quarta-feira, junho 28, 2006

Os túbaros de Orpheu




Quis a providência (ou antes mão amiga que vale bem mais que ela) que me viesse calhar às mãos um bilhetezito para a apresentação de Sátiro – 4º de originais dos Gaiteiros de Lisboa – acontecida no CCB pelas 21h de ontem. O disco não saíu ainda – até ver sairá quando lhe apetecer – mas arranque-se a prosa com imperativa sentença: comprem-no mal possam. Não caros quatro leitores, não a tomem por ordem, aceitem-na antes como ajuda pessoal.

Não sei que seja isso de música tradicional portuguesa, ou pelo menos das suas fronteiras com as outras. Sei que os Gaiteiros, hoje melhor do que ninguém, ocupando e expandindo o espaço da Banda do Casaco antes deles, ou do GAC antes dela, ou da Filarmónica Fraude ainda antes desses, mandaram definitivamente essas fronteiras colher giesta e a cada novo disco invadem barbaramente território musical que parecia não existir antes de tomado a pulso por ideias eventualmente estapafúrdias no papel, mas que ouvidas soam a génio puro, ó iludida descrença, a génio luso a génio luso (?). Bocarras do inferno, oficiais do estupro, agentes da desdita, rasgam tecido musical e cosem-no de novo, retalham-nas, às tiras de som, depois largadas ao vento a ver o que dá, peneiram ideias e deixam-nas densamente, às carradas, registadas nos discos para alegria de nossos tímpanos incréus da beleza jorrante de tão esventrada tradição. E depois disto muito mais me apetece dizer de vós Gaiteiros d’um raio, corja de inventores grandessíssimos cabrões de génio possuídos... mas fiquem-se apenas com isto e não digam que vão daqui:

muito muito muito muito muito muitíssimo muitíssimo obrigado.
E ainda mais pá,
«Obrigados».

E quanto ao concerto? Concertão pois claro! Não que o som estivesse perfeito, não que a coisa fosse isenta de erros, não que os instrumentos inventados não brochassem (ver todos significados possíveis no Houaiss) uma ou outra vez, não nada disso, digamos apenas que os Gaiteiros deram um concerto. Isso basta.
Deram um concerto onde a juntar a alguns velhos temas de Invasões Bárbaras (1995, Farol), de Bocas do Inferno (1997, Farol) e Macaréu (2002, Aduf), tocaram grande parte de Sátiro – entre outras destaque para O fim da picada, Nem fraco nem forte (extraordinária canção, poema de Amélia Muge?), Capa chilrada (duas partes distintas, a primeira introduzindo violino no universo GdLX pela primeira vez?, a segunda sobre uma espécie de mantra de flautão? – numa palavra, estupenda), Movimento perpétuo (com Pedro Carneiro – que pobre ignorante me confesso, até prova em contrário desconhecia totalmente – reinterpretando o tema de Paredes na percussão melódica, vulgo xilofone), Chamarrita do Pico ((em)balada de flautas e tubarões), a desbunda literal d’As freiras de Santa Clara (tema clerical-respeitoso, eh eh eh) ou, para nomear apenas mais duas, Descantiga de andor colando com Canto de trabalhos (esta de Macaréu, originando a colagem um dos momentos mais bem conseguidos do concerto) e Mafalda Arnauth dando voz a um fado bem fadado por Carlos Guerreiro em Os versos que te fiz.
Aproveitou-se ainda a presença da fadista para uma versão «Gaiteira» de Lusitana, de Fausto Bordalo Dias, que é apenas parcialmente bem sucedida, dado que no refrão – sim, naquela parte do «és o nosso almirante, terra mãe de crioulos, cuida da nossa alma errante nós só queremos teu consolo» - é impossível fazer melhor do que o original, pelo que a voz da Mafaldinha, qual madalenazinha demolhada em chá fervente, não deu pr’aquilo, e mesmo musicalmente falta gás ao trecho. Pois, não é incolumemente que se metem as mãos em material quasi-sagrado, assim da estirpe de Lusitana (ai Fausto Fausto, manda mas é cá para fora o 3º volume da trilogia para dares outra alegria à gente).
Em suma, grande noite terminada em apoteose com Trângulo-Mângulo, apesar da sala já parcialmente esvaziada. Será que o pessoal teve pressa de ir para casa ver o Diário do Mundial, isto mesmo apesar da exortação anti-futebol de Carlos Guerreiro? Grande azar ó Carlos! Tenho mesmo impressão que se marcasses o concerto para a tarde de sábado próximo, terias trinta ou quarenta almas penadas na sala a ver-te soprar nos túbaros de Orpheu.
Valeu.


Alinhamento do disco:
01. O fim da picada
02. Nem fraco nem forte
03. Capa chilrada
04. Movimento perpétuo
05. Ai de mim tanta laranja
06. Chamarrita do Pico
07. As freiras de Santa Clara
08. Pracá-dos-Montes
09. Haja pão
10. Descantiga de andor
11. Alma alba
12. Os versos que te fiz
13. Se fores ao mar pescar

3 Comments:

Blogger cristina said...

Venho acusar-me com um dos "quatro leitores" para dizer que este relato deu vontade de aceitar a "ajuda pessoal" que ofereces!
Quanto ao "3º volume da trilogia", ainda estás convencido que são para cumprir os 12anos?... Era bom que fosse este ano, mas achas que sim?...

6:28 da tarde  
Anonymous Nuno Sousa said...

Olá Cristina,

Pois, de facto seria bom que fossem 12 anos, mas acho que serão mais, penso que só em 2007 (ou 2008) o dito verá a luz do dia.

Saudações musicais

1:14 da manhã  
Blogger cristina said...

Volto para dizer que por tua culpa estive ontem na Casa da Música...

Ó pá, Nuno, "obrigados"!

4:21 da tarde  

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