sexta-feira, junho 23, 2006

Por uma política do consumo

Interpretar os efeitos da globalização económica a partir de uma relação linear oferta/procura, é fazer simples uma realidade cada vez mais complexa. Tem sido apanágio da direita liberal simplificar o mundo para que este se torne óbvio e inquestionável. Cabe, por isso, a uma certa esquerda construir uma outra visão do mundo e não ir a reboque daquilo que parece inevitável. Em pleno séc. XIX ninguém imaginaria que uma das conquistas “inevitáveis” do século seguinte fosse o Estado Social. E tornou-se inevitável porque a vontade colectiva assim o decidiu.
Neste sentido, considero, como já referi noutras alturas, que existe uma outra relação que organiza qualquer sistema económico nas suas diversas escalas: produção/consumo. Para além de estritamente económica, esta relação é eminentemente política. Sobreposta à decisão de produzir um dado produto em condições claras de exploração, manifesta-se a decisão de poder consumir (ou não) esse mesmo produto. Esta última representa uma decisão essencialmente individual que deriva fundamentalmente de uma consciência da singularidade do sujeito perante o Mundo, como refere Albert Camus (citado no post anterior). A assunção dessa singularidade representa a expressão mais determinante da liberdade individual (esta não é somente concretizável no mercado como nos contam os liberais).
Numa sociedade cada vez mais individualista, os movimentos sociais tendem a resultar da agregação das decisões e interesses individuais. As classes sociais perderam o seu colectivo, tornaram-se meramente estatísticas. O movimento em massa de uma política de não consumo pode perturbar e inverter o rumo da exploração.
Os cegos do mercado gritarão contra todos os ventos que o resultado desses movimentos levará ao fecho das multinacionais dos países do 3º mundo, e que o desemprego aumentará e o investimento diminuirá… Será assim?
Penso que essa é mais uma das falsas inevitabilidades que nos querem atirar para os olhos e, não nos esqueçamos, os cegos são eles. Tenho sérias dúvidas que seja assim. Os custos das deslocalizações não são propriamente reduzidos, e as multinacionais não podem estar eternamente a deslocalizar. Se os Estados forem eficazes na definição dos deveres e direitos das (des)localizações, talvez as multinacionais pensem duas vezes antes de saírem para outras bandas. Se uma política de não consumo continuar a incidir sobre a empresa, não serve de nada esta deslocalizar-se. Teria de optar por mudar algumas das condições de produção. Será isto uma utopia? Talvez… mas não valerá a pena tentar?

1 Comments:

Blogger Daniel Melo said...

Concordo por inteiro.
Aproveito para referir um tx. interessante de Beja Santos sobre o papel específico da União Europeia (http://www.noticiasdaamadora.com.pt/nad/artigo.php?aid=5691), que dá pistas sobre o que foi feito e o que pode ser feito, e enqt. não está disponível na Internet o seu último tx. sobre a "A ilusão do consumo personalizado" (Notícias da Amadora, 22/VI, p. 5).

2:31 da manhã  

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