domingo, setembro 10, 2006

O instinto perante a queda

Faz cinco anos que ocorreu o atentado sobre o World Trade Center. A aproximação da efeméride tem provocado uma autêntica enxurrada de textos, documentários, filmes… O acontecimento marcou-nos de tal modo que nos impele a participar nele e dizer qualquer coisa de nosso. Como se estivéssemos de luto. E, de facto, vivemos o mesmo luto. É inegável que perdemos alguma coisa com o 11 de Setembro.
Há cinco anos atrás o meu primeiro filho tinha ainda alguns meses. Durante o dia enquanto assistia às imagens brutais, lembro-me de pensar quase instintivamente: “que mundo vai ser o do meu filho”. É lamechas, é óbvio, é primário, mas, é assim. A paternidade dá-nos a volta e subverte a nossa relação individual com o Mundo. Em certo sentido ela deixa de ser individual e passa a ser algo de diferente. De facto, para além da (i)rracionalidade, e de todos os sentimentos que gera, acrescenta-se um outro que se torna dominante: é uma espécie de pulsar instintivo de protecção. Naquele dia senti esse arrepio.
A consciência da fealdade do mundo global (e da sua crescente inumanidade) instiga-nos a construir uma bolha para os nossos filhos. Rodeamo-los de afectividade, de fantasia e de muita facilidade. Uma variante doce da quinta dimensão que se auto-imuniza face à realidade real. Hoje uma reportagem da revista Notícias revela as conclusões de um estudo que alerta para as consequências nefastas desse mundo paralelo que está a criar uma geração de “atadinhos”. Esta forma de educar globalizou-se com a mesma facilidade da CocaCola ou dos hambúrgueres. E penso que isso se deve ao agudizar desse tal instinto, para o qual o atentado sobre as torres gémeas se tornou um marco simbólico. A violência entra-nos em casa por todos os canais e nós esforçamo-nos até à exaustão por fechar todas as portas. Ao fazê-lo podemos estar a criar uma cegueira. O que acontecerá quando os nossos atadinhos se fizerem à vida? Recusá-la-ão? Provavelmente sim, e da pior maneira. Fechar-se-ão ainda mais… até à indiferença em relação a tudo o que esteja fora, ou seja, a própria realidade. Ou então, rebelar-se-ão. Será justo projectar neles essa esperança? Serão os filhos a nossa última utopia? Investimos tudo na sua felicidade e ansiamos que no futuro ela se concretize de algum modo.

15 Comments:

Blogger Shyznogud said...

Os 2 primeiros post q li esta manhã sobre o 11 de Setembro têm como "núcleo" central, curiosamente, divagações sobre a paternidade. Foi este e o da Jornada. São tudo isso, lamechas, primários... e eenternecedores. Contudo, o que me levou a escrevinhar estas palavras foi a segunda parte do seu texto, aquela q fala sobre a "geração de atadinhos" que, e aqui saco dos galões de antiguidade na maternidade (a minha filha mais velha tinha 10 anos em 2001), não é consequência do "novo mundo" pós-11 de Setembro mas, digo eu, de algo mais antigo e que tem a ver com a incapacidade desta nova geração de pais lidar com aquilo que costumo chamar de imponderáveis do espaço público. De repente as casas onde existem crianças transformam-se em "fortalezas protegidas", bloqueam-se as fichas electricas, cobrem-se os cantos aguçados dos móveis, instalam-se pequenos walkie-talkies no quarto das crianças... and so one, a lista é interminável. A ilusão de que o espaço doméstico é controlável domina. Mas como lidar com o espaço em que não podemos intervir? Há uma espécie de regra dos socorristas q fala em "afastar a vítima do perigo" vs. afastar "o perigo da vítima", sendo a segunda hipótese a postura correcta. Infelizmente qdo transpomos isto para o campo educativo, e como a segunda parece ser inalcançável, escolhe-se irremediavelmente a primeira. De repente temos uma geração que cresceu sem rua, o que é aflitivo para mim que me "eduquei" TAMBÉM na rua. Junta-se a isto uma estranha cruzada moralista dos pais (portugueses, q são a realidade que conheço)... e à suivre, q esta agora daria pano para muitas mangas no que diz respeito, por exemplo, a um renascimento do "sexismo parental".

10:18 da manhã  
Blogger Renato Carmo said...

Na verdade, actualmente parece que os suportes tecnológicos se tornaram os mediadores principais das brincadeiras, situação que provocou uma excessiva individualização ou, pelo menos, uma redução substancial no número habitual de parceiros. Fora do espaço do infantário já não é muito habitual ver grandes grupos de crianças a brincar. Em parte isto acontece porque actualmente existem menos crianças. Mas, também, porque tendem a brincar em casa ou, quanto muito, no espaço limitado do jardim público do bairro. Perdeu-se o hábito ir brincar para a rua tanto no meio rural como no urbano. Isto deve-se a um conjunto de factores que não interessa aqui especificar. Mas o que realmente nos surpreende é o facto de no espaço de uma geração se ter perdido esta prática de ir brincar para a rua e para o campo. De repente tornou-se memória. Cabe-nos reinventar essa memória e fazer com que os nossos filhos provem um pouco o sabor da terra e do pó. Depois de saboreá-la talvez não percam o gosto e queiram experimentar mais vezes deixando as consolas em casa.

PS. Como é que é essa do renascimento do "sexismo parental"?

2:15 da tarde  
Blogger Cuga said...

Em dia de efemérides e de memórias pergunto: O que é feito do Celso Martins e do Rui Lopes? Foram excomungados, exonerados, enxotados, extratriados, ou simplesmente esquecidos e apagados? E, já agora, onde é que eles estavam no 11 de Setembro de 2001?

4:05 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

O celso e o Nuno saíram e o Rui nunca chegou a estar.

5:58 da tarde  
Blogger Pirate said...

Os proteccionismos excessivos nunca são saudáveis, seja em que contexto for.
Vivemos na sociedade do medo global em que todos sofrem, crianças e adultos, uns super protegidos nas redomas parentais, outros submetidos a uma filosofia hiper securitária limitadora das liberdades individuais e que gera ainda mais medos.
Em ambos os casos o futuro não augura nada de bom...

7:13 da tarde  
Blogger Cuga said...

Então e o post da barbearia? Era assinado pelo Rui Lopes! Muitas vezes regresso a esse dia para dar umas boas gargalhadas com o seu sentido de humor limpo e gracioso.

8:57 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

Pois é, e continua assinado pelo Rui. Mas, infelizmente, ficou-se por esse dia.

9:21 da tarde  
Blogger Cuga said...

Então o Rui Lopes, é assim como que o Kurt Cobain do vosso blog!
E ponto, eu páro, continuem lá com os temas interessantes...

9:39 da tarde  
Blogger GG said...

Por muito que os protejamos, eles vão-se apercebendo da realidade aos poucos e assim ficam preparados para este mundo...

Um abraço

10:31 da tarde  
Blogger Shyznogud said...

"Sexismo parental" - uma pequena história para ilustar o "conceito": em 2001 (por mero acaso) a minha filha entrou para o 5º ano. Como é norma no início do ano os encarregados de educação têm q assinar uma folha da caderneta em q declaram se deixam ou não as criaturas saírem sozinhas da escola(só no fim das aulas ou em caso de falta do prof do último tempo... tadinhos, retiraram-lhes o prazer da balda q, digo eu, também faz crescer porq os responsabiliza pela "gestão da irrresponsabilidade"). Pois bem, da turma da júnior ela era a única das meninas q tinha autorização para sair... pelo contrário, todos os meninos a tinham. Ilustrativo qb?

10:36 da manhã  
Blogger Renato Carmo said...

Ok, já percebi. Mas achas que há um renascimento? Parece-me que essa forma de sexismo nunca deixou de existir.

11:47 da manhã  
Blogger Shyznogud said...

Estamos de acordo, nunca deixou de existir. Mas não era tão unânime. Posso fazer um paralelo porque eu e a júnior crescemos na mesma zona de Lisboa: muitas das adolescentes burguesinhas lisboetas que moravam em benfica e que têm agora entre 35 e 40/42 anos (a "minha realidade", portanto)tinham rédea bastante mais solta que as adolescentes actuais da mm realidade social e geográfica. Ainda por cima há uma agravante: os pais desta geração são pais que foram educados de forma mais liberal e com (diga-se o q disser isto conta e muito!)uma formação escolar bastante superior aos dos seus próprios pais. é um mistério que me transcende...

12:06 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

Os anos compreendidos entre 1975 e 1985, mais coisa menos coisa, foram marcados pelo rescaldo da revolução e foram, por isso, uma excepção. Vivíamos a rua como um espaço verdadeiramente público sem discriminações, o que não invalidava que estas continuassem a ser exercidas em casa. Esse contexto não é comparável com o actual. Mas, concordo contigo, há sinais estranhos na educação actual que tendem a reforçar os papéis sexuais tradicionais. Isso nota-se em muitas coisas, até nos brinquedos.

12:42 da tarde  
Blogger Shyznogud said...

Pode não ser comparável mas devia ter dado frutos. Bolas, são pessoas com quem cresci, com as mesmas vivências que eu, que agora fazem afirmações sobre a adolescência que me deixam de cara à banda. Ah! ainda para mais os putos são tão mais anjinhos, tão mais "comme il faut" que me ponho a pensar "mas de que é q esta gente tem medo??"

12:52 da tarde  
Blogger Renato Carmo said...

Provavelmente medo de "perder" os filhos. São uma obsessão diária que, como refiro no post, alimentam o nosso doce mundo paralelo. É terrível dizê-lo, mas acho que facilmente se cai nisso.

2:17 da tarde  

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