docentes para um prazo de 3 ou 4 anos. Foi uma reforma muito positiva que possibilitou este ano a vinculação de um número considerável de docentes. Considero também que o ME elegeu dois objectivos a atingir com os quais concordo plenamente: o combate ao abandono escolar e ao insucesso educativo, e o forte investimento na educação/formação de adultos. São dois objectivos mais ou menos consensuais, o problema é quando avaliamos o meio para os atingir. Debrucemo-nos somente no primeiro.

A Ministra tem dito (como na entrevista de ontem) que o pressuposto para melhorar os resultados escolares passa por transformar a escola numa verdadeira organização que, entre outros aspectos, promova o trabalho em equipa e a transversalidade científica e pedagógica. Não poderia estar mais de acordo! Mas quando ouvimos o “como” lá se chega, apanhamos uma grande desilusão (pelo menos eu apanhei). Basicamente, o “como” depende dos professores, ou seja, a mensagem é: os docentes têm de se mexer, o que fazem fica aquém daquilo que auferem todos os meses e nunca tiveram tão boas condições como agora para pôr mãos à obra. Como, no entender do ME, os profs tendem a ficar à sombra da bananeira, o governo tem de ir dando algumas caneladas, para ver se estes vão fazendo mais algumas coisitas (nem que seja para merecer o que ganham). Então, lá injectaram com as aulas de substituição nas escolas e agora avançam com suposta avaliação dos profs pelos encarregados de educação.

A primeira medida faz sentido, mas foi mal regulamentada e criou uma série de perversões à escola. Por exemplo, legitimou ainda mais a sua função de armazém: desde que se ocupe as criancinhas está tudo bem, ponham-nas a correr ou a jogar, tanto faz. Ora bem, perdeu-se uma excelente oportunidade para dar um contributo qualitativo no combate ao insucesso. Ao invés, o ME optou pela quantidade e pela regulamentação uniforme.

A segunda é disparatada. Se a ideia é alicerçar a ligação entre a escola e a comunidade, levando a que os pais frequentem mais reuniões, parece-me que gerará sobretudo efeitos pouco benéficos. Por outro lado, instaurar a avaliação pelo exterior antes de aplicar uma verdadeira avaliação interna, não só aos professores, mas, sobretudo e, antes de tudo, aos órgãos de gestão, parece-me não só inconcebível, como denota uma certa ligeireza em relação ao objectivo supremo da avaliação, que, a meu ver, deve ser encarada como um dos mecanismos propícios para regular melhor o sistema de modo a incrementar-se mais qualidade e eficácia.

Ao longo da entrevista de ontem a Ministra deu várias caneladas aos professores (não vou enumerar). Não só foram despropositadas, como acabam por ter uma consequência bem real: fragilizam a Ministra e podem deitar tudo a perder. Parece-me que a equipa ministerial confunde estratégias sindicais com estratégias e práticas profissionais. Infelizmente, são cada vez menos os docentes que se sentem representados pelos seus sindicalistas. Por isso, estão confusos (para não utilizar outro termo) com o sentido pouco claro destas caneladas. É hora de pôr os professores juntamente com o governo a construírem uma escola melhor. Afinal de contas, tudo não passa de uma questão de caneladas traiçoeiras.

2 Comments:

Blogger cristina said...

Analisando apenas o princípio e não os meios em si, a avaliação por parte dos pais não me parece assim tão disparatada - mas devo ser a única a achar isto!... A ideia não é [ou não deve ser!] isto ser único meio de avaliação dos docentes - a avaliação pelas notas dadas (de que a Ministra também falou) parece-me muito mais disparatada!!! E a ideia também não é [ou não deve ser!] todos os pais serem avaliadores independentemente da sua participação na escola. Quem avalia tem de ter conhecimento de causa, tem de, de algum modo, poder justificar aquilo que diz. Se tivermos (?tivéssemos?) pais esclarecidos e conscientes esta ideia não me parece má, falta ver como tencionam pô-la em prática... - e a prática é o que tem, realmente, falhado neste ministério cheio de "boas" ideias teóricas!

8:49 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Nice colors. Keep up the good work. thnx!
»

5:35 da manhã  

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