segunda-feira, outubro 31, 2005

Um biógrafo à altura


Um conhecido de um amigo procurava na net informação sobre Fausto (Bordalo Dias) e descobriu referências à sua biografia oficial. Autor? Goethe.

Cuidado com a agulha


"O povo tem vários procedimentos para descobrir as bruxas. Se o padre, ao findar a missa, deixar o missal aberto, na página de Santos, ou seja, no início do Cânon, onde está a cruz de Cristo, elas não podem sair da igreja, enquanto não for fechado o missal. Deitando nove feijões reijados na pia de água benta, ou uma moeda branca, com a cara para cima, também ficam na igreja. Colocando uma agulha no caminho, se o transeunte se pica e volta para trás, é bruxo".
(António Fontes, Etnografia Transmontana)

A justiça portuguesa na primeira pessoa

Conversa telefónica entre Fátima Felgueiras e o Juiz-Conselheiro Almeida Lopes, acusado de favorecer a autarca no processo do «saco azul» e de pressionar várias testemunhas a mudarem o seu depoimento. Transcrito do jornal Público.

FF – Esta semana fui ao tribunal… [por causa de umas coimas aplicadas pela câmara]
AL – Sim.
FF – Eu ‘tive lá a ser ouvida e a minha apreciação, ó pá, eu estava lá e olhava, pá, aquela juíza e dizia assim, como é que tu tens condições para decidir o que quer que seja em relação a isto, tu não percebes boi disto. (…)
AL – Ehh, Fatinha, ehh, queria pedir-te duas coisas.
FF – Então diz.
AL – Ehh, logo que tu tenhas conhecimento da decisão do secretário de Estado, tu diz-me imediatamente, sabes porquê? Porque se ele decidir mandar pò tribunal administrativo eu quero ir logo falar com o Ministério Público aqui do tribunal administrativo.
FF Hum, hum.
AL – Porque eu vou procurar dar um golpe de rins, a ver se ainda consigo evitar (…) como foi da outra vez há dez anos, percebes?

domingo, outubro 30, 2005

Para um domingo chuvoso

Ronald Koeman ao Quadratura do Círculo JÁ!

Um tipo chega a casa cansado e ouve o Koeman na televisão: é um partido complicado.

Estes gajos são do caraças. Estão no país há três meses e já mandam assim bocas ao PS por dá cá aquela palha?

Cérebros portugueses pelos quatro quintos do mundo

As notícias fizeram correr muita tinta e gastaram ainda alguns largos minutos de tempo de antena em todas as televisões, e na TVI também. O caso era grave, muito grave: um quinto dos diplomados portugueses teria já "fugido" para o estrangeiro.
Afinal vai-se a ver e não é nada assim. Por estas e por outras, às vezes bem mais graves, é notória a necessidade de um jornalismo sectorial especializado, isto é, da existência de equipas de técnicos nas redacções dos órgãos de comunicação que interpretem informação correctamente, por forma a que quando o licenciado em jornalismo, ou comunicação social ou coisa que o valha, "monta" a peça, a informação não seja desvirtuada e subvertida pelo desconhecimento do "montador". No caso em apreço, afinal, até nem se pedia muito. Aparentemente saber inglês era suficiente.
Tristezas à parte, imaginamos a reacção de um "cérebro" como por exemplo Nuno Fernandes Thomaz (ex-Secretário de Estado de Paulo Portas que tinha como grande ambição expandir a Zona Marítima Exclusiva portuguesa p'raí até Varadero) a receber a notícia: Ena! A sério!? Mas então e o outro quinto?!

sábado, outubro 29, 2005

Cem

Este é o post nº 100!

A Direita Alegre

Basta ler este post para perceber porque é que alguma direita liberal se seduz pelo estilo Alegre.

Pérolas na grande superfície




Não gosto de fazer compras nas grandes superfícies, prefiro as médias tipo Pingo Doce ou Lidl. Tudo está mais próximo e anda-se muito menos. Não nos acontece, por exemplo, chegar ao fim das compras e, depois de percorridos kms de corredores e de prateleiras, termos de voltar ao início porque nos esquecemos dos ovos. Mas, infelizmente, só nos hipermercados encontramos certos produtos e lá rumamos para comparar as fraldas dodot (que são mais baratas) ou o tal champô que não costuma haver nos outros. Sempre que visito uma destas catedrais do consumo dou uma saltada ao espaço dos CDs, à procura de saldos. Normalmente, encostado em qualquer canto, encontra-se uma espécie de um tanque de arame cheio de CDs dos mais variados tipos. É preciso ir com alguma paciência, mas às vezes acham-se autênticas pérolas a 8 ou 9 euros. Foi o que me aconteceu na última visita, entre o pior Pimba, o Pop mais comercial e o fadista mais pseudo-pós-moderno, encontrei Lamb, Sérgio Godinho, Vinicius, Tom Jobim… Mas já no fim, Pink Moon de Nike Drake e Ballads de John Coltrane. Uauu! O primeiro tinha gravado em K7 e há muito que não ouvia. O segundo já muitas vezes o tive na mão (noutros escaparates, é claro) mas acabou sempre por ficar atrás de qualquer outra escolha. São dois álbuns à medida desta estação outonal. Cada um, à sua maneira, embala-nos para uma certa liberdade nostálgica. Enfim, dito assim até parece um bocado foleiro. Mas pronto, foi o que me veio à cabeça. Afinal, tudo isto veio a propósito da minha última visita ao hipermercado…

sexta-feira, outubro 28, 2005

Cavaco amigo Sócrates está (quase) contigo

No fundo, no fundo…naquele fundo bem escondido, será que Sócrates não prefere Cavaco a Soares? Aquele discurso a apontar para o fórum social, para o movimento anti-globalização. Aquela ênfase nas desigualdades sociais. Aquela coisa de ser o ouvidor das minorias. Tudo isto é demasiadamente de esquerda para Sócrates. Já Cavaco… Bem, aquele discurso do rigor nas contas públicas, da importância do plano tecnológico, da estabilidade acima de tudo, do presidente conciliador, dialogante (palavra cara ao guterrismo). Enfim, parece-me que Sócrates se vai deixar seduzir, aos poucos, pela aproximação de Cavaco. Por outro lado, em relação a Alegre não haverá grandes dúvidas. Aliás, numa eventual segunda volta entre o Professor e o Poeta, Sócrates irá provavelmente prestar um apoio envergonhado ao segundo, mas no seu íntimo estará a torcer por uma vitória do primeiro.

A Grande Estrela


Alex Chilton é nome que hoje diz pouco a muita gente e muito a pouca. Há 30 anos atrás, muito provavelmente, e exceptuando os EUA, talvez se passasse o mesmo. Ainda assim, há que regozijar com o facto de pessoas como Michael Stipe ou Peter Buck, dos REM, Peter Holsapple, dos DB's, Jeff Tweedy dos Wilco ou Paul Westerberg, dos Replacements, o terem escutado no tempo certo e com a atenção devida às grandes estrelas. Terem deixado passar algo da sua música para a das respectivas bandas foi apenas consequência lógica.
O som folk/rock de aguçado travo pop cultivado por Chilton e companhia nos Big Star, originou uma mão cheia de canções que sobreviveu à passagem da grande estrela cadente. Que Ivo Watts-Russell tenha escolhido duas das composições de Chilton presentes neste Third/Sister Lovers, Kangaroo e Holocaust, de onde se extrai seiva venenosa que mata em poucos segundos caso não se ingira antídoto certo imediatamente, para figurar em It'll End In Tears, disco de estreia dos This Mortal Coil, também não diz pouco da grandeza de Chilton para quem gosta de música popular. Tivessem vocês nascido nos anos 70 e só o nome Watts-Russell vos faria já começar a gritar coisas como "Slicin' up eyeballs, I want you to know..." ou afins... mas isso é outra cantiga. Voltando à grande estrela... é como tudo: não está morta, só esquecida. Debaixo de um alçapão qualquer num piso perdido da Torre da Canção confraterniza com outras estrelas de grandeza igual igualmente esquecidas. Valha-lhe, valha-nos, esse confortozinho.

Uma gaffe é uma gaffe é uma gaffe

O Celso já aqui falou de algo que se deve evitar, que é o escalpelizar exacerbadamente os 10 anos de consulado cavaquista. Concordo e acrescento, pior que isso é insistir-se na exploração das mesquinhices com que, preguiçosamente, se gosta de mimosear a figura hirta de Cavaco: o bolo-rei, o coqueiro, os 9 cantos d'Os Lusíadas ou a “Utopia de Thomas Mann” são apenas alguns exemplos.
Momentos de descontracção ou gaffes perfeitamente humanas ante as câmaras televisivas só não as tem quem não tem câmaras televisivas à frente 12 horas por dia. Não é por isso que Cavaco é uma pessoa melhor ou pior preparada para desempenhar o papel de Presidente da República. Já a sustentação de ridículos tabus que todos adivinham sem pestanejar, o medo de assumir frontalmente posições ou convicções sem que antes se tenham de decorar pelo menos 50 linhas de texto e duas tabelas do Financial Times para, só depois e ainda assim, proferir duas secas sentenças descomprometidas sobre um qualquer assunto, os silêncios gritantes, as subtracções de carácter debaixo dos holofotes das grandes questões, ou a falta de solidariedade evidenciada pela forma indecente, crudelíssima, como deixou cair Fernando Nogueira, provam que há muita coisa a dizer sobre Cavaco Silva sem recorrer a aspectos menores. No fundo actos tão pequeninos que minimizam tanto aqueles que os apontam como aquele que os perpetrou.

Votar Cavaco não votando

Depois de 86 Soares bateu, em 1991, Basílio Horta por mais de 55 pontos percentuais, obtendo cerca de 70% dos votos. Em 1996, Sampaio bateu Cavaco Silva por mais de 7%. Registe-se que este resultado de Cavaco, após 10 anos de governo, foi muitíssimo bom. Poucos acreditavam que depois do desgaste provocado por tanto tempo no poder o professor pudesse verdadeiramente vencer. Em 2001 Sampaio consegue o 2º mandato com perto de 56% dos votos, logo à 1ª volta e apesar dos múltiplos candidatos. Portanto a conclusão é simples: desde 1986 que não se antevia um confronto presidencial tão quente como o próximo. Causa ou efeito disso mesmo, os próprios protagonistas, Cavaco de um lado e Soares do outro (mesmo considerando Alegre à frente de Soares no barómetro Marktest de hoje), são também eles, ainda, as duas principais figuras do nosso regime democrático dos últimos 20 anos.

Cavaco, como Freitas em 1986 (46.26% na 1ª volta), parte com um resultado estimado que o posiciona muito perto da vitória logo no 1º round. Se assim acontecer não há nada a fazer. Caso contrário tudo se torna muito mais interessante. O 1º objectivo da esquerda deve pois ser o de evitar a vitória sumária do professor, obrigando-o a jogar o prolongamento. Em 86 a abstenção rondou os 21%, e se este resultado se pode apenas sonhar para 2006, uma coisa é ainda assim certa: abstermo-nos à esquerda é sinónimo de votar Cavaco.

Há quem morra sem dar por isso

Não é preciso ser particularmente sagaz para perceber que as eleições de Janeiro próximo são a mais interessante batalha política desde 1986. Esse grande recontro que dividiu o país ao meio, dando então uma 2ª volta a vitória a Soares por menos de 2.5%, depois de na 1ª os seus votos somados aos de Zenha mal chegarem para cobrir o score de Freitas, parecia não mais poder repetir-se. Mentira. Em Janeiro, para o bem e para o mal, um país muito diferente daquele que assistiu numa televisão de 2 canais às noites eleitorais de 86, poderá viver uma eleição presidencial daquelas de deixar os nervos em franja. E qualquer indivíduo que se considere de esquerda e não vá votar, só pode ser da esquerda morta.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Cavaco namora Sócrates

Será impressão minha? Mas pareceu-me que, na apresentação do seu manifesto, Cavaco esteve a ler trechos do programa de governo do PS, especialmente a parte dedicada à economia. Com isto, Cavaco não só dá um pontapé de morte na direita liberal, como se prepara para abraçar o socialismo moderado.

Soares em boa posição

A estratégia de Soares para esta pré-campanha tem sido bem sucedida. O objectivo de se aproximar dos 7% das sondagens de 1985 está quase a ser alcançado. Se conseguir descer ainda mais a fasquia, tem todas as condições para chegar à vitória na segunda volta. Esperamos ansiosamente as próximas sondagens.

Caça ao silêncio

Já se nota na blogosfera e a sua amplificação mediática só vai piorar as coisas. Quatro candidatos a bater no «Cavaco primeiro-ministro» é o melhor que lhe pode acontecer. A estratégia abre espaço à vitimização que - desde o episódio do aumento do leite ainda no governo minoritário - , ele sempre explorou muito bem (o «deixem-nos trabalhar» funciona aqui como um emblema). A esquerda tem de ser mais propositiva e, mais do que malhar nos dez anos de cavaquismo, tem de demonstrar a ausência de perfil para a função e, sobretudo, abrir a caça ao silêncio. A um silêncio com, pelo menos, dez anos de espessura.

Não há coincidências

A presidência faz-se com modelos e os modelos criam jurisprudência. No contexto nacional, o modelo de Cavaco só pode ser o de Eanes: pouco apreço pelos partidos; nenhum pela Assembleia da República (lembram-se da relutância de Cavaco em lá ir?); pose hirta e um minimalismo comunicativo inversamente proporcional ao desejo de intervenção. Ainda se lembram?

Responder aos anseios da padeira

Os norte-americanos que apoiam Cavaco, os árabes que apoiam Louçã, os russos que apoiam Jerónimo ou os suevos e visigodos que apoiam Soares não se reconhecem nesta candidatura.

Roseta dos ventos

Ontem à noite, na SIC Notícias, Helena Roseta e José Freire Antunes estiveram num frente-a-frente que versava o acto de apresentação do programa de Soares. É verdade, um frente-a-frente em que ambas as partes estão, para o caso, do mesmo lado da barricada, isto é, lado-a-lado contra Soares.
De Freire Antunes realce-se o ter declarado que não fala por encomenda, apenas pela sua cabeça. Se a isto somarmos o sintomático facto de não ter dito nada de jeito concluímos que foi um péssimo momento para a promoção da própria cabeça.
Já em relação a Helena Roseta a porca torce o rabo. No parecer da arquitecta nada do que Mário Soares diz é novo. Mas, por mais paradoxal que soe, também disse que concorda com grande parte do que o candidato diz. Quanto à actualidade do próprio ideário político de Roseta estamos pois conversados. Não sendo capaz de adiantar uma medida de Alegre em que este se distanciasse substancialmente de Soares, resolveu então levantar o véu sobre o réprobo conceito de perseguição. Aparentemente até terão sugerido que ela não participasse nas reuniões do PS. É óbvio que ninguém deveria expulsá-la das reuniões do PS. Ela é que, pelas mais básicas regras de decência e ética, deveria excluir-se das ditas. Mas isto não lhe passou pela cabeça. É pena. Garantiu-nos ainda assim que não conta ser expulsa do partido. Valha-nos isso. A modernidade da esquerda contará de novo com ela. Quando o vento mudar, ela voltará.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Brincar ao quarto escuro

Cavaco Silva não sabe para onde se virar. Francisco José Viegas escreveu que com Cavaco como PR acabam-se os tempos de conspiração de Belém contra São Bento. Para outros apoiantes igualmente ilustres do professor, como Morais Sarmento (companheiro de governo de Marques Mendes, com Durão Barroso), Cavaco é uma espécie de Zorro que vem repor a justiça parlamentar portuguesa (29% nas legislativas não convenceram). De certa forma estas duas teorias ganham corpo único se Cavaco fizer uma e uma só coisa: implodir o parlamento. A tese do revanchismo venceria e a outra também - se não houvesse sequer São Bento, como poderia conspirar-se contra ele?
Com tanta informação controversa sobre si próprio, oriunda das próprias hostes, aconselha-se pois Cavaco a reavivar a sua velha máxima: "não leio jornais". Quanto a nós, pobre povo, quedemo-nos pois na incerteza do que dali sairá. É que se nem eles sabem, como poderíamos nós sabê-lo? E com votos não se brinca ao quarto escuro.

Sol na eira e chuva no nabal

O Renato já disse no post abaixo o que o jornal Público fez hoje com a apresentação do programa político de Soares, ocorrida ontem ao fim da tarde. Mas no DN também houve galhofada. Pedro Correia diz que viu "muitos cabelos grisalhos, muito poucos jovens". Aparentemente o repórter queria ver malta jovem mas, como ainda era cedo, foi até ao salão nobre do Ritz em vez de à 24 de Julho. Enfim, viu poucos jovens mas lá aproveitou e escreveu uma peçazinha para o jornal. Conclusão: não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. É a crise. Cavaco Silva é que entretanto, de sobreaviso pela leitura da notícia, talvez devesse declarar que a próxima acção de campanha terá como local o Portugal dos Pequeninos. Pedro Correia aplaudiria.

Quem será o velhinho?

A primeira página do jornal Público é sintomática do que este diário pretende fazer ao longo desta campanha eleitoral. Um velhinho aparece em grande plano com os olhos fechados. A fotografia não foi, certamemente, escolhida ao acaso. Quem será? Parece que é um político. Nas páginas interiores mantém-se o registo, o mesmo velhinho é fotografado por detrás numa imagem que realça os seus cabelos brancos e o corpo descaído que se apoia na tribuna. Afinal o idoso é Soares! Bem, está mesmo velho.
Por seu turno, o editorial de José Manuel Fernandes (JMF) é ambíguo em relação ao ancião, aliás, muito ao seu jeito. Uma ferroada aqui, uma valorização acolá. Mas o tom dominante passa por salientar a ideia de que o velhinho não traz nada de novo. É o tipo de comentário que se pode aplicar a qualquer outro político. Esta ambivalência jornalística é tipicamente portuguesa. E denota, antes de mais, uma grande falta de honestidade intelectual. No seu Jornal JMF, utiliza a força da imagem para desacreditar Soares, mas não tem a dignidade de assumir a sua verdadeira posição no editorial. O Público está a tornar-se num jornal cada vez mais isento de bom jornalismo.

terça-feira, outubro 25, 2005

Direita à deriva

O quê! Será que li bem? Luciano Amaral ainda não se decidiu completamente em quem vai votar. Das duas uma, ou Cavaco deixou de ser visto como o tão apregoado regenerador do sistema porque se declarou social-democrata e fiel cumpridor da constituição e, por isso, já não tem o seu voto; ou Luciano ainda espera pelo desejado candidato da direita (leia-se Paulo Portas). Mas haverá uma terceira hipótese? Poderá Luciano estar a ponderar votar num candidato de esquerda? Talvez Manuel Alegre encaixe bem no homem da ruptura com o sistema que tanto procuram. Não há dúvida, a direita anda perdida, não bastou ter sido renegada por Cavaco, como agora se sente vítima de perseguição da campanha de Soares. São tão oprimidos!

Para abortar o referendo

Sócrates prepara-se para resolver o problema do aborto na assembleia. É uma estratégia que visa, evidentemente, encurtar caminho. Faz mal. Se o fizer, ele é o primeiro a perder com isso a médio prazo. Desde logo, perde o próprio instituto do referendo que passará a valer zero neste país. Mas o problema essencial é que a palavra do primeiro-ministro valerá tão pouco que se aproximará da bancarrota. Depois do aumento dos impostos (que ainda se podia justificar pela mascarada do orçamento herdado) e depois do dito por não dito nas Scuts, deixar cair o referendo é dizer aos portugueses que se pode fazer tudo nas suas costas. É claro que tudo isto se podia ter resolvido na Assembleia sem referendo nenhum (aliás, muito discutível neste caso), e que a possível chegada de Cavaco à presidência deixa toda a gente à esquerda preocupada com o destino da despenalização, mas não podemos por isso cavalgar a vontade do povo já manifesta (ainda que num contexto não vinculativo) nem apagar os episódios anteriores desta triste história. O mais irónico é que ainda vamos ver o Bloco, um dos partidos mais mobilizados pela questão do aborto, a ser o único, à esquerda, a exigir a consulta popular.

Será dos puros o reino dos céus

Pureza, José Manuel Pureza, é o nome do mandatário nacional da campanha presidencial de Francisco Louçã. Pureza. Louçã segue a sua linha investido de uma coerência à prova de bala. E nenhum pormenor lhe escapa.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Mário e o Mágico

Nacionalmente Mário Soares é a melhor definição do político. Mas outra vez? Perguntam muitos (até potenciais votantes). Só que o próprio não tem culpa que, na sua zona político-ideológica, não tenha surgido o tal, o redentor, o carismático, o congregador, ou seja, não contando com as prima-donas, não apareceu ninguém da geração seguinte que, sem medo e com consistência política, tenha avançado. É triste. Pois é.

O discurso de lançamento da campanha de Soares foi lúcido, moderno, jovem e com sentido de humor. Soares falou de si e do risco que está disposto a correr nesta sua candidatura. Falou também da agenda política do país e da Europa, das dificuldades que todos vamos ter de enfrentar. Conhecedor do país, dos seus protagonistas e dos seus bloqueios, deu-nos o social por contraponto ao destempero neo-liberal e apresenta-se como aquele que joga na política e inflecte na tecnocracia. A julgar pelo discurso, Soares continua fixe.

Cavaco foi correcto e curto (qualidade esta que quase serve de premissa à primeira). Mas falou como se viesse de um lugar distante que, com lentes para hiper míopes, nos dá a luz sobre as difíceis condições de vida dos portugueses, fazendo da sua potencial intervenção presidencial o instrumento para as atenuar. Outra vertente do seu discurso foi a demarcação do seu partido (a máquina que lhe vai montar a campanha), para se vestir de uma súbita neutralidade de quem “não é de nada nem de coisa nenhuma e o que quer é estar de bem com todos”. Esta é uma condição impossível para quem quer estar na política activa dando corpo a alguns dos seus cargos mais importantes.
Lamento ainda que uma das figuras que fica para a história recente do país não goste da política e dos partidos. Trata-se pois de um homem que parece situar-se longe de um dos pilares da democracia: a existência de partidos representativos de vontades políticas e sociais, com função de transporte entre sociedade e estado, e de laço entre participação e poder. É pena!

Soares não tem só passado político, tem também presente. De Soares sabemos o que pensa sobre o 25 de Abril, o aborto, a Guerra do Iraque, a globalização, a Europa, o terrorismo, a imigração… Já de Cavaco pouco se sabe. Foi-se entregando a sucessivos tabus como estratégia de política fundamental. É uma espécie de remake estafado de alguém que se insinua sem nunca verdadeiramente se oferecer.

Nesta nova batalha política, a que, como muitas outras, Soares disse “sim”, o primordial objectivo é vencer Cavaco e a Direita.
Cavaco mal existia politicamente quando foi à Figueira da Foz, e uma rodagem ao carro valeu-lhe a presidência do seu partido (ele há rodagens bem feitas). Em quase dez anos de afastamento político, e esquivando-se sucessivamente a uma participação política activa, pode calhar-lhe uma presidência da república. Passos de mágica? De que signo será este senhor?
[Susana Martins]

Espelho meu, espelho meu quem é mais comissário do que eu


É mais forte do que eu, não consigo resistir ao comentário semanal de António Vitorino sem me afundar no sofá e passar pelas brasas. Como não se quer comprometer com ninguém nem com nada, foge da política nacional e refugia-se nos temas europeus e internacionais. Mas sempre com aquele ar de ex-comissário que sabe mais do que toda a gente porque esteve lá (na Comissão Europeia). Na semana em que Cavaco anunciou a sua candidatura, Vitorino achou por bem dedicar quase todo o tempo da sua rubrica a falar da gripe das aves. Quem não desse por isso pensaria que estariam a entrevistar o comissário para os assuntos da saúde, ou algum alto dirigente da OMS. Vitorino ainda não percebeu que já não está lá. Sente-se mal por cá. Mas aqueles minutos de antena dão-lhe a oportunidade de se ver ao espelho e exibir o seu alter-ego. Só que o reflexo do espelho já não convence ninguém, nem sequer o próprio.

Regresso à Idade da Pedra

Casal Ventoso vai ter parque temático sobre o neolítico.
(segundo notícia do Público)

[Rui Tavares]

Declaração de voto

Na crónica de ontem no Público, António Barreto traça o perfil a que deveria corresponder o próximo presidente. Segundo o comentador o presidente deverá “agir diante os cidadãos, às abertas. Se não for um covarde que, com receio de ser contrariado pelo governo ou pelo parlamento, prefira o silêncio ou a reserva. Se trocar as conversas semanais, discretas e alcatifadas, do Palácio de Belém, com o primeiro-ministro, pelo espaço público. Se for concreto e preciso. Se a população perceber o que denuncia e o que propõe”. Concordo plenamente com esta visão da acção presidencial que valorize, antes de mais, o espaço público enquanto espaço de construção não só de opiniões e de debate mas, acima de tudo, de projectos para o país. Um espaço de diferença no qual se assumam posições claras perante os problemas mais marcantes da sociedade portuguesa.
António Barreto não desvenda se algum dos candidatos em causa se encaixa neste perfil. No entanto, se me permitem, considero que não há grandes dúvidas a este respeito. Só Mário Soares tem condições inatas para mobilizar a sociedade civil, as instituições e os partidos em torno desse espaço de inscrição (conceito caro a José Gil). De entre os candidatos que poderão ganhar, nenhum outro demonstra ter essa capacidade. Cavaco é por natureza um homem solitário, jamais conseguirá funcionar noutro registo que não seja dentro do seu próprio espaço. Alegre tornou-se um homem fora do sistema, nomeadamente partidário, e os partidos não poderão estar excluídos desse espaço. Soares já demonstrou como presidente que consegue trazer à agenda temas normalmente ausentes da praça pública, como o ambiente ou o desenvolvimento sustentável. A presidência aberta na Área Metropolitana de Lisboa é o exemplo mais sintomático. Por tudo isto, Soares terá o meu voto logo à primeira volta.

sábado, outubro 22, 2005

A loja do bairro


Dos poucos documentários que tive oportunidade de ver neste último Doclisboa, gostava de destacar Alimentation Générale de Chantal Briet. O filme retrata os dias vividos na única loja existente num bairro suburbano perto de Paris. Um subúrbio inóspito igual a tantos outros, onde coabitam mais de cem nacionalidades. Muitas destas pessoas frequentam regularmente o supermercado de Ali (o dono). Mas este espaço é mais do que uma loja. É o centro do bairro. E para algumas destas pessoas é o centro do mundo – como nos contava Manuel da Fonseca a propósito do largo da aldeia. Na verdade, tal como o largo da aldeia, o supermercado de Ali é povoado por personagens que marcam o seu quotidiano. Nele encontramos o jovem alienado (às vezes alcoolizado ou pedrado), as velhotas que vão comparar o pão da manhã, as crianças à procura de guloseimas, os jovens desocupados, os trabalhadores cansados… Acompanhamos algumas dessas personagens através do seu dia-a-dia na loja. Todas se sentem ligadas àquele lugar no qual se reconstrói os resquícios de uma identidade comunitária. Durante o filme vamo-nos familiarizando com as pessoas que por ali passam, e que falam de si e dos outros. No meio daquele betão frio que se ergue no cinzento dos prédios, o pequeno supermercado ganha uma cor calorosa e, de certa forma, reconfortante para muitos daqueles residentes. O anúncio da demolição do casarão que alberga a loja gera intranquilidade. Para as personagens, já nossas conhecidas, a possibilidade do supermercado fechar é encarada com tristeza. Felizmente tudo se resolve, a loja transfere-se para um edifício novo situado mesmo ao lado do anterior. As pessoas mobilizaram-se e no final comemoraram a sua pequena vitória. O centro do mundo não se desfez e a utopia continuou a fazer-se no dia-a-dia daquele supermercado.

O olhar que não engana


Lucien Freud debruça o olhar sobre Kate Moss.

Preocupação senhores, preocupação


O trailer da nova versão cinematográfica (?) de O Crime do Padre Amaro deixa-me preocupado. É que com o que se lá vê, ainda vão arranjar maneira de o padre parecer o melhor que por ali anda.

sexta-feira, outubro 21, 2005

Ó Katia, eu também não e para o ano já são 35

«O professor Cavaco Silva nunca foi presidente da República, nunca teve a possibilidade de mostrar de que forma pode ajudar o país». Katia Guerreiro, in Público.

Comunidade espírita com Cavaco

«Ficámos à porta, mas daqui apoiamos Cavaco em espírito», título do Público.

Do lado certo

Por textos como este, que gostaria de ter escrito mas dificilmente seria capaz, e porque ainda por cima a cadência com que aparecem é praticamente diária, o Canhoto e Rui Pena Pires são provavelmente os meus blog e blogger preferidos do momento. É bom ler o Canhoto. É bom saber que há gente desta na blogosfera. Do lado certo.

LEGALIZAÇÃO JÁ!


Chega de andar a reboque dos artifícios e da hipocrisia da direita. Chega de aturar as indecisões cobardes de Sampaio. Chega de anúcios implicitos. Sr. Primeiro-Ministro, tenha a coragem de, uma vez por todas, levar a lei de despenalização do aborto à Assembleia da República. Faça com que a democracia funcione de vez! Já não há pachorra!

Porque sorri Cavaco?

Cavaco está um novo homem. Até pôs uma gravata vermelha e sorriu, sorriu muito. Cavaco cativou os jornalistas. Respondeu a todas as perguntas e sorriu, sorriu muito. Cavaco disse tudo o que tinha para dizer em oito minutos e sorriu, sorriu muito.
Cavaco falou em nome do ‘poguesso’ e de repente senti um arrepio. E não é que me lembrei! Afinal é ele, o Cavaco que raramente se enganava. O Cavaco das forças de bloqueio. O Cavaco do ‘deixem-nos trabalhar’. O Cavaco do Pulo do Lobo. O Cavaco do bolo-rei. Afinal o homem não está assim tão diferente. Então, porque sorri tanto? Talvez queira esconder-se. Teremos então de espreitar por detrás daquele sorriso insistente e encontrar o Cavaco original. O Cavaco que não sabe sorrir.

O espectador exausto ao chegar a casa

Olha sempre avança, temos presidente.

e este sempre vai para o Sporting?, não é muito novo?, ena já está a explicar a táctica.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Land of the dead

vs.

Buuuu... scary!


A Terra dos Mortos, de George Romero, não é nada que assuste. Nem esse é o propósito. O realizador continua habilmente a transpor a dimensão real para aquela outra que criou no já longínquo ano de 1968, aquela em que os mortos vivem. Desde então, e este é já o quarto capítulo da saga, tem sabido mapear de uma dimensão para a outra, de forma exacta, os medos de cada época. Por isso, em cada filme que cria é muito mais do que mortos e sangue o que lá se vê. Aliás, esse é apenas o primeiro nível da coisa. Quem quiser ficar por aí, faça favor. No entanto quem quiser ir mais longe pode também fazê-lo, e sem descurar os códigos do género. Ora aqui é que a porca torce o rabo, pelo menos para alguns. Para os apreciadores não, para esses é sempre a ganhar.

No coração de uma clara treva


Heart Of Glass (1976), também de Herzog, já é outra fruta. Um elenco hipnotizado, à excepção do pastor/profeta Hias (na foto), que vive grande parte do tempo isolado com o seu rebanho nas montanhas, materializa uma visão do apocalipse. Os tons cinzentos e gelados do filme, a vertigem genesíaca da origem da vida, no e do início de tudo, a velocidade anestesiada dos diálogos, as metáforas apocalípticas, a grandiosa música dos Popol Vuh, tudo, tudo contribui para o todo de forma irrepreensível. Cinema limite, a espaços meramente pictórico, uma experiência tanto para quem vê como para quem realiza, como Herzog advoga. A ver.

Scream...


De Werner Herzog espera-se muito mais. Ainda assim, dá-nos outra vez um homem em combate obsessivo contra a maior de todas as forças, a natureza. Não há vitória possível sobre Cerro Torre - a montanha que domina o filme com a sua presença esmagadora. A chegada ao topo é um bilhete de ida para um mundo de contornos menos definidos que o nosso, e aqui esse momento final ainda tenta a redenção de um filme frouxo, que é o que Scream Of Stone verdadeiramente é. Mas não consegue. Como dizia ali em cima, de Herzog espera-se muito mais.

Um filme perdido


Uma Chamada Perdida, de Takashi Miike. Desapontante. Para além de um argumento um tanto ou quanto gamado a clássicos recentes do cinema japonês do género, nomeadamente Ring, de Hideo Nakata, Miike falha redondamente naquilo que tão bem fez por exemplo em Audition, a saber, um tratamento do mal enquanto massa omnipresente que tudo envolve, de forma inexpugnável, e que irrompe momentaneamente gerando efeitos assustadores. No já referido Audition não há palavras para descrever o que se vivencia. Original portanto. Em Uma Chamada Perdida, alguns bons momentos de arrepio não valem os mais de 90 minutos de fita. Como se não bastasse, os últimos 20 são um disparate pegado, empobrecendo irremediavelmente o filme. Enfim, para Miike One Missed Call é praticamente one missed movie.

Um mundo a mil velocidades

Lendo isto facilmente se percebe que não vivemos num mundo a duas (como na expressão corrente) velocidades, nem a três ou a quatro ou a vinte. Só de marcha-atrás nem sei quantas existem. Verdadeiramente impressionante.

quarta-feira, outubro 19, 2005

Daciano da Costa - 1930-2005


Autor dos equipamentos e do design de interiores da Fund. Calouste Gulbenkian, da Biblioteca Nacional ou do CCB, Daciano da Costa foi um pioneiro do «design» industrial em Portugal e uma figura referêncial para várias gerações de designers.

Orçamento socialista?

Desde logo há um aspecto positivo neste orçamento que merece ser referido: não existem manigâncias contabilísticas. O facto de não haver, pelo menos à vista desarmada, sub-orçamentação ou receitas extraordinárias é de salientar. No entanto, no restante este orçamento é, no essencial, uma desilusão. Primeiro porque incide basicamente nas mesmas políticas dos governos anteriores do PSD para tentar resolver o défice, a saber: aumento de impostos – para além dos que já estavam em vigor, verifica-se um aumento nos pensionistas com mais rendimento - e congelamentos na função pública.
Por seu turno, a previsão de aumentar a receita através o combate à evasão fiscal é pouco ambiciosa e segue essencialmente a mesmas metodologias inauguradas por Ferreira Leite e Bagão Félix. Este governo não teve a coragem de levantar de vez o sigilo bancário.
À semelhança do que aconteceu nos governos laranjas, mantêm-se interesses intocáveis, como é o caso dos bancos que continuam a ser tributados a uma taxa mais baixa. Aliás, como demonstram as notícias de hoje, algumas destas instituições pautam-se por uma postura irrepreensível no que diz respeito ao branqueamento de capitais. Merecem, por isso, todos os benefícios! A tributação às grandes fortunas é para esconder. Se tivessem coragem poderiam ter retomado o projecto de Sá Fernandes do governo de Guterres.
Também como os governos anteriores, este faz fé no aumento das exportações. Mas quais são medidas com impacto de apoio à inovação e ao investimento tecnológico nas empresas. Onde está o plano tecnológico neste orçamento?
O investimento público não só regride, como se insiste teimosamente em grandes obras cuja relevância sócio-económica é bastante questionável. Também aqui este governo pouco difere da lógica desenvolvimentista inaugurada pelos governos laranjas, nomeadamente, pelo consulado de Cavaco.
Contas feitas, é de facto um orçamento muito pouco socialista. Não admira, por isso, a grande dificuldade demonstrada pelo PSD em critica-lo.

Onde se fala de Pavement, de Malkmus... e se batem dois records do mundo


Os Pavement são uma das minhas bandas preferidas. O seu mentor, Estêvão Amalga-mos (conhecido no resto do mundo por Stephen Malkmus) resolveu acabar com a banda aqui há uns tempos (razão maior pela qual está proibido de tocar no meu quintal) e lançou-se numa carreira a solo que conta já com três disquecozitozinhozecozitos (haverá por aí algum fiscal do Guinness para me registar como criador do maior diminutivo oficial para cd alguma vez conseguido?). São três álbuns bem conseguidos, aliás na linha do trabalho levado a cabo nas épocas transactas, mas ainda assim assevero-vos que gosto muito mais do primeiro do que do segundo. Não é portanto de estranhar a alegria que senti quando, já este ano, Face The Truth, o tal terceiro álbum, ou melhor, disquecozitozinhozecozitozeconhito (segundo record do mundo no mesmo post, notável!!!!!), começou a rodar na minha aparelhagem. Assim de repente voltei a acreditar em Steph (nome só p'ós amigos), e quando a sua guitarra eléctrica inventa riffs com a elasticidade da Nadia Comaneci sobre jogos de palavras esgalhados como tão bem só ele sabe, com o volume bem alto... aí... aí o alternative rock volta a ser alternativo, volta a ser rock, e a música de Malkmus muito mais que a mera soma dessas partes. Grande Stephen. Grande forma. Grande álbum.

O elogio da corporação

Professores anunciam greve. Trabalhadores da justiça (e juízes também) anunciam greve. Ora ensino e justiça são dois sectores que, de forma unanimemente reconhecida, funcionam mal (quando funcionam). Um olhar optimista sobre a situação leva-me a crer que se estas corporações se contorcem de forma histérica neste momento, então é porque se apontaram baterias aos alvos certos. Um olhar pessimista diz-me que sem elas, as corporações, dificilmente se reformará o sistema. Algures a meio, todos sabemos que há bons e maus professores, tal como haverá eventualmente bons e maus funcionários da justiça. Com os bons poder-se-á contar para a reforma. Os outros nem para reformados servem.

Cara de pau


Miguel Frasquilho discorreu hoje douta e abundantemente sobre o Orçamento de Estado apresentado ontem pelo governo de Sócrates. Ora Frasquilho foi o crânio por detrás do choque fiscal que levou Durão Barroso à vitória tangencial sobre Ferro Rodrigues. Como bem nos recordamos, esse plano de choque mudou algumas duzentas vezes só durante a campanha eleitoral, variando à medida que Barroso se afundava em mentiras e dizia o que lhe vinha à cabeça. Não passava pois de um embuste, como se viu, e quanto a Frasquilho, esse esteve no governo 3 ou 4 meses e desapareceu. Aparentemente não servia para nada. Mas ele aí está de novo.

terça-feira, outubro 18, 2005

Preencha o espaço em branco

Peseiro foi à vida. Ganha o Sporting.
Dias da Cunha fica. ______ o Sporting.

Uma história de violência e maus tratos

Dias da Cunha sente-se violentado por despedir peseiro. Peseiro diz que quase ganhou tudo mas as forças exteriores não deixaram. Mário de Andrade diz que foi caluniado e já não aguenta mais. Os três acham que a culpa é da comunicação social, e eu gostava de ser o Camilo para fazer já esta noite um melodrama com a história mais patética que vi recentemente no futebol português. Infelizmente não tenho esse talento, mas descansem os apreciadores de histórias bizarras, a coisa não acaba aqui. Dias da Cunha já disse que o próximo treinador do Sporting terá o perfil de Peseiro.

Afinal consegui ver

À terceira foi de vez. Hoje de manhã já havia bilhetes para a sessão das 11h que incluía o filme de Diana Adringa. Ontem estavam esgotados. Nunca percebi bem este fenómeno dos convites que vão e vêm, e transformam salas inicialmente esgotadíssimas em salas quase cheias ou quase vazias.

Bem, mas o que interessa é falar do documentário. É curto e simples, mas duma eficácia demolidora. Todos nós engolimos a treta do arrastão. Eu próprio, que estive lá nessa manhã com o meu filho, fiquei um pouco espantado com os acontecimentos que supostamente teriam decorrido depois da hora do almoço. Mas acreditei quando vi as notícias. De facto, nesse dia Carcavelos estava a abarrotar de jovens (brancos e pretos). Mais misturados aqui, mais separados acolá, o que é facto é que havia pouco espaço para divisões inter-raciais. Nessa manhã, a propósito desse colorido que coabitava na praia, lembro-me de pensar ingenuamente que Portugal estava a tornar-se numa sociedade cada vez mais multicultural. No regresso vim de comboio e o colorido expandia-se até à estação. Devo confessar que senti algum receio, sobretudo pela criança, devido à quantidade enorme de grupos que desaguava dos comboios. Mas não mais que isso.

O documentário entrevista o comandante da PSP de Lisboa. Parece-me um homem ponderado e, sobretudo, honesto na forma como respondeu às perguntas da jornalista. Assumiu claramente as suas responsabilidades e disse que tinha aprendido muito com o episódio. Mas referiu uma outra coisa que nos deve fazer pensar seriamente sobre os Media e, sobretudo, as televisões. Poucas horas depois, quando a polícia averiguou a fundo os factos, chegou à conclusão que não tinha ocorrido nenhum arrastão: o número de roubos era insignificante e só tinha sido apresentada uma queixa (ainda por cima sobre um roubo que teve lugar na estação e não na praia). Ora bem, segundo o comandante, os órgãos de comunicação social e os respectivos jornalistas não quiseram saber da verdade dos factos e preferiram continuar no seu autismo espalhando a histeria e o pânico. De facto, quando uma grande ilusão vende tudo o resto é considerado secundário, até a verdade. Ou melhor, sobretudo a verdade.

A deriva gaullista

Excelente o artigo de Vital Moreira hoje no Público sobre as expectativas em relação ao perfil constitucional de presidente da república evidenciadas por Rui Machete e pelo Inefável Morais Sarmento, dois destacados apoiantes de Cavaco. Se é certo que Cavaco nada diz sobre coisa nenhuma, ficamos a perceber o que quer quem o apoia para o próximo mandato presidencial: a supremacia de um abstracto «programa» presidencial sobre o programa do governo, este sim, sufragado nas urnas para dirigir o país. Se Machete ainda prevê uma revisão constitucional, o intrépido Morais Sarmento, na entrevista ao Diário Económico citada por Vital Moreira, chega a dizer:«o presidente deixa de estar às quintas-feiras a receber o primeiro-ministro para comentar a situação do país e passa a (...) receber o primeiro-ministro para julgar em que medida o governo está ou não a cumprir as directrizes [as do presidente, claro]. Enquanto estes pontos forem respeitados na livre decisão do governo, tudo bem. Quando qualquer destes pontos for tocado, o governo terminou nesse dia. Com ou sem maioria.». Como os políticos demagogos têm memória fraca, Sarmento, já se deve ter esquecido do que disse quando Sampaio «arbitrariamente» demitiu o governo de que ele fazia parte. Volta Eanes que esta gente já te perdoou.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Mais valia estar calado

O Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social declarou hoje estar chocado com os níveis de pobreza em Portugal. E qual é a resposta do governo: um orçamento que prevê o aumento do desemprego e a diminuição do poder de compra das famílias. De facto, a solidariedade social não é uma prioridade para Socrates, como era para Guterres. Em parte isto acontece porque o actual governo tem as mãos atadas e mais vazias (de dinheiro). Mas, pelo menos, deveria ter o bom senso de não fazer demagogia!

Não lenços mas lençóis

Co Adriaanse diz que eram do Benfica os adeptos que tinham lenços brancos nas mãos. É difícil de acreditar, diga-se, dado que vencer fora no Dragão por 2-0 não é resultado que se enjeite e portanto duvida-se que os benfiquistas se tenham desiludido com Koeman por isso. Já em Alvalade a história é bem capaz de ser outra. Se Peseiro recorresse ao mesmo argumento de Adriaanse até se acreditava nele. Pense-se friamente: mas que merda de treinador vem a Alvalade marcar apenas um golo? Nelo Vingada não mereceria lenços brancos - antes lençóis.

Arrastão nos bilhetes

Afinal ainda não é desta que consigo ver o documentário de Diana Adringa: estava esgotadíssimo. Aliás, como grande parte dos filmes mais requisitados. Parece que os portugueses estão a mudar, até já reservam bilhetes com semanas de antecedência!

domingo, outubro 16, 2005

Sessão ou não sessão

Afinal em Setembro não se iniciou nova sessão legislativa (a ser assim, quer dizer que os deputados gozarão dois períodos de férias na mesma sessão). Tendo em conta este entendimento, o Tribunal Constitucional deverá chumbar a proposta de realização de um referendo sobre o aborto. Mais uma vez a indecisão de Sampaio leva a uma nova embrulhada e ao adiamento para data indeterminada do referendo. Sampaio não quis ficar na história como o Presidente que ajudou a resolver a questão da legalização do aborto. Podia tê-lo feito no final do mandato, mas preferiu entrelaçar-se num jogo de datas e de artifícios constitucionais. Sampaio é mestre em criar imbróglios. E acaba sempre por se enlear em enredos complicados. Sugiro um cognome para os anais da história: “SAMPAIO O COMPLICADINHO”. A sua incapacidade em tomar decisões claras na altura certa tem contribuído, ao longo destes dez anos, para a degradação do sistema político-administrativo. Ao confirmar-se a decisão do TC, Sampaio prepara-se para lavar a mãos na hora da despedida e delegar, como parece querer faze-lo, para o próximo Presidente a responsabilidade de resolver o problema do aborto. Sampaio sai de cena e deixa como legado um magistério oco e demasiadamente cinzento, cairá, por isso, no esquecimento.

Mas ele é co... ele é comuni... ele é comu... ele é comunista!!!!!

O Papa Bento XVI não arranjou espaço na sua agenda para receber Inácio Lula da Silva, presidente do maior país católico do mundo.

Un gran partido

Mais do que a vitória, o Benfica arrancou uma grande exibição hoje à noite. Foi uma equipa coesa e carismática com uma confiança que nunca exibiu a época passada. Será mau presságio?

sexta-feira, outubro 14, 2005

Arrastão na tela


Começa amanhã o DocLisboa, vai durar a semana inteira. A programação é muito diversificada. O problema é mesmo decidir o que ver. No entanto, gostaria de destacar o documetário de Diana Adringa que nenhuma Televisão quis passar. "Era uma vez um arrastão" põe o dedo na ferida sobre a má consciência reinante neste estranho país. Finalmente vamos poder vê-lo num ecrã à sua altura. Pena ser a uma hora tão pouco conveniente.

Duelo à esquerda

Estas eleições Presidenciais constituirão o fogo cruzado de várias batalhas. A batalha entre esquerda e direita, a batalha entre o PS e o PS, e a batalha entre o PCP e o BE. Todas serão dramáticas e, até certo ponto, decisivas para a reconfiguração do espaço político. Mas será sobretudo à esquerda que esta eleição deixará marcas profundas. E, neste aspecto, a competição entre os dois partidos mais radicais pode ter consequências irreversíveis, nomeadamente, ao nível da liderança.
A malta do BE anda preocupada. O BE fundou-se tendo como ambição ocupar, por um lado, parte do espaço eleitoral do PCP que, gradualmente, ia perdendo eleitorado e, por outro, conquistar franjas do eleitorado descontente com o PS. Ora bem, nestas duas últimas eleições o PCP parece ter invertido a sua tendência regressiva e o PS conseguiu maioria absoluta nas legislativas. Apesar de ter crescido bastante o BE viu-se entalado e pressente que já não vai conseguir crescer como até aqui. Até agora a receita foi muito eficaz e passava principalmente pela mediatização e por marcar a agenda dos temas fracturantes da sociedade portuguesa. Na maior parte dos casos o PCP e, em certos casos, o PS foram a reboque de Louçã.
No entanto, sobretudo desde a chegada de Jerónimo Sousa, o PCP mudou a sua estratégia e entrou na guerra pelo protagonismo na agenda política. E até agora tem sido bem sucedido. O exemplo mais claro tem a ver precisamente com as Presidenciais. De repente assistimos ao BE ir a reboque do PCP. Ainda ontem enquanto Louçã anunciava a sua candidatura, já Jerónimo avançava nas ruas com cartazes, ao mesmo tempo que dava entrevistas a vários canais com pose presidencial. Ontem vimos o BE perder pontos nos tablóides. Coisa nunca vista! A batalha vai ser dura de parte a parte e nesta, ao contrário das outras, não se vislumbram vencedores antecipados. Bem pelo contrário.

quinta-feira, outubro 13, 2005

Cavaco em questão?

Tenho cá para mim que a direita - e alguns dos seus arautos - anda bastante equivocada sobre quem é e o que representa Cavaco Silva. Luciano Amaral fala (hoje no DN) de Cavaco Presidente como a última esperança para regenerar o sistema. Só ele poderá exercer uma pressão sobre o governo e demais instituições de forma a impulsionar uma autêntica “substituição de culturas” que rompa com este Estado Providência fortemente subsidiário. Mas não se lembrará Luciano que o criador deste modelo foi o próprio Cavaco durante os seus 10 anos de governo? Foi durante o consulado de Cavaco que se teceram todo o emaranhado de redes e de interesses clientelares que, desde então, se cristalizaram na sociedade portuguesa. O modelo do Estado centralizador, burocrático, empregador, assistencialista, que tanto escandaliza a direita, tem um Pai. Quererá a direita que Cavaco renegue perante todos os portugueses o seu legado como governante? Não vê Luciano que provavelmente a maioria dos cidadãos que votarão em Cavaco, têm a expectativa legítima do regresso a esses "anos de ouro". E, portanto, do regresso a muito mais do mesmo.

Closing time


Revi O Padrinho este fim de semana. A história da ascensão de Michael ao poder é-nos contada com sangue, muito sangue, ao longo de quase três horas. Cada minuto é tão inteiramente necessário quanto o anterior, um atrás do outro, até ao momento final: aquele em que uma porta se fecha na cara de Kay (e na nossa). Não é Michael sequer quem a fecha, antes alguém da família. Sem tiros, sem sangue, sem nada a não ser uma porta que se fecha, Coppola é mais violento do que nunca. E de repente, como se ainda fosse preciso, tudo faz ainda mais sentido. It's closing time.

quarta-feira, outubro 12, 2005

Metelo a comissário

Todos os governos têm os seus comissários políticos. O ‘cavaquismo’ teve Pacheco Pereira, o ‘guterrismo’ teve vários e o ‘santanismo’ teve o inigualável Luís Delgado. Para este governo diversas são as personagens que se habilitam ao cargo. Entre estes queria destacar Peres Metelo. Todos dias pelo início da manhã o economista-comentador, com a sua voz cândida que transparece imparcialidade, apresenta uma aula ecuménica na TSF. O seu tom professoral ajuda-nos a decifrar os enredos complexos da economia. E no final dos cinco minutos tudo parece tão simples e claro. Afinal desde Fevereiro o País ruma no sentido certo e nada desviará o governo dessa linha única e inevitável, independentemente dos irrelevantes “episódios das eleições autárquicas e presidenciais”. É o parecer objectivo do economista que assim o diz. Metelo está a transformar-se no pedagogo do povo e, nessa linha, é muito mais eficaz que a lógica arruaceira de Delgado ou do ar ‘intlectualoide’ de Pacheco. O povo gosta de Peres Metelo, porque ele é bonzinho, bem intencionado e até explica tudo muito bem explicadinho.

Glocalização

A Air Luxor resolveu mudar de nome. Agora chama-se Hi Fly. Segundo declarações ouvidas ontem a um responsável da empresa, as pessoas "não associavam Air Luxor imediatamente a Portugal". É compreensível, o que vale é que Hi Fly soa a barranquenho por todos os lados.

Nado morto

Verdade seja dita, nestas coisas do rock só vale uma morte: overdose (cirrose ou tiro na cabeça?, vá lá vá lá). O resto: acidente de viação, enfarte, o que quer que seja... desperdício. Em Portugal o rock ainda nem nasceu.

terça-feira, outubro 11, 2005

A dupla personalidade do CDS

Segundo Narana Coissoró nestas eleições existiram dois CDS: o da coligação e o solitário. O primeiro ganhou, o segundo não venceu.

As preocupações de Joana

Joana Amaral Dias está muito preocupada com o desaparecimento do CDS-PP. Nada que se compare com o peso autárquico do BE, que conseguiu uma percentagem retumbante de 2,95% dos votos e o número expressivo de 7 mandatos camarários a nível nacional. Já o CDS só consegue alcançar 3% e 31 mandatos, sem contarmos com os votos e mandatos em coligação. Assim, segundo Joana, o CDS não só se desvanece, como a comunicação social não está nada preocupada com isso. Em contrapartida, Joana parece não estar nada preocupada com o BE que, como os números demonstram, tem vindo a implantar-se fortemente no tecido autárquico.
Mas no fundo, no fundo porque é que Joana está tão preocupada com o CDS-PP? Estará com saudades de Paulo Portas? Na verdade, desde que o Paulinho saiu de cena o BE anda mais apagado. É preciso que regresse para espicaçar as hostes mediáticas e dar maior projecção a Louçã!

A sublimação

Manuel Maria Carrilho teve uma derrota de mão cheia no domingo. De que fala hoje Eduardo Prado Coelho na sua crónica diária no Público? ... de Sandokan.

O rescaldo nas ruas

Os dias de rescaldo eleitoral são sempre deprimentes. Sobretudo nas ruas das cidades onde os cartazes se vão descolando e rasgando. Nestes dias a chuva ainda tornou a coisa mais degradante. Os cartazes já eram suficientemente maus. Mas agora ter de levar com rosto ainda mais deformado de Carmona, o sorriso amarelo de Carrilho a cair aos bocados, ou a expressão pesada e ainda mais enrugada de Ruben. É demais! E isto repete-se em todos os concelhos do país. É um pesadelo só de pensar como estarão no Algarve as bochechas de Macário e o bigode de Apolinário. E no Porto os óculos embaciados de Assis e de Teixeira Lopes. E em Gondomar, Felgueiras, Amarante e Oeiras! Bem, nestes casos, acho que ficaríamos agoniados só de olhar para as figuras ainda mais viscosas dos candidatos sem partido.

Pelo sorriso de Bárbara

Enquanto Carrilho discursava, Bárbara sorria por trás dele. Pelo sorriso, daria para jurar que ela pensava que Maria tinha ganho.

O nó do problema

O nó do problema? Haver muito quem não veja a diferença entre candidato bandido e candidato a bandido. Ela existe, mas muitos não a vêem. Assim, este não é um problema de uns poucos, é um problema dos outros todos. Sem excepção.

segunda-feira, outubro 10, 2005

E já agora, porque não...

As autárquicas num minuto

VENCEDORES

Luís Marques Mendes e Jerónimo de Sousa são os grandes vencedores destas eleições. O primeiro infligiu uma séria derrota a Sócrates, o segundo recuperou várias câmaras importantes como a Marinha Grande ou o Barreiro e ganhou Peniche pela primeira vez. O Muro de Berlim pode continuar de pé na Soeiro Pereira Gomes, mas ninguém parece muito preocupado com isso.

DERROTADOS

José Sócrates sofreu uma derrota que pode ser circunstancial ou o início de uma derrocada que arrasta consigo o país. Assim saiba ele ler os resultados. É preciso firmeza e projecto mas o poder não é um aquário.

FIGURAS TRISTES

Avelino. O mundo inteiro já estava contra ele, agora, também Amarante. Parece que deus mudou de ideias à última hora.
Carrilho. Depois de verificada a vacuidade dos projectos, a arrogância e a falta de chá, Manuel Maria Carrilho conseguiu reforçar a legitimidade de todos os discursos contra os «pseudo-intelectuais». Simplesmente lamentável. O seu discurso na hora da derrota, acusando os eleitores de falta de capacidade para escolher o melhor, devia ser incluído nos manuais de ciência e marketing político como exemplo de capacidade nula para fazer política.
Oeiras. O concelho mais letrado do país e com melhor nível de vida escolheu um candidato a contas com a justiça que usou dos golpes mais baixos desta campanha. Queres saber o destino de um povo? Olha para as suas elites.

À esquerda ganhou a resistência

Ontem o PS caiu em si e percebeu que nunca houve nenhuma onda rosa. Saiu-lhe pela culatra a estratégia de concorrer sozinho nas maiores cidades. Para esta falta de tacto também contribuiu o modo como subavaliou o peso autárquico do PCP. Depois de nas últimas legislativas ter obtido um resultado estrondoso em Lisboa, o PS esvazia-se na capital e apenas consegue pouco mais que dobrar os votos da CDU. Os comunistas jogaram forte e feio nestas eleições. Na óptica de um partido que vem perdendo terreno eleição após eleição, a estratégia tinha de se pautar por uma demarcação dura em relação ao partido e ao governo socialista. E foi bem sucedida, não só porque ganhou fôlego, como conquistou um valioso espaço de manobra para próximas negociações eleitorais. Alguma vez alguém imaginaria que em 2005 o PCP fosse o partido com maior número de Câmaras na Área Metropolitana de Lisboa?

O peso efectivo e simbólico dos comunistas reforçou-se à custa da incapacidade do Bloco em se afirmar como um partido com chão. Aliás, não deixou de ser sintomático assistir-se ontem, no programa debate da nação, à competição desenfreada entre Fernando Rosas e Pires de Lima pelo quarto lugar. De facto, em termos autárquicos o CDS e o Bloco jogam noutra divisão. São partidos sem implantação e meramente parlamentares. Por isso, a sua visibilidade continuará a passar pelo mediatismo. E essa ainda é a arte de Louçã, pelo menos por enquanto. Tal como era a arte de Paulo Portas que, por sua vez, será uma sombra cada vez mais presente no percurso de Ribeiro e Castro.

domingo, outubro 09, 2005

Bingo!

Jorge Coelho e José Sócrates tiveram medo de apostar em Ferro Rodrigues para Lisboa, acobardando-se ante as investidas de Carrilho, acomodando-se a este último. No exercício eleitoral a que se submeteu antes de bater com a porta, as Europeias, Ferro conseguiu para o PS o seu mais expressivo resultado de sempre até à altura: 44.5%. Agora as projecções para Lisboa indicam um resultado eventualmente inferior a 30%. Todos sabemos que para arriscar é preciso ser-se audaz. Para o comodismo, no entanto, o mínimo que se pede é um pouco de sagacidade. Ora o que não se esperava de Coelho e de Sócrates era que conseguissem o pleno: nem audácia no risco nem sagacidade na ausência dele. Bingo!

Boas e más para Manuel Alegre

A boa: os independentes ganham.
A má: parece que é preciso ser "bandido".

[Cris Coelho]

O grande derrotado

Perdi com muita honra e frontalidade


João Soares acabou politicamente (finalmente!). E o paizinho lá deu mais um tirozinho no pé.

Chuva democrata-cristã

Ribeiro e Castro acha que é bom sinal estar um dia chuvoso.

Pluralismo doméstico

Mãe: em quem votaste?
Pai: acabei por votar no ********.
Filha [4 anos]: ó pai és tonto?
Pai: sou tonto? e tu em quem votavas se pudesses?
Filha: nos Dzert.
Pai: Hum???

Ronda Autárquica Ilustrada


Braga: membros de junta de freguesia em mesa eleitoral provocam protesto



Sesimbra: pescadores aproveitam eleições para protestar



Coimbra: erro de impressão atrasa abertura das urnas em Cernache



Governo Civil da Guarda alertado para casos de duplo recenseamento


Oeiras: candidatura de Isaltino Morais acusada de transportar eleitores às assembleias de voto



Sic transit...

Eu e o dr. Pulido Valente

Ler o dr. Pulido Valente deixa-me sempre bem disposto. Por estranho que pareça, diverte-me mesmo. À quinta-feira, lá estou eu ansioso pelas crónicas de fim-de-semana no Público. Fico triste quando o dr.Pulido Valente vai de férias. Fico sem referências. Não sei que fazer com a última página do jornal.
Um destes dias, o dr. Pulido Valente anunciava um cataclismo, uma nova guerra mundial. Uma coisa inevitável. Só quem não quer é que não vê. Que os sinais estão todos aí e tal. Pensei para com os meus botões que, se vier a acontecer o conflito pressagiado, Portugal não pode deixar de lembrar ao mundo que o dr. Pulido Valente já tinha avisado. Isto deixou-me mais contentinho, apesar de temer pela segurança dos meus filhos.
E a mudança de regime? O dr. Pulido Valente está farto de chamar a atenção para este facto inelutável: o regime está podre, irra! E tem toda a razão. Acontece que, por insuficiência intelectual (minha, claro), ainda não percebi bem que regime prefere o dr. Pulido Valente. Se calhar, ele faz de propósito: nunca explica tudo, que é para eu ir comprando o Público ao fim-de-semana.
O que eu já percebi é que o dr. Pulido Valente não tem um grande apreço por pessoas. E eu concordo com ele. As pessoas são incomodativas. Fazem barulho e têm ideias disparatadas. Não há pachorra para as pessoas. Se calhar, até era bom que houvesse uma revoluçãozinha para acabar com isso. Mudando o regime, talvez as pessoas mudassem. Ou, pelo menos, com uma guerra mundial talvez depois fizessem menos barulho. Seja como for, alguém devia fazer alguma coisa. É que, não sei se já repararam, mas isto assim é uma chatice.

sábado, outubro 08, 2005

Mau olhado


Não são nem a capacidade de Wes Craven para dirigir encomendas, nem a sua notoriedade na Hollywood dos dias que correm, que estão em causa. É tão somente a constatação de que uma e outra coisa são ainda assim manifestamente insuficientes para dar mais do que aquilo que este Red Eye dá. É que se ainda se aguenta bem no ar, mal o avião aterra o filme despenha-se. Digamos que o desequilíbrio entre a tripulação de vôo, que se desenrasca razoavelmente, e a tripulação de terra, que devia estar de greve, é por demais evidente. Quanto a Rachel McAdams, enfim, com um rostinho destes a gente perdoa-lhe tudo.

Um programa ideal para ficar em casa numa noite de reflexão


Um conto rohmeriano, hoje às 23:00h, n' a dois.

O programa ideal para não ficar em casa numa noite de reflexão

Hoje, dia de reflexão pré-eleitoral, ainda que muito mais para uns do que para outros, temos à noite um programinha televisivo que convida mesmo a sair e espairecer. Preferirá o leitor (presumindo eu, algo abusivamente, que temos leitores) ficar em casa a ver o Carlos Daniel considerar genial qualquer passe de Deco & Companhia falhado por menos de 50 metros, ou sair e... e... fazer qualquer coisa? Mas qualquer qualquer mesmo.

A angústia do voto

Nestes últimos anos mudei várias vezes de casa e de concelho. No entanto, nunca me deu para alterar o cartão de eleitor. Mantive sempre a residência dos meus pais. E em todas as eleições rumava à escola preparatória do meu bairro para depositar o voto. Apesar de já não viver no concelho, sentia-me bem em votar num sítio que me era familiar. Há um ano mudei para a freguesia de Algés, a duas ruas do concelho de Lisboa. Mais uma vez não senti qualquer necessidade em actualizar o cartão, até que me apercebi que o espaço do estacionamento estava a ser completamente conquistado por parquímetros. Quando já não podia esconder o carro em rua nenhuma que não tivesse sido esquartejada pelo parqueamento, não tive alternativa e reconsiderei. Por este motivo completamente utilitário passei a ser um eleitor de Oeiras.
Logo me calhou este maldito concelho! Para além de ser um dos bastiões da direita, esta encontra-se completamente dividida e polarizada. Tenho vivido as actuais eleições locais com muita estranheza. De um lado, vejo passar comitivas de luxo do candidato arguido, oiço aplausos, risos e muita alegria em torno dele. Do outro, tento procurar a esquerda mas não a vislumbro. O candidato do PS é uma nódoa e jamais poderá destronar Isaltino, e os outros são apagados porque, pura e simplesmente, não existem.
Chegado o dia de reflexão não sei em quem votar. Vivo a angústia do voto indeciso. Sei que a candidatura do PSD é a única que poderá retirar a vitória ao ex-presidente. Mas esta racionalidade não vence a minha incapacidade declarada de votar num partido de direita. Não sou capaz, só de pensar nessa possibilidade dá-me a volta ao estômago. Hoje tenho sentido uma saudade imensa da escola preparatória do meu bairro. Esta coisa de ter o voto circunscrito a uma divisão meramente administrativa é uma chatice. Porque raio a empresa que gere os parquímetros exige a actualização da morada do cartão de eleitor para poder ter um selo de residente? É um atentado à nossa liberdade de voto!

sexta-feira, outubro 07, 2005

E voltamos ao voto útil

Hoje é o dia das sondagens! Ao ler os vários resultados chega-se a quatro constatações mais ou menos claras:
1º) Os candidatos independentes-arguidos deverão ganhar.
2º) Nas grandes cidades (Lisboa, Porto e Sintra), nota-se uma aproximação do PS em relação às percentagens obtidas pelo PSD, no caso da capital, ou pela coligação de direita, no caso das outras duas Câmaras.
3º) Nestas autarquias a CDU e o BE parece que já asseguraram a eleição de um vereador.
4º) Apesar de correr um sério risco de não ganhar nenhuma destas Câmaras, a esquerda é largamente maioritária nas três.
O que nos leva à seguinte pergunta:
- Será que o PS ainda consegue ter força para convencer pontenciais eleitores de esquerda a votarem útil?
Dependerá certamente dos candidatos em causa. Mas o problema é que estes não ajudam muito.

A outra mão de deus

Limitar-se-á afinal George W. Bush a cumprir ordens? É certo que a Casa Branca já negou a notícia, mas o sucesso do documentário, Israel and the Arabs: Elusive Peace, que passa na BBC a 10, 17 e 24 deste mês, parece garantido.

Ele está aqui

É mais difícil decorar a letra da canção nova do Abrunhosa do que perceber que Ruben de Carvalho é de longe o melhor candidato na corrida à Câmara de Lisboa.

Isso é lá contigo ó Zezinha

M. José Nogueira Pinto, RTP1: "Tenho fama e proveito de não me enfeudar por ninguém"

A toupeira

Sá Fernandes, RTP1: "Quando eu tiver um pé na Câmara, os lisboetas saberão tudo o que lá se passa"

Depositar esperanças no defunto

Sá Fernandes não esteve particularmente feliz no debate a cinco que há pouco terminou. Depois de falar da taxa que pretende aplicar à entrada de veículos no centro de Lisboa, viu os outros candidatos demolirem a proposta sem esboçar a mínima reacção. Já no final, vindo do nada, resolveu interpelar Ruben de Carvalho sobre a sua disponibilidade para ser vereador caso o PSD vença as eleições. O candidato da CDU não se ficou, e recordou um episódio que é difícil de perceber. Em 2001, Sá Fernandes felicitou Santana Lopes pela vitória e disse-lhe que depositava grandes esperanças no seu mandato. Será que há quatro anos ainda não conhecia Santana suficientemente bem? É difícil acreditar nisto, eu sei, mas então como se explica tamanha ingenuidade? É que hoje voltou a ser notória, mormente até neste momento do debate. Para terminar o descarrilanço, uma alegação final de quinze segundos de cariz absolutamente populista pôs um ponto de exclamação numa noite para esquecer.
Pegando no dizer do cartaz, é mesmo preciso que Sá Fernandes goste muito de Lisboa. É que de outra forma não vai lá.

Short list

É estranho alguém de esquerda dizer isto, mas a verdade é que nestas autárquicas se joga claramente um combate pela seriedade, por uma forma minimamente aceitável de fazer política. Como munícipe de lisboa, para mim é claro, só há 3 candidatos:
José Sá Fernandes, Maria José Nogueira Pinto e Ruben de Carvalho. De burocratas medíocres e arrivistas estamos nós fartos.

Candidato sem amor próprio

«Gosto mais da cidade e dos lisboetas do que de mim próprio», declarou Carmona Rodrigues numa pequena entrevista que se seguiu ao debate da RTP. Esperemos que no próximo dia 9 esse amor não seja correspondido.

quinta-feira, outubro 06, 2005

Podes bater mas escusas de aleijar

José Sócrates conseguiu estabelecer uma imagem de coragem que não está isenta de ambiguidades. Temos o Sócrates suficientemente corajoso para implementar medidas impopulares e o Sócrates que nomeia o Vara para a CGD. Digamos que tem oscilado entre a bravura e a lata o que me faz temer que haja mais inconsciência do que firmeza no modo como se relaciona com a opinião pública. A forma como ontem desvalorizou a crispação popular é de uma ingenuidade a toda a prova. Segundo o nosso primeiro, a contestação até é baixa em Portugal sobretudo atendendo à situação. Por acaso é verdade, pelo menos se comparada com o que se passa por exemplo em França em que por muito menos se partem carros e se faz um estrilho desgraçado na rua. Mas Sócrates é o último a poder constatá-lo. Na sua boca estas coisas vão sempre soar a «Vá lá, rosnem, só conseguem fazer isso? Então essa energia? cambada de frouxos!», ou seja, provocação. Mas talvez os resultados das autárquicas mostrem ao primeiro-ministro que o pessoal ainda aguenta a porrada que tem levado, mas a coisa tem de ser com meiguice e sem bazófias.

Refli(c)ta e vote Isaltino

Segundo as sondagens para as autárquicas, deixou de haver esquerda em Oeiras (Isaltino, PSD e PP juntos ultrapassam os 75% de votantes). Esta situação não se deve somente à cadidatura de Isaltino, mas também à estratégia do PS que preferiu avançar com um candidato perdedor e ajudar o ex-militante do PSD. O cartaz é ilustrativo do calibre deste Emanuel. Mas o que é ainda mais espantoso, é o facto deste cartaz estar espalhado pelo concelho há mais de uma semana. Nem sequer houve o bom senso ou a dignidade de o retirar. Não há dúvida, em Oeiras Isaltino ganhará com a ajuda declarada do PS.

Para ver as autárquicas em fabulosos cartazes podem consultar este blog.

A metamorfose

Ontem de manhã Portugal acordou sem fogos activos.

Porto seguro?

No debate autárquico do Porto, esta noite, Rui Rio esteve ao nível a que nos tem habituado. Depois de ter acusado o PS das agressões de que foi alvo, agora carrega consigo uma pasta com "casos" supostamente muito graves que vai debitando a conta-gotas. Não só é revelador da sua falta de perfil para servir a causa pública, como é mais um sólido contributo para a conspurcação da imagem de autarcas e políticos em geral.
Assis marcou nitidamente pontos. A sua postura distingue-o claramente de Rio. O seu entendimento das funções de presidente de câmara, bem como da cidade, visando atribuir-lhe uma importância que reflicta a sua real dimensão, não só enquanto pólo fulcral de uma área metropolitana de tamanho razoável, mas também como representante de uma região, que no fundo é uma ambição perfeitamente legítima para a Imbicta, parece a Rui Rio algo estratosférico, de outra galáxia (termos empregues pelo próprio). É natural, a sua galáxia é mesmo outra, é a que defende um homem de vistas largas como Valentim Loureiro, cosmopolita cidadão do mundo, à frente da Junta Metropolitana do Porto.
Posto isto, findo o debate, a escolha até parece fácil. De um lado a paróquia dos ralis de calhambeques, do outro uma cidade aberta e virada para o mundo. Assim fosse igualmente simples a decisão em Lisboa.

quarta-feira, outubro 05, 2005

O rapaz do quadrado

Manuel Alegre gostaria de ser o rapaz do cubo mágico (lembram-se da canção dos anos 80?). Girar um cubo cheio de quadradinhos às cores, é esse o sonho de cidadania do deputado. Mas o seu quadrado jamais se poderá transformar num cubo multicolor. O poeta ainda não percebeu que alguns portugueses só se reconhecem no seu quadrado porque falhou a sua oportunidade e, por inabilidade, se sente traído. E os portugueses são por natureza sensíveis às vítimas de traição. Adoram ter pena e reconhecem-se nos homens honestos que dentro do seu quadrado resistem a todos os falhanços e infidelidades. Não sei porquê, mas parece que Alegre se aproxima perigosamente do estilo de um outro homem cujas costas se encheram de facadas durante o seu curto reinado como Primeiro-Ministro. E, tal como este, Alegre parece sugerir que é vítima do sistema. Cuidado camarada Alegre, arrisca-se a ultrapassar a fronteira que separa a política decente do populismo. E, se assim for, que fique dentro do seu quadrado e não saia de lá mais!

Quites



...losing my friends and my young dreams
that was vicious air spilled in my face out of love
and out of love


...são as linhas finais da primeira estrofe de Colder, a canção de abertura de House Tornado (1988, 4AD). Há quinze anos o sentido destas palavras era, para mim, uma miragem. Hoje é passado. Amanhã, embora a canção seja a mesma, não sei. Quanto a Kristin Hersh, nem preciso que me dê mais nada, estamos quites

Reclamação

Quantas vezes será preciso pedir à TV Cabo aquela caixinha mágica que dá para ver 4 canais ao mesmo tempo? A resposta é simples: muitas. Mais exacto ainda: muitíssimas. E assim, por falta de capacidade de resposta da empresa, a quem já peço o dito aparelho vai para mais de 45 minutos, lá terei de passar mais uma noite eleitoral a mudar de canal freneticamente para não perder pitada do que se passa. Meus caros, é certinho, contem com um processo em cima por danos infligidos ao meu bem estar.

terça-feira, outubro 04, 2005

Gondomar is waiting for you

Marques Mendes continua a insistir para que Sócrates vá a Felgueiras.

Um dia cinzento

Hoje Manuel Maria Carrilho não prometeu 500 novas empresas criativas em Lisboa.

Uma Janis menos janada

Segundo o jornal Público, o Joplin Estate, organização detentora dos direitos musicais do legado de Janis Joplin, vai organizar um concurso para escolher a nova Janis. Depois de novas versões dos Beatles (cortesia dos Oásis) ou dos Kinks (com os Blur) e de uma série de outras bandas que fazem o melómano com mais de 30 anos pensar «onde é que eu já ouvi isto», a indústria continua em contracção suicidária. Ou nomes seguros (nem que estejam mortos) ou carinhas larocas. Neste caso talvez se faça o pleno. Pode ser que para o ano já se procure a nova Joss Stone.
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