quinta-feira, setembro 07, 2006

A terra

Estes posts sobre a Reforma Agrária surgiram agora por nenhum motivo especial. Contudo, há já algum tempo que pensávamos escrever qualquer coisa sobre o tema. Não tem sido assunto muito badalado na blogosfera e muito menos na imprensa, ao contrário de outras temáticas recorrentes (algumas delas estéreis) relacionadas com a natureza do regime ditatorial do Estado Novo. Para a direita, a Reforma Agrária foi uma perversão, uma aberração histórica. Curiosamente, para a esquerda, mesmo para a mais ortodoxa, deixou de ser assunto de discussão e debate, que quando existe é envergonhado e até complexado. A Reforma Agrária não está na moda, tal como a questão da terra.
Neste mundo global que parece não ter chão, pelo menos, é essa rábula que nos contam todos os dias, falar de reforma agrária pode ser encarado como algo surreal. E, em certa medida, até o é. Mesmo para os alentejanos que a viveram, a reforma agrária representa um tempo que já não se encaixa na vida que levam, está fora do tempo. Foi um parêntese nas suas histórias pessoais e das comunidades locais. No entanto, como descrevemos brevemente, este processo constituiu um dos maiores e mais intensos movimentos sociais e cívicos que o nosso país conheceu. Não é possível olhar para ele de uma só perspectiva. Para além das paixões contraditórias que gera, convoca-nos necessariamente para uma reflexividade inquietante sobre um sem número de problemáticas, muitas delas bastante actuais.
Por exemplo, remete-nos para a questão da apropriação dos territórios e o modo como estes são ocupados e desocupados pelo capital económico-financeiro. Na maior parte dos casos a (des)cupação decide-se por intermédio dos circuitos electrónicos e informacionais. A terra perdeu poder. No Alentejo as aldeias, que apesar de continuarem rodeadas pelo latifúndio, separaram-se da terra, já não labutam nela e até desconhecem os seus donos. Em certo sentido, parece que também deixaram de ter chão.

2 Comments:

Blogger Cuga said...

Caro Renato
Em verdade, verdadinha te digo que estes posts estão em harmonia com o estado do Alentejo após um Verão rigoroso...

12:35 da manhã  
Anonymous Martins Fontes said...

Dir-se-ia mais até, após 5 verões rigorosíssimos.

9:30 da manhã  

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