domingo, abril 30, 2006

Conexões revolucionárias

A ligação entre o 25 de Abril e o 1.º de Maio parece-nos hoje uma coisa natural. Na altura, porém, foi apenas mais um episódio na catadupa de acontecimentos sequentes ao inesperado envolvimento popular no golpe militar, à revelia dos vários avisos do movimento insurgente para que a população se mantivesse nas suas casas e contra toda a prudência racional. A ligação é, então, uma consequência da revolução popular, i.e., da capacidade que distintos movimentos populares tiveram de forçar o evoluir dos acontecimentos num certo sentido. Daí adveio a célebre frase das «conquistas de Abril», que condensa todo um Portugal social e político apenas esboçado no Programa do Movimento dos Capitães. Aqui ficam alguns exemplos destas conexões revolucionárias, na véspera do 1.º de Maio. (autocolantes da colecção de DM, respectivamente de 1977 e 1999)

Coabitação à portuguesa (2)


(c) desenho de GoRRo

Cartas de Paris (I)

Contra CPE profundo
A evolução das pichações nas paredes da estação Raspail me convenceram de que os estudantes parisienses ainda têm algo a dizer para além dos próprios interesses. Primeiras semanas: contra o CPE, pela retirada imediata do CPE, fora Villepin. Semanas mais tarde: abaixo o capitalismo, greve geral. Uma semana antes da retirada do CPE: chutem a polícia, o trabalho acaba com a líbido, abaixo o trabalho! É lamentável a flexibilidade e a falta de determinação de políticos franceses como Villepin e Chirac (o Reformador da Reforma). Alguém sabe o que foi feito do Le Pen?
Eduardo Caetano da Silva

Benefícios do crescimento económico

Os peitos das chinesas estão a aumentar de tamanho.
notícia do Público de hoje.

Muda o presidente, arrebenta a bolha

Que será feito do relatório do gato constipado?

zapping

Em pleno zapping, surpreendo o Mico da Câmara Pereira dentro de uma jaula repleta de leões. Ainda há esperança neste país.

Como se faz um filme realista

O padre é jeitoso e tem uns sonhos concupiscentes. As raparigas são boas raparigas, carnudas e opulentas. Os marginais da Avenida de Ceuta guiam grandes carros e têm canhões de fazer inveja ao Irão, sinal evidente de consenso social. Há três «bichas», tão afectadas quanto possível e crucifixos a rodos para cheirar a heresia. Pelo meio, há umas velhas que descobrem uma FHM no armário do jovem Amaro. Conveniente quanto baste. Tudo certo para um Blockbuster à portuguesa. Só não tinha percebido, pela promoção feita na altura em que o filme saiu, que O Crime do Padre Amaro era uma comédia.

sábado, abril 29, 2006

Victor Palla, todo o mundo (1922-2006)

Outra vez te revejo,
cidade da minha infância pavorosamente perdida…
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…
Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo.

Álvaro de Campos, "Lisbon Revisited" (1926)
(excerto de poema de Fernando Pessoa, na abertura do álbum fotográfico de 1959, aqui numa digitalização da BGA-FCG)


Pela Lisboa conformada ao viver «habitualmente», na ressaca pró-democratização do pós-guerra, resolvem deambular 2 arquitectos, Victor Palla e Costa Martins, à procura das suas gentes e dos seus espaços. Dessa errância de anos nascerá exposição fotográfica (1958) e o álbum “Lisboa, cidade triste e alegre” (1959), trabalho arrojado e na vanguarda do que então se fazia (tanto em fotografia como no design de catálogos), mas mal-amado, e depressa esquecido. O milieu cultural vivia fixado na pintura e no romance, e o mundo estava de costas voltadas para este país bisonho e ditatorial.

Recentemente, esta obra foi reabilitada e colocada no lugar devido, internacionalmente (vd. Parr & Badger, The photobook: a history, Londres, Phaidon, 2004) e no próprio país: exposição «Lisboa e Tejo e tudo», em 1982 (na novel Galeria Ether), de Palla, em 1992 (no CAM-FCG), e Prémio Nacional de Fotografia (MC) para Palla em 1999. Em 2005, o CAM-FCG realizou 1 curso sobre a obra fotográfica de Palla, que ficou registado neste obrigatório blogue específico.
Entretanto, Palla prosseguiu na arquitectura, executando encomendas dos 1.ºs snack-bars de Portugal continental (p. ex. o Noite e Dia e o Galeto), este último ainda um ex-libris lisboeta. Era a reactualização, agora convocando a estética da cultura de massas norte-americana do pós-guerra.
Costa Martins faleceu em 1996, agora foi a vez de Victor Palla. Fica-nos a sua obra intemporal e o seu olhar próximo.
Adenda: Palla pode ser visto na mostra «Em Foco - Fotógrafos Portugueses do Pós-guerra (colecção da Fundação PLMJ)», no Museu da Cidade de Lisboa (ao Cp. Grande), até 28/5. Recomendo vivamente uma saltada à exposição (os catálogos tb. são tentadores).
(a foto do Galeto é do Arq.º Fot.º da CML, outra doc. de Palla aí existente pode ser pesquisada em linha).

O fado em todo o seu esplendor

O memorável concerto que Camané deu no S. Luiz em 2004 vai ser transmitido pela RTP2 esta noite, às 0h45.
Quem não pôde assistir tem agora possibilidade de acompanhar 22 temas do seu já vasto repertório, indo dos fados clássicos às suas composições com José Mário Branco e outros.
Estará acompanhado por José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola) e Carlos Bica (contrabaixo).
Agora só falta teledifundirem um dos concertos que Camané deu no Jardim de Inverno do S. Luiz nessa mesma altura, onde cantou de modo impressivo músicos lusófonos sem ligação ao fado, tendo surpreendido tudo e todos, especialmente nas interpretações de canções dos Xutos & Pontatés e dos Toranja.

Glicínia Quartim, a experiencialista (1924-2006)

A RTP2 acabou há um pouco de repôr o excelente documentário «Conversas com Glicínia», de Jorge Silva Melo, interrompendo a programação prevista e com um rodapé com as datas extremas do título deste post. Suponho que tenha falecido, embora não tenha conseguido confirmar nos sítios informativos.
Fica-nos um documentário que nos devolve a voz da biografada, filha do anarquista Pinto Quartim. E o seu corpo, aquela combinação de cores fortes, o lilás, o verde e o azul, as expressões, a forma de falar, a forma de estar, o envolvimento expressivo na descrição humorada, por fim, a gargalhada livre e espontânea.
Tudo isso Glicínia Quartim fui gradualmente dominando e moldando à sua interpretação, ela que via o teatro como uma série de experiências, marca que lhe ficou da sua formação em Biologia.
Fica no ouvido aquela forma de dizer o idioma, cuidada, culta, com vagar.
Fica-me na memória a última peça onde entrou, «Terrorismo», dos Irmãos Presniakov, encenada por Jorge Silva Melo para os Artistas Unidos no Teatro Taborda. O seu à-vontade, a sua graciosidade, uns 80 anos de invejar, numa memorável peça mordaz.
Vale a pena seguir o seu percurso singular e independente na biografia que acompanhava essa peça.
O teatro português merece que lhe demos mais atenção, tão esquecido tem sido por nós, já é hora de pôr de lado o preconceito injustificado de que em Inglaterra é que é, quando quem lá vai é para fazer comprar, ver exposições e ir a concertos. Por mim, saturei de tanta repetitiva imagem em movimento, é preciso ver pessoas de carne e osso à nossa frente a convocarem a praça pública nos nossos quotidianos para voltar a sentir de nova a magia de estar vivo, da memória, do trabalho da linguagem, da ideia e da interpelação. É todo um mundo que se abre diante dos nossos olhos...

O caso Bénard

Esta história da substituição de Bénard da Costa na direcção da Cinemateca revela dois aspectos particularmente significativos do estado acrítico a que chegou a vida cultural portuguesa: um é o da relação que certas pessoas têm com as instituições que servem. Bénard pensa que é insubstituível e que, em certa medida, a Cinemateca lhe pertence. A seguir a ele há-de vir um burocrata que destruirá o seu fantástico trabalho, porque não lhe passa pela cabeça que há em Portugal gente que, com menos trinta anos que ele, percebe tanto de cinema como ele, ainda que tenha uma visão diferente da dele. O outro aspecto, prende-se com a forma como as relações culturais se produzem, numa base excessivamente afectiva e emocional típica de um meio demasiado pequeno. Estou certo que muitos dos que assinaram a petição para a recondução de Bénard da Costa o fizeram porque pensaram que não o fazer seria encarado como uma traição. Se o governo se prepara para emendar a mão perante a pressão organizada comete um erro e dá um grande contributo para manter esta mentalidade pequenina e medíocre.

Madrid

Querem uma cidade onde apetece viver? não precisam de ir longe. Madrid. Gente profissional, que gosta de divertir-se e consumir, e uma cidade alegre e tolerante onde é possível ver um casal idoso de homossexuais passeando de mãos dadas na rua sem qualquer alarido. Os espanhóis são civilizados, têm dinheiro, tratam-se bem e tratam bem os outros e isto é um circulo vicioso. Um dos melhores, acrescento. Se forem para aquelas bandas nos próximos tempos ainda podem ver uma grande exposição dedicada às vanguardas russas do princípio do século. Ahh, já me esquecia, os pimentos padron e o polvo à galega também são imperdíveis.

Tolerância sanitária

Chegado ao Hotel em Madrid, peço um quarto para fumador. A recepcionista diz-me:«senhor, não há quartos para fumadores, em Espanha não se pode fumar em lado nenhum, mas não se preocupe.» Subo para o quarto e, dez minutos depois, alguém bate à porta. Era a recepcionista com um cinzeiro. A lei espanhola é aparentemente muito proibitiva mas pouco ou nada vem mudar porque coloca nas mãos da maioria dos estabelecimentos a escolha da proibição. Resultado, não há café, bar ou restaurante que não tenha um papel na entrada a dizer que ali se pode ou não fumar, sendo que a maioria é liberal. Eu cá gosto, só entra quem quer e ninguém é excluído.

Aleluia


E eis que ao quinto ano surgiu A Pergunta:
- Pai, porque é que eu ainda não fui ao McDonald's?

sexta-feira, abril 28, 2006

Ministra da Cultura contestada

Dos elementos da comitiva ministerial que hoje acompanhou José Sócrates a Trás-os-Montes, foi Isabel Pires de Lima a mais «mimoseada» pelas reivindicativas gentes transmontanas. Em Alfândega da Fé, uma multidão estimada em mais de 8 pessoas exigiu à Ministra um ciclo de Richard Fleischer no concelho. Muitos dos presentes diziam-se esquecidos pelo seu próprio país, quem sabe com alguma razão, fazendo notar a Sócrates que a última vez que quiseram ver por exemplo Conan, o Destruidor ou Red Sonja, ambos com o governador da Califórnia brilhando a grande altura, tiveram de se deslocar a Espanha, à aldeia de Moral de Sayago, onde há ciclos de Fleischer todos os meses desde 1985, e onde Brigitte Nielsen (na foto como Red Sonja) se banha nas águas do chafariz local todas as noites. A Ministra tem de perceber que não é incolumemente que se brinca com o amor de um povo ao cinema.

Ciclo interrompido

Estamos em condição privilegiada para garantir em primeira mão que um grupo de cidadãos se prepara para lançar, a nível mundial, uma petição exigindo que o Dr. Costa Alves se mantenha no Instituto Português de Meteorologia e Geofísica eternamente. Correm rumores, ao que parece fundamentados por estudos científicos desenvolvidos pelo próprio, de que só ele pode garantir a continuação do ciclo da água. Uma eventual ruptura poderia ser, garantem-nos fontes próximas do Dr., catastrófica para o planeta. Interroguemo-nos pois: e depois dele, a seca?

Só os que apanharmos, ok?

quinta-feira, abril 27, 2006

Tiranossauro Bénardex, o insubstituível

Há algum tempo que não se ouvia falar dele, eis que volta em grande estilo, no género «Insubstituível», muito apreciado cá no burgo e com excelente tradição nacional, diga-se de passagem.
Não bastavam as tiradas insolentes para com a ministra da Cultura ("a três meses de ser abatido ao activo, em tempo que a faca e o queijo se juntaram em boas mãos") e o delírio megalomano-autista da sua insubstituibilidade à frente da Cinemateca Portuguesa (exigindo uma 2.ª licença especial para além da data-limite de 70 anos para aposentação no funcionalismo público e ao não acreditar "que haja nunca um ciclo Fleischer, porque o único que o podia organizar— modéstia à parte, ou não desfazendo, como preferirem— está a três meses de ser abatido..."), agora montou-se uma pseudo-petição, corporativa e amiguista até ao tutano, descaradamente conservadora, onde o que abunda é tudo menos gente comum e desinteressada.
Este caso já foi denunciado por vozes independentes que ainda persistem (Eduardo Pitta, João Gonçalves, A. M. Seabra e João Paulo Sousa) neste meio cultural medieval.
Tudo isto relembra a mordomia ancien régime dos cargos vitalícios, qual eufemismo da sinecura. Com a agravante de, por cá, só terem findado em 1969. Pelos vistos, agora regressámos ao pré-marcelismo. Para quem duvide, então aqui vai: "as circunstâncias têm demonstrado que a nomeação vitalícia nas chefias superiores não parece apropriada a lugares que inevitàvelmente «exigirão um esforço constante de actualização e de imaginação criadora» e são incompatíveis «com a acomodação burocrática que as leis naturais por vezes imprimem a quem lida na função pública»" (cit. preâmbulo do decreto-lei 49458, de 24/XII/1969).
Em suma, «o insubstituível» quer abeirar-se, a todo o transe, doutro bonzo das cliques culturais, o inefável dr. Júlio Dantas, que mumificou como inspector das Bibliotecas e Arquivos até ao cair do pano. E o que é melhor é que tem cortejo de desagravo, formatado por aqueles mesmos que criticam os lobbies da política e outros horrores afins. Viva a corte e a gerontocracia! Vira o disco e siga a dança...
Adenda: e não há por aí nenhum Almada, com cartuchos disponíveis, que vise os budas de serviço? Lá que faz falta...

A cultura em movimento


A anterior rememoração poética do Renato levou-nos da descoberta da partilha duma experiência enquanto crianças (as sessões de pintura nos aniversários do 25 de Abril, eu, numa vila do interior beirão, ele, na cintura industrial) à constatação de que, à medida que se esbatia o nível comunitário da festa, da estética e da criatividade partilhada, se reforçava outra tendência, a da institucionalização das comemorações e da festa. Porém, este processo não ocorreu só por via parlamentar, espalhou-se aos municípios e às associações voluntárias. Daí que alardear que o 25 de Abril de hoje já nada diz à sociedade não corresponde à realidade desse Portugal disseminado dos municípios e das ong's. Quem insiste nessa tecla ou é por ignorância ou visa desvalorizar uma data que deveria ser consensual. Afinal de contas, celebra-se a Liberdade, as liberdades fundamentais. Esta reserva mental é mais um afloramento do pior da política lusa, a guerrilha partidária e a táctica da terra queimada. Aqui ficam, então, mais uns autocolantes, alusivos a programações recentes dos municípios da Guarda e Guimarães. Servem para ilustrar que a via da divulgação cultural e do convívio é uma das que mais sentido dá a um modelo inclusivo de comemoração oficial/ institucional.
(para ver as respectivas programações é favor clicar nas imagens)














Zézinho das Socas e o grande choque tolológico (9-10)


Episódios 9-10 (compacto): formigal & socas medical para su bien estar

(c) desenho de GoRRo; direitos reservados para FpaV, 2006

Ser solidário

Para mim a solidariedade é um valor fundamental. Ser solidário assim, para além de tudo, é algo inato. É-me intrínseco. Está-me no corpo, por exemplo nos refegos do abdómen (que por muito inestéticos que sejam sempre são isolante para o inverno - e os produtores nacionais precisam de quem dê vazão ao produto), ou nas pregas do cachaço. Enfim, está, sou.
Bom, de tal maneira o é que me custou ver os deputados da nação serem maltratados e achincalhados só porque não apareceram a uma votaçãozinha a uma quarta-feira. Tratam-se apenas de umas escassas 230 almas e, de repente, outros 10 milhões delas atiram-se a eles de forma implacável e assaz violenta. A desproporção de forças, o desequilíbrio numérico toca-me logo o coração, ou a parte lá de onde brota a solidariedade. E não consigo deixar de sentir pena deles ora pois. E mais até acho, tanto que digo mesmo que somos um povo de gente ingrata e que o nosso sentido de justiça o guardamos todo para o dia do ano em que normalmente o FCP se sagra campeão de futebol. Reparem, na boca das gentes «os homens são uma corja que só ganha jogos à conta de roubos de igreja o ano todo», mas no dia em que garantem o caneco lá para a Galiza é sempre com inteira justiça - tão automático e certinho como isto, «a Izidoro nunca chegou aos pés da alheira de Mirandela». E remato agora com a razão da injustiça para com as deputadas almas, que é tão somente esta: então os homens andam lá o ano todo e o que quer que façam é invariavelmente apodado de merda para baixo - pois no dia em que resolvem de facto fazer algo pela nação, faltam ao trabalho, e cai-lhes o carmo e como se não bastasse ainda mais a trindade toda em cima? É injusto caraças. Decidamo-nos, ou o que fazem é bom e então é bom que não faltem e façam muito, ou o que fazem é mau e então quanto mais faltarem melhor. Clarinho, não?

O 25 de Abril explicado pelas criancinhas

Um dos meus vizinhos do 4º andar tem para aí uns 5 anos ou coisa que o valha. Hoje (ou ontem, que já passa da meia-noite), ao descermos no elevador, vira-se para mim e pergunta «Ó senhor, o 25 de Abril é mesmo importante não é?». «Sim, é. É uma dat...», «Pois eu sabia, o Manuel Alegre até foi ao parlamento e tudo não é?». «Pois...».

Ninguém explica pá, ninguém explica!!!

Sr. Koeman, Sr. Bento, está difícil de fazer perceber a essas rapaziadas que não dá para saltar do 1º para o 3º não está? Esses moços têm de entender que é assim mais ou menos matematicamente impossível ordenar-se um ranking de equipas de 1 a 18 sem haver 2º. OK?
Já agora acrescentar também à explicação aí à «moçada» que dada a inevitabilidade de ter que haver um 2º lugar, então ele é mais atraente que o 3º. OK? Epá «prontos» e assim, OK?

quarta-feira, abril 26, 2006

Revisitação de Lopes-Graça

No contexto do centenário do nascimento de Lopes-Graça iniciou-se hoje o Congresso Internacional «O Artista como Intelectual. No Centenário de Fernando Lopes-Graça», a decorrer na Univ. Coimbra até 29 (aud.º da Reitoria).
Têm rareado as iniciativas específicas, as boas intenções do MC e doutras instituições estão com o costumeiro atraso nacional (se não foram já sorrateiramente esquecidas na gaveta...). Sobra a rotineira mostra biobliográfica do mini-mostruário de corredor da sala de referência da BN (vd. apanhado crítico prévio aqui).
O homem e o intelectual merecem este encontro. Lopes-Graça faz parte duma curta galeria de grandes promotores culturais abrangentes do século XX português, daqueles que não se limitaram à sua estrita oficina, ao lado de figuras como Emílio Costa, António Ferreira de Macedo, José Pinto Loureiro, Raul Esteves dos Santos, Bento de Jesus Caraça, Jaime Cortesão, Raul Proença, António Sérgio, Branquinho da Fonseca, Agostinho da Silva, Vítor de Sá e poucos mais.
E, porque foi um marxista assumido, nada como remeter para um lusófono centro de Estudos Gramscianos. A ler tb. o retrato biográfico por Leonor Lains. Então, boas reflexões.

O dia de todos os oportunistas (politicirco 7)

Agora que a montanha pariu um rato e o megaprocesso «Apito Dourado» foi pelo cano da pia abaixo, nada melhor que relembrar um outro episódio recente da política à portuguesa, tudo isto agradavelmente adequado ao calendário presente. Que nem uma brisa lusitana...

(c) desenho de GoRRo

A cegueira é uma porra danada

"...uns por matos e outros por serras se acabaram de espalhar. E Manuel de Sousa, ainda que estava maltratado do miolo, não lhe esquecia que sua mulher e filhos passavam de comer. E sendo manco de uma ferida que os cafres lhe deram numa perna, assim maltratado se foi ao mato buscar frutas para lhe dar de comer; quando tornou , achou D. Leonor muito fraca, assim de fome como de chorar, que depois que os cafres a despiram nunca mais dali se ergueu nem deixou de chorar; e achou um dos meninos mortos , e por sua mão o enterrou na areia. Ao outro dia tornou Manuel de Sousa ao mato a buscar alguma fruta, e quando tornou achou D. Leonor falecida, e o outro menino, e sobre ela estavam chorando cinco escravas com grandíssimos gritos. Dizem que ele não fez mais, quando a viu falecida, que apartar as escravas dali e assentar-se perto dela, com o rosto posto sobre uma mão, por espaço de meia hora, sem chorar nem dizer coisa alguma. E acabando este espaço, se ergueu e começou a fazer uma cova na areia com a ajuda das escravas, e sempre sem falar palavra a enterrou, e o filho com ela, e acabado isto tornou a tomar o caminho que fazia quando ia buscar as frutas, sem dizer nada às escravas, e se meteu pelo mato e nunca mais o viram." in «A Tragico-Marítima», relatos reunidos por Bernardo Gomes de Brito

...mas em Crónicas Da Terra Ardente, porventura o mais perfeito disco da música popular portuguesa (e já agora façam-me um favor, mostrem-me lá qualquer coisinha feita por outro gajo qualquer, de onde quer que seja, superior a isto), Fausto dedica dois capítulos inteiros a Sepúlveda. Num deles, intitulado exactamente Manuel de Sousa Sepúlveda, debruça o olhar sobre o episódio acima descrito. No seguinte, Travessia II, vai mais longe e basicamente escava-nos a alma até não restar nada. Há quem veja nisto apenas História (???)... (a cegueira é uma porra danada...)

Coabitação à portuguesa (1)


(c) desenho de GoRRo

Carta aberta aos agentes políticos e administrativos do Estado português, a propósito do caso dos recibos verdes

Foi largamente comentado na semana passada o facto do vereador Carrilho ter comprometido a passagem para o quadro da CML de 1600 trabalhadores a recibo verde, ao faltar a uma votação crucial, possibilitando que Carmona Rodrigues usasse o voto de qualidade para bloquear a proposta em causa. Fizeram bem ambos, embora por razões travessas. Passo a explicar.
A exemplo do que sucede por todo o Portugal estatal, a maioria das pessoas que estão a recibo verde na CML nela ingressaram pelo sistema da «cunha», por intermédio de familiares, amigos ou clientelismo partidário. Sobre isto não vale a pena discorrer mais, tão evidente que é. Resta só dizer que com este sistema prejudica-se todos os outros que aguardariam por uma oportunidade justa, ou seja, por ingressos através de concurso correcto e transparente.
Agora, os responsáveis autárquicos de Lx. preparavam-se para reincidir no erro, mandando novamente para as urtigas a via dos concursos.
A única solução para este e outros imbróglios do género é estabelecerem-se concursos justos e transparentes, nos quais os critérios de avaliação não estejam tb. eles enviesados (do estilo, exigirem experiência profissional nos concursos externos colocando automaticamente os de recibo verde na dianteira, não se contabilizar o curso de mestrado como experiência profissional, ao contrário do aplicado a meras pós-graduações e cursos rápidos, e outras manigâncias afins), apesar de sabermos que até isso escasseia no nosso país.
Ainda assim, a má aplicação dos concursos não invalida que esta seja a via certa. As integrações sem concurso e 'à molhada' que têm vindo a ser seguidas são incorrectas para com os restantes cidadãos e, portanto, lesivas do interesse público.
Resumindo, ao Estado deveria ser vedado abusar da figura do recibo verde e a gestão de recursos humanos deveria visar primordialmente a contenção orçamental e a renovação gradual dos quadros, restringindo ao máximo as situações de despesismo: jornadas contínuas, horas extraordinárias aos sábados [vd. DN de 20/4, p. 37], a combinação das 2 anteriores!, etc.) e a eliminação de mordomias escandalosas: cartões de crédito, motoristas para responsáveis até chefes de serviço!, telemóveis, etc., etc.. Na CML chegou a haver telefones fixos pagos a funcionários!!
Aos trabalhadores que estão incorrectamente a recibo verde deveria tb. ser dada a oportunidade de concorreram a concursos públicos o mais rapidamente possível.
Como é possível que os responsáveis políticos não se apercebam destas coisas elementares e não cortem cerce? Trata-se da salvaguarda do elementar e consensual direito constitucional da igualdade de oportunidades no emprego. Do que esperam para o fazer cumprir?

terça-feira, abril 25, 2006

Um outro 25 de Abril

E este, quem o conhecia?
Edição da Comissão Organizadora das Comemorações do 25 de Abril na República Popular de Angola, com o apoio do MPLA- Partido do Trabalho, 1979
(colecção particular de DM)

E porque ainda é dia 25

Autocolantes de 1988, 1994 e 1999, respectivamente (da colecção particular de DM, com um agradecimento especial à Ana Melo, pela digitalização). O de 1999 tem a marca do Júlio Pomar.

Entre hoje e amanhã

Somos quantos? Uns e outros
construímos signos nos ventos
As nossas casas comunicam ao nível dos alicerces
A imaginação tem raízes nas mãos
A alegria que por vezes nasce como uma lufada
conhece todas as ranhuras do muro
Os nossos sonhos brilham nas valetas


(António Ramos Rosa)
fonte do autocolante russo: Papo-Seco

A gente está na rua

E o telefone toca, toca, toca... Juntámos as vozes na mesma alegria. [...] De reprente, estremeço, aterrado. Mas isto de transformar o mundo só com vivos não será difícil? Saio de casa. E uma rapariga que não conheço, que nunca vi na vida, agarra-se a mim aos beijos. Revolução. (JGF)

Um dia intacto

Abro a janela e apetece-me berrar: acabou-se! acabou-se finalmente este tenebroso e ridículo regime de sinistros Conselheiros Acácios de fumo que nos sufocou durante anos e anos de mordaças. Acabou-se. Vai recomeçar tudo. (JGF)

Manhã límpida e inteira

Sinto os olhos a desfazerem-se em lágrimas. Ainda assisti, ainda assisti à morte deste maldito meio século de opressão imbecil. Ao mesmo tempo nunca vivi horas mais aborrecidas de espera, de frigorífico, ao som de baladas medíocres, sem lances dramáticos. E não serão assim sempre as verdadeiras revoluções?...interrogo-me. Em silêncio. Sem teatro por fora. Em segredo. Com pantufas. (José Gomes Ferreira, Poeta militante III, 2.ª ed., Moraes, p. 265; fontes iconográficas: UA, excepto o 2.º, de Papo-Seco)

Putos de Abril


As primeiras memórias que tenho do dia 25 de Abril são cheias de cor. Recordo o colorido desses dias sempre solarengos. Pequenos pontinhos vermelhos brotavam por todos os poros do bairro. Pendiam dos vasos que enchiam as varandas e as marquises. Irrompiam das minúsculas hortinhas que polvilhavam as inúmeras ilhas de terra que iam resistindo à construção. Erguiam-se em cada lapela como se fossem troféus. Logo de manhã recebíamos o cravo entre os muitos que se distribuíam na rua e cuidávamos dele até ao fim do dia. Lutávamos por ele, caso quisessem tirá-lo ou se caísse no chão com a confusão das tropelias. Nesse dia aconteciam muitos eventos organizados pela Junta de Freguesia ou pelas associações de moradores. Os torneios desportivos abriam a manhã e à tarde, em cima de palcos mais ou menos improvisados, ouvia-se cantar os sons da recente liberdade.

Lembro-me sobretudo das tintas que usávamos para pintar, até à exaustão, cravos em canos de espingardas. Era uma promiscuidade de cores que se misturavam em cima de pranchas enormes assentes em cavaletes de madeira. Pintávamos tudo! Borrávamo-nos uns aos outros na troca das cores. Digladiávamos tonalidades entre o perímetro das várias folhas, fazendo com que os desenhos se prolongassem e não respeitassem as margens do papel. Através desta luta acabávamos por construir um puzzle que se reconstruía à medida que os desenhos eram retirados e substituídos por novas folhas em branco. E quando estas acabavam saíamos da prancha de madeira e invadíamos as paredes híbridas do subúrbio.

segunda-feira, abril 24, 2006

O grito claro


De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
de um grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro

António Ramos Rosa

Cartaz «Como nasce o 25 de Abril» (in Boletim Informativo do 25 de Abril, MFA, 1974, 42x30cm, acessível na col.º da Univ. de Aveiro)

E eis que ressuscitou, à 5.ª série

Agora em horários decentes (22h30, RTP2). Esperemos que se mantenha por aí...

Ai sim, rico?

«A riqueza pode não nos acompanhar ao longo de toda a nossa vida. O companheiro permanente da nossa vida é a sabedoria, e não a riqueza.»
Stanley Ho, Expresso.
Eis que a expressão sabedoria oriental ganhou todo um novo significado...

Casino Portugal (politicirco 6)


(c) desenho de GoRRo

domingo, abril 23, 2006

Porque hoje é Dia do Livro

"Tem de haver um astro em que seja presente o que se passou há um ano, num outro o que se passou há um século, num outro o tempo das cruzadas e assim sucesivamente, tudo numa cadeia ininterrupta, e assim estará depois tudo lado a lado perante o olhar da eternidade, como as flores num jardim."
Hugo von Hofmannsthal (1874-1929), Livro dos amigos
(tradução de José A. Palma Caetano)

sábado, abril 22, 2006

Portugal, o novo faroeste (politicirco 5)


Aqui há umas semanas atrás uns publicitários pintarolas lembraram-se que não havia melhor forma de promover o país senão com o bordão «Portugal: Europe's west coast».
Nesse sentido, e porque na mesma altura o governo resolveu acompanhar este surto de genialidade com outra medida igualmente bestial, aqui vai então a nossa sentida homenagem ao novo espírito de fronteira.
(c) desenho de GoRRo

sexta-feira, abril 21, 2006

Cândido de Voltaire


Livro ilustrado por Vera Tavares e traduzido por Rui Tavares (incluindo notas e posfácio).
Dois grandes amigos e, ainda por cima, cheios de talento.
Lançamento dia 23 de Abril, pelas 18.30h na FNAC Chiado.

Se querem equidade, paguem

O jornal Público de hoje faz grande destaque a um relatório da OCDE sobre a situação sócio-económica do país. Mais uma vez se reptem as mesmas receitas, para grande excitação do director do matutino (aliás, nem outra coisa seria de esperar). O relatório destaca com especial relevo o sector da educação. Assim, no que diz respeito ao ensino superior, a OCDE chama a atenção para a necessidade de generalizar este nível de ensino aos estratos mais desfavorecidos da população. A receita passa pelo financiamento, nomeadamente, o aumento das propinas (compensado por um modelo mais eficaz de bolsas e de empréstimos), e pelo o encerramento de cursos e instituições. Isto tudo mantendo o mesmo nível de tributação fiscal, é claro.
Fácil! Fecham-se as escolas que atraem menos alunos, principalmente as que se localizam nas zonas periféricas, e aumentam-se as despesas para aqueles que entrarem numa instituição do litoral. Depois, passa-se um cheque aos poucos alunos do interior que conseguirem suportar os custos de deslocação, e espera-se que estes saldem o empréstimo quando se empregarem na sua zona de residência (que, entretanto, ficou sem ensino superior). Deste modo, se promove a equidade social e territorial.
Mais vale fechar a metade oriental do país. Ou, então, entregá-la de vez aos espanhóis, para bem do desenvolvimento regional!

quinta-feira, abril 20, 2006

O Admirável Mundo Novo

Há 5 anos nasceste para este mundo e um Mundo novo nasceu em mim.

CPE- marcas do tempo que passa (2)

O questionamento da sociedade de consumo foi feito pelo Maio de 68, por muito que custe a quem pretende cingir este movimento a uma birra de jovens parisienses pelo acesso aos mesmos brinquedos dos congéneres baby-boomers dos EUA (rock, magazines, jeans, etc.). Aliás, tal estava implícito na noção de alienação do filósofo Herbert Marcuse (vd. The one-dimensional man: studies in the ideology of advanced industrial society, Boston, 1964, cuja tradução fr. de 1967 vinha sendo comentada precisamente em Nanterre, o epicentro da revolta estudantil), uma das referências maiores da juventude soixante-huitard (uma boa reflexão actualizada pode ser lida neste texto de Paul Seff).
É um problema que se mantém actual e que tem tido respostas em distintos níveis: normativo jurídico (direito do consumidor e da regulação), sociedade civil (cooperativismo, mutualismo, movimento do comércio justo, etc.) e grupos político-cívicos, sobretudo de esquerda (associativismo voluntário, incluindo de defesa do consumidor, teoria do desenvolvimento sustentável, intervenções políticas pró-regulação do mercado, das empresas e do Estado na sua relação com os consumidores, os utentes e os cidadãos).
Aqui no Fuga tb. já houve contributos valiosos para esta reflexão central a uma contemporaneidade cívica e com ética social.
O CPE foi mais um contributo de peso, ao desmascarar a lógica neoliberal selvagem, assente na desregulação das normas laborais, na subordinação do factor trabalho, na aposta em baixos salários, em suma, impondo uma sociedade consumista e segregadora. Agora fica em aberto o debate quanto à definição da questão laboral no novo milénio. Passámos do consumo à produção, parece um retorno ao século XIX, será possível?
(c) foto de Tiago Maia, Paris, próximo da Place de la République, 1-4-2006

quarta-feira, abril 19, 2006

Em nome da memória e da liberdade

Faz hoje 500 anos que em Lisboa se iniciou um massacre de cristãos-novos e de judaizantes, só terminado 2 dias depois. Preparava-se assim o terreno para a instauração da Inquisição no país. Sobre este episódio negro da História de Portugal surgiram reflexões muito interessantes na blogosfera, salientando-se as de Nuno Guerreiro e João Miguel Almeida. O 1.º lançou a ideia duma homenagem simbólica a essas vítimas da intolerância religiosa, 1 vela por cada indivíduo assassinado, a acender por quem estiver interessado no Rossio lisboeta, hoje, 5.ª e 6.ª feiras.
É uma ideia digna, que contribuirá para consolidar uma comunidade na memória colectiva, na liberdade e no respeito, condições basilares da cidadania universal. Pena é que haja quem não vislumbre esta elementar condição e se feche na sua reserva mental.
A este propósito, nada melhor que reproduzir as palavras sábias do judeu Elie Wiesel, prémio Nobel da Paz: "Se existe um único tema que domina todos os meus escritos, todas as minhas obsessões, é a memória – porque tenho tanto medo do esquecimento quando do ódio ou da morte. [...] Porque a memória é um bem: cria laços em vez de os destruir. Laços entre o presente e o passado, entre indivíduos e grupos. É por me lembrar do nosso princípio comum que me aproximo dos meus semelhantes, de todos os seres humanos. É por me recusar esquecer que o seu futuro é tão importante quanto o meu. Que seria o futuro da humanidade se fosse desprovido de memória?”
(do pref.º a From the kingdom of memory, N. Iorque, Summit Books, 1990, tradução de Nuno Guerreiro; a imagem supra é retirada do panfleto anónimo alemão Da contenda cristã, que recentemente teve lugar em Lisboa, capital de Portugal, entre cristãos e cristãos-novos ou judeus, por causa do Deus crucificado, c.1506, depositado na Univ. de Harvard, EUA)

terça-feira, abril 18, 2006

Nicotino, o «bisca$ $olta$» (politicirco 4)



Ei$ mai$ um arti$ta-vedeta do no$$o Politicirco, conhecido por apariçõe$ nevoenta$, ocultamento de número$ do$ outro$, etc., e que tudo vinha fazendo para entrar ne$te palco $electo do Fuga. Então, congratulaçõe$!!!
(c) desenho de GoRRo

Prós e Contras

Não tenho por hábito assistir ao Prós e Contras, mas devo dizer que o bocado que vi do programa da semana passada valeu a pena. Refiro-me aos últimos vinte minutos, aproximadamente, nos quais João César das Neves esteve no seu melhor, defendendo a ideia de que a grande causa de uma suposta decadência da Europa é a erosão dos valores, com a despenalização do aborto à cabeça. Não se tratasse a questão de algo que é permitido na maior parte dos países mais avançados da UE, em alguns casos há dezenas de anos, ao contrário de Portugal, e quase nos faria crer que isto cá no burgo é que está bom.
Quando por acaso liguei para o canal 1 da RTP e apanhei o fio à meada das ideias que ali se discutiam, não pude deixar de assistir, incrédulo, àquilo. Como é possível que em 2006, já na segunda metade da primeira década do século XXI, ainda no principal canal televisivo de um país ocidental se discutam aquelas questões daquela forma? Foi de tal maneira impressionante que ao lado de César das Neves o cardeal D. Saraiva Martins parecia um hippie preconizando o amor livre nas margens do Ganges em 1968. Só uma coisa, um pequeno detalhe, pôs alguma ordem na confusão em mim gerada por aqueles minutos de discussão. O tal cardeal, a quem me disseram que Fátima, a apresentadora, chamou solenemente «o padre dos santos», estava com a voz visivelmente afectada, o que o forçava a emitir de vez em quando uma espécie de sons que, caso eu fosse mauzinho, diria assemelharem-se a zurros. Ou seja, de repente haveria fogachos de normalidade, um pregando e outro zurrando, e ainda assim seria difícil perceber qual fazia menos sentido. Mas como não sou mauzinho, não o farei.
Bom, entretanto do outro lado da barricada estavam António Barreto e Fátima Bonifácio. Portanto com um painel destes nunca se sabe onde poderão ter havido campos de alargado consenso. Como já disse, não vi o programa todo. Adianto no entanto, à laia de exemplo, que mesmo no final o cardeal apelou à magnanimidade de Fátima, a Bonifácio, para invocar uma espécie de juízo-quase-fé sobre a adopção de crianças por casais homossexuais, perguntando-lhe se também ela não achava que uma criança deve ter pai e mãe. Fátima pôs os olhinhos mais «valhanosdeusnossosenhor» de que foi capaz e acalmou o âmago de D. Saraiva, dizendo-lhe que sim, que também para ela uma criança precisava de paizinho e mãezinha para crescer sã. Viram-se assim goradas, suponho, as expectativas daqueles que defendem que as crianças devem crescer órfãs, e terminou mais um suposto debate sobre uma suposta decadência da Europa (???).
Não gostaria de terminar sem dizer que se aceitam sugestões para temas e painéis de próximos programas. Porque não por exemplo «Os três grandes do futebol português», com Pôncio Monteiro, Miguel Sousa Tavares, Pinto da Costa e Carlos Calheiros como convidados? Ou então «A esquerda em Portugal», com Rui Ramos, Luís Delgado, Pacheco Pereira e Paulo Portas no painel? Ó Fatinha, pensa nisto filha.

segunda-feira, abril 17, 2006

A relação, a relação é que importa

A semana que ora se inicia será o que for, mas não se pode dizer que tenha começado da melhor forma para o governo, com a realização de uma greve por parte da Polícia Judiciária que, consta, obteve níveis de adesão elevados. Já a passada semana foi, no entanto, boa do ponto de vista político. Duas notícias a marcaram positivamente:
1) uma referia o facto de 2005 ter sido, em matéria de cobrança de dívidas fiscais, o melhor ano de sempre. É uma notícia que dá alento e que confere credibilidade ao trabalho e esforços conjuntos de Teixeira dos Santos e Vieira da Silva em matéria fiscal;
2) Maria de Lurdes Rodrigues anunciou mais uma boa medida, que para além de pôr ordem no mercado do livro escolar, o que é bom para a educação em geral, é inequivocamente benéfica para a economia das famílias portuguesas: o facto de a adopção dos manuais escolares passar a efectuar-se para períodos de seis anos implica sem qualquer espécie de dúvida uma poupança efectiva nas bolsas massacradas das famílias que têm vários filhos a estudar. A gratuitidade de manuais escolares para os alunos mais pobres a partir de 2009 é ainda de salutar (vão ouvir-se imediatamente as vozes daqueles que a queriam para ontem - mas eu também a queria para ontem, só que não houve ninguém que a soubesse preparar; portanto, a ser cumprida, será mais um mérito para Lurdes Rodrigues).
Como já se disse, positivas positivas não parecem propriamente ter sido as palavras com que Alberto Costa brindou a eficiência da PJ (mas sublinho a palavra parecem dado que os meandros destas coisas são sempre mais complicados do que a superfície deixa ver). Desde logo não percebo o que possa ter ganho politicamente com elas, nem ele nem o governo que representa. A tarefa ciclópica de modernizar um sector como a Justiça dificilmente se fará em guerra com uma instituição como a Polícia Judiciária. Uma relação sã e de confiança entre o ministro e essa força policial parece-me essencial para poder orientar os eixos da desgastada, pelo menos em termos de imagem, Justiça portuguesa. A PJ não é, aos olhos dos portugueses, a instituição desse sector que menos prestígio tem. Saindo deste caso específico e passando para um plano mais geral, episódios como este recordam-me umas palavras de Mondrian:
«Tudo se estrutura por relação e reciprocidade. A cor não existe senão por via de outra cor, a dimensão é definida pela outra dimensão. É por isso que eu afirmo: a relação é a coisa principal.»
O seu contexto de génese não é exactamente político, mas podem aplicar-se perfeitamente a ela - à política. São pois válidas para qualquer político que se preze, porque acentuam a tónica da relação, crucial para a actividade política, por oposição às grandes soluções completas, com respostas aparentemente simples para tudo (no fundo a antítese dos tempos que correm). Quanto aos portugueses, e segundo as últimas sondagens, que depois de treze meses de governo dão ainda ao PS valores de intenção de voto acima dos 40%, parecem tê-las bem presentes. Um trunfo de Sócrates pois, que importa não desbaratar com episódios laterais.

domingo, abril 16, 2006

O povo escolheu

(c) desenho de GoRRo

sábado, abril 15, 2006

Uma boa Páscoa religiosamente incorrecta




sexta-feira, abril 14, 2006

Os pecados da era da globalização

Segundo as paixões de Pitecos: um blogue cheio de pecados (a não perder).

Zézinho das Socas e o grande choque tolológico (8)


Episódio 8: resignições

- Ó Zézinho, não brinques com os fósforos, que te podes queimar.
- Não é queimar, é incinerar.


(c) desenho de GoRRo
(c) direitos reservados para FpaV, 2006

quinta-feira, abril 13, 2006

Descoberto o elo perdido do Neanderthal!

Graças aos avanços da ciência, foi recentemente descoberto o elo que liga directamente o Homo Neanderthal à actualidade, o baptizado Troglodita Mediathicus. Este achado foi localizado na Península Ibérica (vá lá, tb. temos direito a troféus de glória) e encontra-se em excelente estado de conservação.
O referido grupo é quase puro na sua composição biológica, exceptuando uns apêndices francamente inestéticos, como pêlos descaídos sob o maxilar inferior e uns objectos com lentes na dianteira da visão.
Pode tirar o cavalinho da chuva quem pense tratar-se somente de raros espécimes: foi já possível comprovar junto de especialistas que, efectivamente, muitos Homo Sapiens actuais tb. estão miscigenados com dados genéticos trogloditas, daí certos acessos trogloditas mediathicus, visíveis em frases feitas repetidas sem conta, excitações verbais e outras perturbações do raciocínio.
Esta descoberta vem juntar-se às feitas há uns anos atrás do menino do Lapedo e das pezadas de monstrengos, tb. na costa litoral lusa. Estamos todos de parabéns! Viva!!
(c) desenho de GoRRo

quarta-feira, abril 12, 2006

Terá a rua um discurso?

As investidas da direita contra o Estado social visam um só objectivo: substituir o Estado pelo mercado. Como se entre estas duas instâncias não existisse mais nada. No entender do discurso económico dominante (infelizmente, parece que deixou de haver discurso económico de esquerda), tanto o Estado, como o mercado são constituídos, basicamente, por factores de racionalidade. Nesta óptica, a racionalidade do mercado gira fundamentalmente em torno da maximização de ganhos e da minimização de custos, enquanto a racionalidade do Estado é, do seu ponto de vista, essencialmente reprodutiva, no sentido da manutenção dos interesses instituídos.
Por outro lado, fora destas instituições domina a irracionalidade. Para estes iluminados, a sociedade civil é um logro e uma inutilidade. Quando se manifesta move-se segundo as batutas manipuladoras de algumas organizações que lhe são exteriores, como é o caso dos partidos ou dos sindicatos. Por este motivo, sempre que a rua ganha aos parlamentos ou às bolsas, é porque foi instrumentalizada. Nunca reconhecem racionalidade à rua, encaram-na, na maior parte das vezes, como um bando de alienados cuja motivação é simplesmente insondável e, por isso, muito pouco racional.

Face a esta visão, conservadora no que diz respeito ao Estado e liberal no que concerne ao mercado, é necessário encetar um contraponto… Uma outra narrativa que conte uma história diferente sobre a natureza da sociedade civil e da sua importância enquanto elemento (re)organizador dos sistemas sociais económicos. Uma narrativa que a partir da rua construa novos horizontes ao Estado e ao mercado. As movimentações de protesto representam um ponto de partida que não culminam com o recuo, meramente circunstancial, do Estado (ou do mercado). O protesto gera consciência e esta, por sua via, deverá gerar discurso. É isso que se espera (ou se anseia) que aconteça no pós-CPE!

Falar da arte actual, ou o quarteto operativo

Retoma esta tarde o ciclo de palestras Operações da arte contemporânea, da prof.ª M.ª Teresa Cruz (FCSH-UNL, dir. da revista Interact), e que decorre no pequeno aud.º da Culturgest (18h30, entrada livre). Pelos ecos que me chegaram, a 1.ª prelecção foi muito boa, tendo servido de introdução à terminologia e a um conceito central: o de experimentação artística. Hoje é a vez da conceptualização. Seguir-se-ão o agir e o instalar. Sempre às 4.ªs feiras. Aqui fica o desafio.
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