quinta-feira, março 30, 2006

Homo Simplex 2006 A.C.: o inventor da roda quadrada

Colecção «Grandes Passos da Humanidade»
(c) desenho de GoRRo

quarta-feira, março 29, 2006

Zézinho das Socas e o grande choque tolológico (6)


Episódio 6: os passos dos simples
- Ó Zézinho, por que é que andas às voltas?
- 333, 334... por mais passos que dê, continuo a ser burro.

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Advertência aos mais distraídos: pese embora o discurso deste post e doutros do género (vd. episódio especial e cartoon de amanhã) ser semelhante ao do Governo, este não é um blogue oficial e muito menos oficioso.

Novas do país censório (welcome to Albania, my friends)

Ora, pois então, para alegrar o ramalhete só cá faltava esta. Estávamos nós a falar de livros proibidos de Agostinho da Silva, antes de 1974, do de Saramago, nos anos 90, parecia já que o intervalo se prolongava em demasia cá na baiúca, eis senão quando:
"Margarida Rebelo Pinto e Oficina do Livro requerem contra João Pedro George e Objecto Cardíaco uma providência cautelar não especificada com a finalidade de impedir a distribuição e venda da obra Couves & Alforrecas: Os Segredos da Escrita de Margarida Rebelo Pinto."

Quem não acredita que leia a reportagem completa no Diário Digital, que inclui a versão da editora, num texto com este lead:
Alguns, os cínicos de serviço, dirão que esta nem mesmo de encomenda, que só servirá as vendas do novo livro de JPG (se este se puder vender, pois ainda não é certo que o juiz não proíba a sua comercialização). A esses restará devolver-lhes a mera invocação duma velha frase dum dos seus ídolos, Brecht.
Ou então reproduzir esta, do editor perseguido, valter hugo mãe:
Nb: blogues que já denunciaram este atentado à liberdade de expressão: Manchas, O franco atirador, Estado Civil, Da Literatura, Esplanar, objecto cardíaco, Geração Rasca, O Amigo do Povo, A invenção de Morel, bombyx mori; aprofundamento informativo no DN de hoje.

Metro decente: medida 333333, 3.º passinho, lá pró 5.º milénio

Nem sei por onde começar: se pelo desrespeito pela saúde dos utentes, se pela insensibilidade manifesta, se pelo desleixo na comunicação do incidente (foi um passageiro que deu o alerta). Mas há mais, como bem aponta o jornalista Carlos Ferro: os passageiros que vinham nos comboios suburbanos (Sintra e Margem sul) não foram avisados da interrupção no ML, donde, muitos saíram ao engano na estação de 7 Rios para transbordo, tendo que voltar atrás e enfiar-se em novo comboio para fazer transbordo em Entrecampos e apanhar a outra linha de metro.
Infelizmente, este tipo de interrupções têm-se agravado de há uns anos para cá. Junte-se-lhe os 5 milhões de euros desperdiçados em portas automáticas, o escândalo da estação de Telheiras a 700m da do Cp. Grande só para servir futuras urbanizações de luxo, a poluição sonora e visual que são aqueles televisores e a música comercialóide e temos um metro inamistoso, impositivo, despesista. Só se salva a expansão em kms, em tudo o resto piorou.
Mudar isto, pelo menos o respeito pelos utentes e a sua informação atempada, não parece passar por reformas burocráticas. Ou, quiçá, algum optimista acredite que haverá luz ao fundo do túnel lá para a medida 333333, 3.º passinho à direita de quem entra. Será?
E por que espera a tal Autoridade Metropolitana dos Transportes? Onde param as associações de defesa dos utentes e as distritais partidárias? Que fazem a DECO e o Inst.º do Consumidor (paga-se bilhete ou passe, não é)? E para que serve o presidente da Área Metropolitana de Lx.? Uma privatiçãozinha, ajudará?
Qual quê, são só suburbanos, gente que não tem alternativa ao transporte público, eles que se aguentem.

terça-feira, março 28, 2006

Zézinho das Socas e o grande choque tolológico (episódio especial!!)

Episódio extra: passinhos de caracol

- Ó Zézinho, por que é que andas às voltas?
- 332, 333... ando a contar os passos para deixar de ser burro.

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Mega-promoção Expo-Belém

Expo-Belém milénio 3
Reserve já o seu lugar ao sol, com vista para o mar: CCBo, CCB1 e CCB2, sem entrada e sem juros!! Lotes novos já em 2006...
Veja o andar-modelo na sala de exposições do comendador Berardo. Nb: stock limitado, prioridade a comendadores, membros das casas reais e do corpo diplomático.

Zézinho das Socas e o grande choque tolológico (5)

Episódio 5: the new frontier

- Ó Zézinho, não te chegues tanto às bordas, que podes cair!
- Bordas não, novas fronteiras.


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Democratizar o Estado é preciso (1)

O lema da direita é acabar com o Estado providência. Todos os problemas se resolvem com a destruição do Estado social, desde que o seu terreno seja ocupado pelo milagreiro Mercado. Sortudo este Mercado que fica com os despojos do Estado! Ficará com grandes infra-estruturas (escolas, hospitais, repartições…), com equipamentos, com pessoal altamente qualificado, etc. Na verdade, o que os liberais pretendem é uma espécie de nacionalizações ao contrário. E, se possível, por decreto. Não sei se estão a ver: o último decreto do Estado seria o da sua própria auto-dissolução. Uauuu, ‘ganda’ cena!

Face ao discurso de abolição do Estado a esquerda responde com a sua absolutização. Ou seja, para esta o Estado é intocável. Ora eu, que me acho de esquerda, considero que o Estado não só não é intocável como deve ser questionado: nos seus procedimentos e, principalmente, nas decisões que são tomadas em seu nome. Infelizmente, não é isso que tem sucedido. Muitos dos nossos ilustres comentaristas (essa estirpe admirável de independentes) abusam de uma crítica ao Estado que incide fundamentalmente nos executores (os tais funcionários públicos). A maior parte dos mecanismos de controlo da eficiência que propõem servirão basicamente para apurar e, supostamente, premiar quem transpira mais, e pôr a andar quem corre menos.

Quanto aos decisores (os tais altos dirigentes), esses estão tão alto que continuam intocáveis. Mesmo para aqueles que querem acabar com o Estado. Que estranha contradição, porque será? Não tem a ver com o facto de muitos destes críticos terem também passado, em tempos que já lá vão, pelas manjedouras do Estado, pois não? Que ideia, que sugestão tão injuriosa e grosseira! Como se neste país a passagem pelo Estado equivalesse a um passaporte para uma carreira bem sucedida no sector privado. Longe de mim pensar tal enormidade! O facto dos altos dirigentes do privado (alguns dos quais comentaristas de renome) não questionarem os altos dirigentes do Estado (tão comentaristas como os seus comparsas), deve-se a uma simples distracção. Apenas isso! Além do mais, os executores são muito mais em número do que os decisores e, portanto, é natural que os últimos passem despercebidos nos anais das estatísticas nacionais. Afinal, tudo isto não é mais do que uma mera questão de números.

Perante tamanha distracção numérica, poderá a esquerda continuar a encarar o Estado como um indivisível número absoluto?

segunda-feira, março 27, 2006

De como se passa de 2 para 1 prioridade (para uma heurística da retórica)


"Ao longo deste ano fomos fiéis às nossas prioridades. E sempre dissemos que as prioridades do País deviam voltar a ser o crescimento económico e o emprego - e é para isso que temos trabalhado.
Antes das legislativas do ano passado, dissemos ao País que a consolidação das contas públicas é, sem dúvida, um problema muito sério, que precisa de ser enfrentado - mas não é, nem pode ser um fim em si mesmo: o País tem de concentrar-se, sobretudo, na resolução dos seus problemas estruturais que bloqueiam o crescimento económico. [...]
Começámos o processo de consolidação das contas públicas e vamos levá-lo até ao fim.
Mas a prioridade maior na Agenda do Governo ao longo deste primeiro ano foi a modernização da economia, porque precisamos de uma economia mais competitiva, capaz de crescer e de combater o desemprego." (p. 5/6; nb: só o 2.º negrito é meu)
Desemprego actual ap. INE (in Jornal de Negócios, 14/II)
«O número de desempregados aproxima-se dos 500 mil, depois de se ter registado um aumento de 1,6% do número de inscritos em Janeiro nos centros de emprego. As maiores subidas em termos de desempregados foram observadas pelas mulheres e indivíduos licenciados.»

Michael Burawoy em Portugal: a ciência como interpelação construtiva da sociedade

Michael Burawoy é actualmente um dos sociólogos mais influentes, não só no meio académico como junto dos decisores políticos e dos media de referência. A convite da APS- Assoc. Portuguesa de Sociologia, o actual presidente da homónima dos EUA vem proferir 5 palestras entre nós. Eis a sua agenda:
27 de Março (2.ª, 18h) – Methodology, Ethnography and the extended case method (no âmbito do Programa de Doutoramento em Sociologia do ISCTE, sala B203, Lisboa)
28 de Março (3.ª, 17h) – The third-wave Sociology (CES-FEUC, sala Keynes, Coimbra)
29 de Março (4.ª, 15h) – The methodology of revisits (para o Projecto “Transformações sociais numa colectividade rural do noroeste português”, Inst.º de Sociologia da FLUP, Porto)
30 de Março (5.ª, 14h) – Comparing industrial work under capitalism and socialism, 1975-2000: methodological and theoretical dilemmas of multi-sited ethnography in the United States, Hungary and Russia (no workshop “Motivations and incentives: creating and sharing knowledge in organisational contexts”, Projecto DIME, ISCTE, sala B203)
30 de Março (5.ª, 18h) – Public Sociology (ICS-UL, auditório, Lisboa)
Alguns dos seus textos relativos à proposta da «Public Sociology», i.e., duma ciência social como parceira crítica e construtiva das políticas públicas, estão disponíveis no sítio do Dep.º de Sociologia da Univ. de Berkeley-Califórnia, onde é director.
Aproveita-se para respigar uma breve nota biográfica, pelo sociólogo Elísio Estanque:
"Michael Burawoy tornou-se conhecido sobretudo a partir dos múltiplos estudos que realizou com base no método de «observação participante» sobre as relações laborais e o mundo fabril em diferentes países, nomeadamente na Hungria e nos EUA. O chamado «método de caso alargado» foi por ele teorizado e aplicado à análise de empresas industriais em diferentes partes do mundo, privilegiando o ponto de vista dos trabalhadores e procurando, a partir desses estudos de caso, interpretar os processos de estruturação do capitalismo global e as suas formas despóticas ou hegemónicas de dominação. M. Burawoy é reconhecido pelas suas análises críticas do capitalismo e pelos contributos inovadores dos seus estudos, nomeadamente sobre o desmoronamento da ex-URSS e os processos de transição do socialismo para o capitalismo nos países do bloco soviético.
"Das suas diversas publicações destacam-se: The colour of class on the copper mines: from African advancement to Zambianization (1972, Manchester Univ. Press); Manufacturing consent: changes in the labor process under monopoly capitalism (1979, Univ. of Chicago Press); The politics of production (1985, London, Verso). Mais recentemente, foi co-autor/ organizador de uma obra de referência, Global Ethnography: forces, connections and imaginations in a postmodern world (2000, Univ. of California Press), na qual se mostra como a globalização pode ser estudada ‘a partir de baixo’, através da participação nas vidas daqueles que a experienciam e que sofrem os seus efeitos destrutivos. Ao longo da sua carreira como sociólogo, Burawoy assumiu-se como marxista, procurando reconstruir o legado de Karl Marx e adequá-lo aos problemas sociais e desafios históricos de finais do século XX.
"Nos últimos anos tem publicado e animado inúmeros debates nos EUA em torno da ideia do chamado «public sociologist». Discute o papel do cientista social como intelectual e activista político, advogando uma viragem que se está a operar na sociologia a nível mundial, em que esta se vem revelando cada vez mais como uma «ciência crítica» do capitalismo e dos excessos da globalização".
Adenda: a 1.ª conferência foi entusiasmante, palavra de ouvinte.

Zézinho das Socas e o grande choque tolológico (4)

Episódio 4: Ingalixiz, ora gaites!
- Ó Zézinho, o que é que já aprendeste com os meninos da escola?
- É lo, maineme jói-zé. guda naites, ora baites.
- Ó Zézinho, já não falas à gente como deve ser?
- Nóti! Portoguiziz ver-estúpide. Ingalixiz ver-igude!

(c) desenho de GoRRo
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domingo, março 26, 2006

Eles divertem-se, eles divertem


Há uns meses, o CDS-PP realizou um congresso para encontrar um novo líder. Depois, não contente, realizou eleições directas para legitimar o líder segundo as novas modas. Agora e com um grupo parlamentar hostil composto por um bando de garotos, volta a marcar um congresso para religitimar a estratégia do líder. A particularidade é que no congresso só serão aceites moções que tenham implícitas candidaturas à liderança. Perceberam? Não, eu explico. O CDS é o partido mais democrático de Portugal. Elege um líder com critérios representativos, depois reforça a sua liderança com directas. Não contente com isso reforça ainda mais um bocadinho e obriga uns chatos que andam lá a intrigar a candidatarem-se se quiserem meter estopa (o que é, aliás, muito bem feito). Moral da história, com tanta legitimação, ou Ribeiro e Castro sai do congresso como líder vitalício como aquele senhor do Cazaquistão, ou transforma-se numa produtora de eventos e variedades o que sempre seria divertido.

Começar de novo, vai valer a pena


É voz corrente que Paulo Portas – a propósito, imperdível o texto do nosso Rui Tavares no Público de sábado sobre a criatura e suas personas - é o homem por detrás da conspiração parlamentar contra Ribeiro e Castro. Também eu tenho poucas dúvidas. Do que realmente duvido é que esse jogo de marionetas vise a tomada do partido a médio ou longo prazo de acordo com o calendário eleitoral. O que Paulo Portas realmente quer é que tudo corra pelo pior. Que o CDS, sem ele, seja pulverizado nas urnas e, pura e simplesmente feche as portas do Caldas. Então, com partido novo (a meias com algumas franjas do PSD, mas certamente sem Santana), tudo pode recomeçar à direita com ele como líder incontestado. Sem passado, ou na amnésia dele, como Portas sempre fez.

O inimigo está entre nós

A minha filha diz que quer ser uma «pop star» (sic). Resigno-me às delicias da sociedade mediática ou ponho-a fora de casa aos cinco anos? Aceitam-se sugestões para posterior desresponsabilização paternal.

sábado, março 25, 2006

Encalhado como dantes

É, sei-o, uma discussão estéril esta que mantenho com algumas pessoas (sobretudo uma mais que outras) vai para quê?, cinco anos?, dez?, uma pipa deles por certo. Saber se Forster é ou não melhor que McLennan, se McLennan é ou não melhor que Forster, ou se estão, enfim, empatados. É coisa de somenos importância, picuinhice de «dolce» ociosidade decerto. Chamem-lhe o que quiserem, mas como todas as obsessões veio, cresceu e deixou-se estar, e como tal é preciso tratar de a pôr andar, até para dar espaço a outras, qu'isto não dá para ter mais de uma dúzia delas ao mesmo tempo. Diga-se porém que não tem sido fácil.

Há no entanto um desenvolvimento recente que ajudou a empatar as coisas. Sim, não é erro, a empatar as coisas e a voltar à estaca zero. É que com os anos tinha crescido em mim uma espécie de certeza aí a 80% que me asseverava que McLennan era muito superior a Forster. Este tinha plantado uma rica série de canções pelos álbuns dos Go-Betweens, é certo, mas as suas melhores pérolas não luziam tanto como as de McLennan. Excepção feita à House do Jack Kerouac e à Part Company, dou de barato eventualmente mais uma ou outra, e a produção de McLennan cobria isto e o resto com a Cattle and Cane (mesmo que aquela voz final do Forster tenha sido uma invenção estupenda para a canção), a Wrong Road ou a sublime Apology Accepted. Ainda assim, há que reconhecer que em 16 Lovers Lane, aquela melancolia de Forster, profundamente enraizada num solarengo amargo de boca saudoso de não sei quê mas que cheira a mulher, marcava pontos, e muitos. Só que os Go-Betweens chegavam ao primeiro fim com esse disco, e não mais haveriam de gravar juntos até 2000.
Como tira teimas restavam os discos a solo. Ora é justamente aí que eu queria ir bater (grande sorte a de tocar neste assunto neste texto caraças!). Bom, andando pois por agora a ouvir incessantemente o primeiro álbum de Forster, dê eu as voltas que quiser, dê o mundo as voltas que lhe apetecer, diga-se o que se quiser sobre esse belíssimo lugar que é Cacilhas, enfim, encham as galinhas as boquinhas de dentes, há uma coisa que é tão certa como o facto de o lusitano Viriato estar morto: a solo, Forster dá um baile a McLennan. Vou até mais longe, o seu primeiro disco, Danger In The Past, vale mais que os quatro discos a solo de McLennan. Não é com dor no peito que o admito, não nada disso, é até com um certo alívio... sim, alívio, alívio por voltar a estar tão encalhado hoje como há dez ou há quinze anos.
Encalhado como dantes, salve-se pois a música, que eu não vou a lado nenhum.

A nossa cooperação estratégica

Os biscoitinhos com aroma a alfarroba (de Boliqueime) e cereja (da Covilhã) não saberiam bem sem um acompanhamento a preceito. Por isso, aqui ficam os novos aperitivos gasosos, também produto 100% nacional, em garrafas de bocas espumantes com cortiça porosa e vidro tosco. Quanto aos enólogos, o do Seco pode ver-se aqui e o do Bruto ali e acolá. Bons brindes!!

«Obrigados»

Anda um homem lá por fora desajeitadamente fazendo pela vidinha quando, regressado a casa para um sábado em terras lusas, dá com grandes parangonas nos jornais tornando públicas supostas actividades de tráfico de armas de guerra por parte das polícias nacionais. Um indivíduo interroga-se: mas então e isto é mau? É que a bem dizer, é muito melhor que tão sujo negócio se concentre nas mãos de gente em que podemos confiar - os nossos polícias - do que nas mãos aí duma bandidagem qualquer.
Aqui fica portanto um "obrigados" aos Srs agentes envolvidos no processo.

sexta-feira, março 24, 2006

Achegas à internacionalização do produto nacional

Dedicado a todos quantos andam lá fora, arduamente, à cata de paproca para os seus amiguinhos de estimação.
Nb: biscoito reciclado 100% nacional, feito à base de plantas parasitas; autêntica receita liberal!
(para ver melhor o produto é favor clicar na imagem)

Adeus mundo rural, olhó puguésso

...ou de como dar com os burricos na água

"No dia 6 de Novembro de 1985, depois do almoço, entrei na residência oficial do primeiro-ministro, em São Bento. […]
Só alguns dias mais tarde percorri o jardim nas traseiras da residência, um espaço verde muito agradável no interior da cidade, confinando com a Assembleia da República. […]
Para minha surpresa, no meio do jardim havia um espaço de cerca de cem metros quadrados [mandado construir por Salazar] que incluía um galinheiro com gansos-mudos, galinhas e patos, uma pequena horta, com cebolas, couves e alfaces, um limoeiro e uma laranjeira e disseram-me que por lá tinha mesmo passado um burro; mas, se passou, dele não ficou rasto… Esse espaço rural foi extinto durante o meu consulado, dando lugar a uma piscina e um roseiral."
Aníbal Cavaco Silva, Autobiografia política, Lisboa, Temas e Debates, 2002, p. 129-131.

Premissas vagas para uma esquerda de vanguarda (em jeito panfletário e muito desajeitado)

Será possível uma esquerda de vanguarda? Eis uma pergunta que gostaria de responder sem hesitações. Mas não sou suficientemente optimista. No entanto, mais tarde ou mais cedo (apesar de já se ir fazendo tarde), a esquerda deverá questionar alguns dos seus pressupostos adquiridos de modo a encetar novos trilhos para os destinos do mundo. A direita não tem pejo em iludir-nos com a sua fatalidade. Repete até à exaustão a crença no fim da história e na sacralidade do mercado. E o pior é que tem convencido muita gente pelo cansaço. Esbaforidos rastejam (rastejamos?) conformados com a ausência de alternativa. Face a estes feitiços as esquerdas manifestam-se, são do contra e protestam. Berram frases feitas e reditas na esperança que acordem a letargia. Mas o efeito é contrário e ficamos ainda mais sonâmbulos. São expressões sem eco que só convencem quem se atiça na gritaria. Vai p’ra rua! Vai p’ra rua! Uivam os que já estão cá na rua.
Uma esquerda de vanguarda tem de ser mais do que um movimento (ou um partido) de protesto. E também não é, certamente, uma esquerda moderna (e muito menos pós-moderna). Uma esquerda de vanguarda terá de questionar a fundo o papel do Estado na sociedade e não ter embaraço em apontar os seus excessos. Terá de encarar a globalização não só como um factor de hegemonia, mas como uma oportunidade de solidariedade e de criatividade. Terá de perceber que o indivíduo é o centro de qualquer acção política. Terá de encarar a liberdade individual como um valor supremo, que não é património de nenhuma ideologia. Terá de pôr os meios a justificarem-se por si. Terá de ser reflexiva em plena acção. Terá de quebrar com todos os destinos, inclusive os seus.

quinta-feira, março 23, 2006

Zézinho das Socas e o grande choque tolológico (3)

Episódio 3: N.ª Sr.ª Reaparecida
Vendo-o vir tão alegre, o povo, admirado, pergunta-lhe:
- Ó Zézinho, porque estás com essa cara alegre?
- Porque beijei a santa dos pobrezinhos. Eu vi a senhora reaparecida protectora das ovelhinhas e pastorinhos, em sua cabeleira brilhante e seu manto azul-saco.
(c) GoRRo
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quarta-feira, março 22, 2006

Estará a esquerda condenada à defensiva?

Nos debates e discussões políticas é corrente vermos os partidos e os movimentos de esquerda assumirem posições defensivas com receio que as investidas do capital (ou dos governos ou da direita em geral) marquem mais um golo na baliza dos direitos adquiridos. O discurso da esquerda reduziu-se à pequena área do guarda-redes, que treme sempre que o esférico rompe a zona defensiva. Imaginem 10 jogadores acantonados na retaguarda a tentar segurar o resultado do jogo. Tem sido esta a estratégia da esquerda. Mais conhecida pela táctica da barricada (tenho de vender esta ao Gabriel Alves).
A luta continua, mas parou na trincheira que defende as conquistas do passado: a defesa do ensino público, do sistema nacional de saúde, da justiça para todos, da contratação colectiva, das subidas de escalões… A defesa tornou-se o único ataque. Neste aspecto, a esquerda não se distingue muito da táctica de uma certa direita conservadora, cujo objectivo supremo é a manutenção dos interesses das classes dirigentes e mais favorecidas. No caso da esquerda trata-se fundamentalmente de salvaguardar os interesses dos remediados que tiveram a sorte de em tempos se pendurarem num quadro de efectivos. E os que estão fora do quadro, como se espera que resistam? Como podem os suplentes defender as mesmas barricadas? (talvez só mesmo o Gabriel Alves tenha uma resposta à mão).
Por outro lado, o discurso da ruptura de sistema e da mudança de paradigma é cada vez mais protagonizado por uma espécie de “nova direita” (neoliberal e/ou neoconservadora) que tem comandado a agenda política nacionais e mundial desde, pelo menos, o início do século XXI. Frente a esta frente demolidora não há barricada que resista. A esquerda vive a angústia do penalty derradeiro. Se defender será por inépcia do atacante (mau gesto técnico, diria Gabriel Alves). Mas há sempre possibilidade de recarga. E aí meus amigos não teremos outro remédio senão pontapear para a frente e desistir de resistir: inverter a táctica e apostar tudo no 2-4-4 (desta nem o Gabriel Alves se lembraria).

Zézinho das Socas e o grande choque tolológico (2)

Episódio 2: Pensamentos pró-fundos

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Legalismos balofos

Isto não é difícil de compreender - é mesmo incompreensível. Desde logo para quem tem os impostos todos em dia até à última quinhenta. Seguidamente para quem trabalha e tem de realizar o seu trabalho de forma competente todos os dias, hora a hora, enfim, minuto a minuto, para não ser despedido (contrastando com esses empregos onde a competência e a eficiência são conceitos aproximados ao milhão). Não menos importante é também o facto de um acontecimento destes atestar uma imagem de incompetência à Administração Pública em geral que é difícil de rebater. Por último, o desânimo e o descrédito que o Estado semeia e colhe, respectivamente, com tal desempenho, são corrosivos para quaisquer aspirações a credibilizar a ideia de equidade no processo de cobrança fiscal em Portugal. E a ideia de uma democracia amputada, em vez de plena, vem por arrasto. Uma democraciazinha triste e coxa, que carrega às costas um infindável conjunto de legalismos balofos que não são senão uma almofada protectora para quem tem recursos para os manipular.

terça-feira, março 21, 2006

Tributo perpétuo a Fernando Gil (1937-2006)

Agradecimento em vida
(excerto de palestra da mãe, Lourenço Marques, 11.09.1959)
"Vivi alguns anos da minha adolescência dentro dos recintos das chamadas «Companhias Indígenas» e a própria disciplina militar que observava, a continência do impedido sempre mantido à distância, foram mais tarde seguidas pela observação do respeito que os nativos do interior têm ainda pelo administrador de circunscrição.
Disso se ressentiu naturalmente, o meu comportamento para com eles. Embora procurando ser justa, algumas vezes tive, decerto, exigências a mais e compreensão a menos.
Nasceram-me depois dois filhos que, pelas dificuldades de educação que há dez anos havia ainda no interior, vieram para Lourenço Marques tirar o Curso do Liceu.
De regresso a casa, durante as férias, comecei a reparar nas suas reacções quando uma palavra mais dura da nossa parte – minha ou do pai – chamava a atenção do pessoal que nos servia.
Se observava então os meus filhos, sentia os seus olhos pousados em nós como uma muda censura.
Reagiam até quando essa aspereza era em seu proveito, ou motivada por qualquer falta dos criados para com eles próprios.
Tinham lido, iam crescendo, e simultaneamente, criando a consciência de condições e desigualdades que até então eu aceitara como decorrentes da fatalidade natural das coisas, mas contra as quais eles, com a generosidade própria da adolescência, instintivamente se rebelavam.
Chegados á juventude, mais e mais frequente era entre nós a troca de impressões sobre problemas e assuntos relacionados com coisas de África. E deu-se então uma simbiose que nem sempre se estabelece entre pais e filhos: aos princípios de dignidade, de honestidade e de justiça que nós, como todos os pais, procurávamos incutir-lhes, respondiam eles trazendo a lume problemas frequentemente relacionados com os indígenas, que submetiam à nossa apreciação.
Mais tarde procurei ler, aprofundar esses problemas, acertar a minha conduta pela bitola que os meus filhos, inconscientemente, me tinham apontado. E hoje não me custa confessar que a eles devo parte do despertar da consciência para a meditação de flagrantes injustiças, de enormes desigualdades que devemos a todo o transe procurar aplanar ou abolir [...]
Vindo poucos anos depois a conhecer colegas seus, verifiquei com alegria que os meus filhos não constituíam excepção [...]
Era comum o sentimento de indignada repulsa por tudo o que significasse humilhação ou menosprezo da pessoa humana, onde quer que eles se manifestassem."

Irene Gil, Alguns aspectos das nossas relações com os indígenas, colecção “Anambique”, n.º 4, Lourenço Marques, Associação dos Naturais de Moçambique, [1959], p. 20-21.

Zézinho das Socas e o grande choque tolológico (estreia absoluta do 1.º cartoon-novela)

Eis chegado, finalmente, o grande dia de estreia!
É com muito gosto que damos início ao cartoon-novela «Zézinho das Socas e o grande choque tolológico», um novo género literário-imagético-mediático que ficará nos anais da blogosfera.
Neste 1.º episódio, apresentamos o protagonista da série, José Socas de seu nome ou «Zézinho das Socas» para os compadres, no seu espaço natural.

No vai-vem do trabalho, o povo, admirado, pergunta-lhe:
- Ó Zézinho, o que queres ser quando fores grande?
- Quero ser engenheiro como o meu padrinho, para poder ler e fazer as contas. Contar as letras e ler os números.
- Ó Zézinho, mas não vais à escola?
- Eu não, os professores é que têm que se deslocar.

(c) concepção, desenho e diálogos de G. R.
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segunda-feira, março 20, 2006

Esquerda, direita, volver

Este debate com o blogue Arte da fuga tem sido, quanto a mim, muito interessante e esclarecedor relativamente aos diferentes modelos de educação e, de certo modo, de sociedade. Mas chegamos a uma altura da argumentação em que o que resta são as convicções ideólogicas de cada lado (e ainda bem que restam!). Nestas fugas cruzadas ficou por comentar este post de AMN que é muito clarificador quanto àquilo que cada um pensa sobre o ensino. Para a direita liberal a organização do sistema deve ser determinada segundo as lógicas do mercado, não havendo por isso lugar para a escola pública, na medida em que esta deturpa as leis (justas?) do próprio mercado. Segundo esta concepção, perante um cenário de total liberalização as famílias teriam maior liberdade em escolher a escola que entendessem ser mais apropriada para os seus filhos.
Para a esquerda (pelo menos, a minha esquerda), a escola não deve ser encarada como uma coisa (bem, serviço) que se define e se organiza em função das flutuações do mercado. Isso não quer dizer que se entenda o sistema educativo como algo homogéneo e uniforme. Longe disso! Na minha opinião a educação deve ser um sistema misto (com escolas públicas e privadas). Esta coexistência não é nefasta, bem pelo contrário. A escola privada não deverá ser encarada como um mero complemento da pública, no sentido em que ou fica com os restos (como acontece com algumas universidades privadas), ou se vocaciona para o recrutamento e reprodução das elites, como no caso de certos colégios.
As escolas privadas deverão ser agentes de inovação (não de imitação), conseguindo para tal atrair públicos diversificados que não pertençam somente aos estratos mais favorecidos. Esses projectos, se tiverem procura e se forem pertinentes do ponto de vista social, pedagógico, etc., deverão ter o apoio do Estado, em função de parcerias ou de protocolos especiais. Não deve ser o Estado a definir essa pertinência, mas entidades e especialistas externos e, se possível, vindos do estrangeiro.
Por seu turno, a escola pública deve caminhar para a diferenciação. Admito que um dos grandes erros do sistema tem sido o de aplicar a mesma cartilha aos mais variados contextos sociais e culturais. E, muitas vezes, a cartilha não é a mais adequada para grande parte das populações educativas. Isto é, a escola deverá gerar mais especificidades sem, no entanto, perder a sua equidade centralizadora que, no meu entender, é dos garantes da democraticidade do sistema.
Por exemplo, os exames no final dos ciclos deverão ter um âmbito nacional, em que todos os alunos são avaliados segundo os mesmos requisitos e os mesmos parâmetros. Não descortino qualquer outra modalidade que possa ser mais justa. E, quer se queira, quer não, só o Estado pode salvaguardar essa equidade e legitimar essa exigência. Considero que esta é uma das vantagens objectivas em se manter e aprofundar a eficácia de determinados mecanismos de centralização.
Como vêem, são dois modelos inconciliáveis. É por este e por inúmeros outros motivos que ainda faz sentido a distinção entre Esquerda e Direita. A blogsfera aí está para o demonstrar!

Marginalizações, suburbanizações e outras razões

***Teaser promocional (II)****

L'agriculteur au cours des siècles
(cartoon de Jacques Faizant)
Homenagem ao campo e a um dos maiores caricaturistas franceses de sempre, falecido recentemente (a 14/I), com 89 anos e 50 mil cartoons, a maioria deles para o jornal Le Figaro, onde esteve 40 anos. Aqui fica o tributo. Prenda com destinatário certo.
Quanto ao cartoon-novela, está prestes a estrear o novo género revolucionário da História da blogosfera!! Não percam pitada!!!

Espírito enclausurado

Todas as ideologias criam os seus lugares idílicos. Até as supostamente mais pragmáticas transportam os seus romantismos. Normalmente é a direita que acusa a esquerda de candura e de saudosismo por um tempo que nunca existiu, mas ao qual teima em retornar com esperança de ouvir cantar um certo amanhã. Mas neste caso, o romantismo virou à direita. São dois os paraísos perdidos do liberalismo: o mercado e a comunidade. Sobre o primeiro já discorremos alguns caracteres, faltava falarmos do segundo.
Como se pode ler neste post de AA, a comunidade é a solução para a suposta ineficácia do Estado. Por exemplo, as aldeias despovoadas do interior e os subúrbios superpovoados do litoral são espaços em crise porque, em grande medida, o Estado falhou. Mais propriamente, a escola falhou. No primeiro caso, falhou porque estão a ser encerradas, no segundo porque se densificaram em demasia tanto em número de alunos como em diversidade (social, cultural, étnica). Pelo facto de se terem esvaziado ou por se encontrarem a abarrotar, estes espaços desestruturaram o sentido tradicional de comunidade. As aldeias perderam-no, os subúrbios nunca o vislumbraram. Contudo, apesar da anemia ou da anomia é possível estas populações reencontrarem os laços perdidos, desde que (é claro!) o Estado (leia-se a escola pública) se vá embora.
No caso das aldeias ainda bem que se foi embora, e em relação aos bairros suburbanos não perde pela demora. Saindo o Estado acontece um milagre. Uma espécie de entidade divina (uma mão invisível com tacto social) ligará todas as pessoas por intermédio de um imenso laço comunitário. E por obra e graça desta força transcendente despontarão professores jovens e com iniciativa em aldeias envelhecidas, com vontade de criar escolas para as duas criancinhas residentes. Também os bairros da metrópole conhecerão as benfeitorias desta entidade. Professores de todas as etnias e cores irradiarão de muitas marquises e virão construir a sua escola. Assim, para cada cor teríamos uma escola pintada à sua semelhança, como se fosse um arco-íris. Não é tão harmonioso? Nunca mais as cores destoantes vindas de fora se intrometerão na vida local. Cada galho no seu ramo! E assim os subúrbios transformar-se-iam em grandes aldeias enclausuradas na sua solidariedade e imunes ao exterior. Ficariam tão sossegadinhas que deixaríamos de dar por elas.
É este o mundo perdido dos liberais, que em pleno século XXI ainda pensam a comunidade com o espírito da Idade Média.

Small is hot

António Pires de Lima quer um CDS «sexy». Pelo caminho que as sondagens mostram, oxalá o tamanho não conte.

domingo, março 19, 2006

De algumas paternidades*



O PSD, ao que consta, lá aprovou finalmente as directas internas para a eleição do líder. Pareceu-me ouvir há pouco, num telejornal da SIC-N, Rui Gomes da Silva reivindicando para si uma espécie de paternidade do modelo adoptado pelo partido. Sendo assim, a avaliar pelos jornais de há dois anos, o pai das directas do PSD é um homem que conta no currículo com três anos de fuga a um tribunal por fraude fiscal ou coisa que o valha - os tribunais, coitados, não conseguiram dar com ele durante três anos (três anos!!!!) para o fazerem pagar o que devia - e isto apesar de na altura ter um cargo institucional relevante. Imaginemos o que seria se se tratasse de um comum cidadão - se calhar ainda hoje andava a monte... A adicionar a tamanho feito, registe-se ainda a paternidade do afastamento de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI, por ausência de contraditório. Umas directas mereciam mais digna ascendência... estas directas terão vergonha do papá.
*seguindo a sugestão do Renato, hoje é dia de deixar as guerras de lado e falar um pouco de paternidade - daí este post.

Intervalo

Hoje é Domingo e é dia do pai. É dia se fazer um intervalo no debate ideológico e de aproveitar o pretexto para saborear e celebrar esta felicidade vivida todos os dias. A paternidade está mudar em Portugal e isso também se nota na blogosfera, onde alguns pais (ainda poucos) não sentem qualquer embaraço em expressar o que lhes corre na alma. Podem consultar alguns desses lugares (aqui, aqui e aqui).

Por oportunidades condignas (ou o CPE- Contacto com o Primeiro Embuste)

Um milhão e meio de cidadãos saiu ontem às ruas, em França, culminando uma semana de intensos protestos e mostrando onde está o centro cívico da Europa (os liberais empertigados gostam de se arvorar em campeões da sociedade civil, mas quando ela se manifesta, gritam logo «Deus nos acuda», ai que vândalos, credo, já não se pode ter sossego).
A mola destes protestos está na proposta oficial do CPE (Contrato Primeiro Emprego), que possibilita o despedimento sem fundamento e durante 2 anos de jovens até aos 26 anos. Com o CPE legitima-se uma sociedade dual, não solidária, assente na completa precarização laboral das novas gerações, na degradação do factor trabalho (reforço da lógica do baixo custo, aumento da flexibilidade laboral, funcional, etc.) e na permissão da discricionaridade e arbitrariedade patronais (e, tb., dos colegas, que verão os novatos como funcionários de 2.ª, sem estatuto). É um retorno ao pior da cidade grega, das hierarquias segregadoras (cidadãos; homens até 35 anos; mulheres; escravos; forasteiros), em que apenas o 1.º grupo tinha direito à cidadania (politeia).
A afronta social patente neste cavar premeditado da fractura geracional foi tão evidente que impulsionou um amplo movimento, trazendo à memória de todos (mesmo à dos detractores de serviço) o Maio de 68. Desde logo, por via das afinidades mais visíveis: 1) contestação nacional com visibilidade internacional; 2) estudantes universitários como grupo inicial liderante, com gradual alastramento a outros grupos sociais (no operariado, classes médias, estudantes liceais, etc.); 3) espontaneidade da revolta; 4) forte desconfiança face aos partidos e aos sindicatos.
É verdade que em 1968 o desemprego não era um problema central, mas, mutatis mutandis, é o mesmo quadro de questionamento social e cívico, tendo implícitas 4 dimensões: 1) recusa do primado mercantilista; 2) debate sobre o interesse público (antes, as questões do capitalismo e da guerra, agora a questão das políticas sociais, do emprego e da solidariedade intergeracional); 3) crítica a uma sociedade centrada no consumismo, na qual as novas gerações são vistas como meros clientes descartáveis; 4) recusa do fechamento do espaço público.
Quanto aos habituées de sofá, aos detractores revanchistas ou despeitados, já se lhes conhece o jeito: denegrir para desvalorizar qualquer tentativa de mudança ou de reforma político-sociais. Faz parte do filme, são os figurões de serviço. Foi assim com todas as tentativas de questionamento cívico-social, incluindo com o Maio de 68. Quem pisa não quer que se saiba, por isso diz «chiu, pouco barulho». Sossego. Ordem. Então e o respeitinho?
Há demagogia quando se diz que este tipo de actuação da nova geração duma alegada «classe média estatizante» é o culpado pelos problemas dos guetos suburbanos (e pelos motins de 2005). Os responsáveis são outros: o avanço dum capitalismo cada vez mais obcecado com o lucro imediato, desregulado e sem preocupação social, a demissão dos sucessivos governos face à questão, a cegueira do patronato face à formação profissional e à aposta internacional num mercado com menos dumping social e 'esquemas', a fixação dos sindicatos nos sectores já protegidos, a desvalorização da questão do emprego jovem pelos partidos.
Uma agenda progressista de fomento do emprego deverá passar pelo seguinte: 1) uma oportunidade condigna de 1.º trabalho para todos (com regalias sociais mínimas e alguma estabilidade temporal e geográfica, talvez 5 anos, mas com avaliação a meio e definição de funções e objectivos); 2) redução das assimetrias actuais na carreira profissional entre quem começa e quem meia/finda (o fosso salarial e de regalias atinge o cúmulo no caso da classe docente em Portugal); 3) proibição da acumulação de empregos por pessoas pagas no sector público, que por cá raia o indecoroso (vd. ex. dos turboprofessores, mas tb. dos deputados, etc.); 4) reunião do máximo de recursos para esse fim, através do combate redobrado à fraude e evasão fiscais, aumento de impostos aos lucros chorudos dos bancos (em tempo de aperto de cinto todos devem pagar a factura, não é?), maior controle das contas e empreitadas públicas, mais cortes nas mordomias e benesses de certos grupos hiperprivilegiados.
Não será mais correcto isto do que simplesmente propor fezada no mercado e, nas situações maçadoras, bordoada neles?
Nb: o mapa em baixo é das manifs de 16-3 (imagens AFP, in Le Monde).

sábado, março 18, 2006

A grande sensação da nova temporada

***Teaser promocional***
Estais fartos das mesmas telenovelas choramingonas, com moças vestidas de Verão em pleno Inverno chuvoso, em conversas de costureira num português macarrónico?
Já não sois tocados pelo desfile interminável de fait-divers dos telejornais da janta?
Sem paciência para seriados que saltintam de horário em horário?
Acabou o pesadelo! Eis que chegou o momento por que ansiáveis, um novo género literário-imagético-mediático: o cartoon-novela!!
Preparai-vos para o episódio de apresentação, brevemente, num monitor próximo de vós.


(***: este teaser não dispensa a consulta da restante literatura inclusa no blogue)

Poderá a escola ser um par de sapatos?

A crítica principal a um eventual sistema de ensino totalmente privado tem a ver com a seguinte questão de princípio: poderá a educação ser mercadoria? Para a direita liberal a lógica que está na base da produção e comercialização de um par de sapatos adequa-se a qualquer outro bem ou serviço. Se o par de sapatos tiver qualidade e um preço competitivo terá certamente sucesso num mercado livre, se a qualidade tiver aquém do preço pedido, provavelmente os sapatos não sairão da prateleira. O mesmo se pode aplicar à escola, se o serviço for de qualidade e se adequar aos custos de frequência, a escola terá sempre fregueses.

E qual são os serviços prestados por uma escola? Basicamente, ela tem duas funções que estão indirectamente associadas (pelo menos na escola pública). Por um lado, a escola é uma agente de socialização responsável pela transmissão de conhecimentos, ou seja, pela formação. Por outro lado, a escola detém uma função certificadora. Isto é, cabe a esta instituição certificar as competências dos seus formandos. Essa certificação será essencial para concorrer no mercado de trabalho e para ter acesso a um emprego.
Se encararmos a escola como um par de sapatos, sabemos, à partida, que ao comprarmos os seus serviços, estamos a comprar conhecimento e um certificado (estes passam a estar directamente associados). Como consumidores deveremos ter a liberdade de exigir que a escola não só forme os nossos filhos, tendo por base os conhecimentos que consideramos mais relevantes, como deveremos exigir uma certificação que corresponda ao nível dos custos efectuados. Como não é difícil perceber duas perversões nascem desta lógica mercantil.

A primeira advém de um pressuposto errado, ao considerar que racionalidade da escolha valorizará sobretudo a qualidade do conhecimento e não o nível da certificação obtida. Ou seja, muitos pais poderão escolher dada escola não pela sua qualidade mas porque esta atribui em média notas mais elevadas, de modo a que os seus filhos tenham mais vantagens perante o mercado de emprego. Facilmente cairíamos numa concorrência certificadora, ao invés de uma concorrência assente na prestação de um ensino de qualidade. A segunda relaciona-se com a valorização de certos saberes em detrimento de outros. Tendo por base uma racionalidade mercantil, facilmente as pessoas exigiriam que a escola transmitisse determinado tipo de conhecimento que mais se coadunasse com os requisitos do mercado de trabalho. Muitas disciplinas desapareceriam certamente.
Pode argumentar-se que o sistema de ensino público também estabelece uma seriação e hierarquização disciplinar, mas, apesar de alguns critérios poderem ser questionados, estes não têm por base uma lógica marcadamente mercantil e certificadora. Quando pomos os filhos na escola pública exige-se que eles aprendam e que sejam bem ensinados. Não me parece que perante um sistema totalmente privado a exigência continue a ser só essa. Esta é a perversão maior em transformar a educação num par de sapatos.

Foi mesmo... (um post em diferido, escrito no dia 15 pela hora de almoço, mas sobretudo ainda não tocado pelo encanto da grande urbe moscovita)

O pobre e desgraçado escriba, autor destas descoloridas e miseráveis linhas, escreve-vos neste momento da grande capital russa - essa mesma - a imperial Moscovo. São mais de 10 milhões de almas desenhando os seus quotidianos trajectos numa imensa metrópole enterrada em sujidade até aos tornozelos, essencialmente neve imunda. Ao fim da tarde, grande parte da malta enfia-se em engarrafamentos sem fim e recolhe a passo de caracol à casa que não dá para trazer às costas. A maior parte regressa dos seus empregos enfadonhos, como em qualquer outro sítio, alguns, no entanto, procuram apenas mais umas horas de descanso para poderem voltar já bem frescos, no dia seguinte, à sua actividade preferida: esfolar carteiras a turistas... assim até já só se ver o coiro das ditas.
A estrada que circunda a cidade, chamemos-lhe a 2ª circular cá do burgo (mas mesmo circular), tem só 125 kms de comprimento, o que, a sermos sérios, serve para dar uma ideia da dimensão disto. A Praça Vermelha é, sobretudo à noite, digna de visita. O imenso paredão vermelho e as construções que encerra, tudo intensamente iluminado e contrastando com o aparentemente imaculado (à noite todos os gatos são pardos) manto branco aos seus pés, é espectáculo digno de comer com os olhos uma vez na vida... depois é o costume, aquelas construções de volumetria agigantada, espalhadas por uma cidade onde às vezes, pensa-se, parece que se esqueceram que também cá devia morar gente, tal a ordem de grandeza desses edifícios ou a largura de avenidas emprenhadas de carros até ao umbigo.
Mas pronto, vamos ao que interessa que isto os turistas não passam por aqui para me ouvir patacoadas de viajante sui generis. Vem todo este arrazoado a propósito desta notícia (que entretanto se não verificou). O enterro provisório de Milosevic será em Moscovo. Enterro provisório... Moscovo... subitamente o título de uma notícia é tão certeiro que acerta não só no homem que lhe dá corpo como em toda uma nação, pelas circunstâncias figurada pela gente da sua vastíssima capital. Milosevic vai a enterrar, provisoriamente, por aqui. E ao mesmo tempo, milhões de almas vão a desenterrar, todos os dias, também por aqui... regressam à vida em Moscovo, regressadas dos seus enterros provisórios e sofregamente aspirando todo o ar que conseguem... enterros provisórios em Moscovo... é mesmo... foi mesmo.

sexta-feira, março 17, 2006

A muleta do liberalismo

Os arautos do liberalismo não conseguem resolver uma contradição que subjaz o seu purismo ideológico. Como se verifica por essa blogosfera, quando se trata de dissertar sobre princípios abstractos são desenvoltos e produzem uma argumentação consistente (embora desmontável). Mas quando toca a operacionalizar no concreto, esmorecem o ímpeto e acabam por se esconderem em subterfúgios artificiais sem conseguirem propor nada de verdadeiramente inovador.
Por outro lado, sempre que operacionalizam ficamos a saber que não é bem assim, que afinal o Estado ainda é necessário. O fundamentalismo teórico contra o Estado esbate-se perante a incapacidade em propor uma real e absoluta alternativa ao Estado. É o que se depreende nos posts de AMN sobre o seu sistema de ensino. É fácil produzir um texto em torno dos princípios de liberdade que devem nortear o sistema educativo. Mas quando passa ao modelo concreto, os argumentos enredam-se e parece que emperram. Caro AMN, a duas propostas concretas que apresentas enquadram-se perfeitamente nos programas políticos da social-democracia. Nenhum deles implica a privatização generalizada das escolas públicas. Aquilo que propões não é mais do que coexistência de dois sistemas, como existe actualmente. A única diferença é que no teu entender o Estado deveria aliviar mais a colecta das famílias que inscreveram os seus filhos em escolas privadas. Não discordo. Afinal, no fundo, a liberdade sempre precisa do Estado.

Agruras de uma jovem nação

O Juiz Rui Teixeira vai trabalhar para Timor.

Das hierarquias segregadoras

Vai parecer estranho, mas vou começar por falar do treinador do Benfica, Koeman. Paradoxalmente, é sobretudo enquanto cidadão, e não enquanto benfiquista, que o faço.
Faz hoje escola a ideia de que só devem jogar uns quantos eleitos, mesmo que isso seja contra-producente e injusto, face à sobrecarga de jogos (questão que há umas décadas atrás não se punha) e, acima de tudo, à criação de ambientes segregadores. Assim, tomando o exemplo do futebol, forma-se um plantel com 22-26 jogadores, mas só jogam 11-13 jogadores em todos os jogos. Nada mais errado: nos jogos com os «pequenos» e na gestão das substituições, pelo menos, devia-se tentar rodar o maior número posssível de jogadores, para que todos pudessem adquirir experiência e ter aquela coisa muito singela que é uma oportunidade.
O que está aqui em causa não é tanto «tácticas» mas sim a cedência à lógica das hierarquias segregadoras, ou seja, a de que os mesmo bons têm que ser o menor número possível, uns muito poucos. E não é só por motivos de promoção económica de certos jogadores, desenganem-se.
É porque é assim que se reproduz o pior da nossa civilização, do ethos capitalista, no reificado recurso à separação dos indivíduos em grupos distintos, empurrando para a margem os não eleitos, e isto não em função do seu mérito ou valor objectivos, mas sim de questões de poder e carreira, trocas de favores, discricionaridades e/ou agendas particulares.
Escusado será dizer que esta lógica segregadora não poupa nenhuma actividade humana. E que, por vezes, está onde menos se esperaria. Voluntariamente ou não.
É por essa oportunidade condigna que, por estes dias, os jovens e estudantes de Paris e de França estão a lutar, nas ruas das suas cidades. Por uma polis socialmente solidária e inclusiva. Por uma dignidade que não seja precária e descartável.

Saudades do leitinho estatal

É verdade, meus amigos, nunca mais um copinho de leite me voltará a saber tão bem como o daqueles pacotinhos que o Estado generosamente fornecia e a minha escola primária beirã aquecia e distribuía, a meio da manhã.
Eram uns tetraedros Serraleite e, caramba!, que contributo de peso para o vigoroso crescimento dos lusitos da minha geração (bom, os do ensino privado devem ser os poucos eusébiozinhos enfezaditos que por aí cambaleiam).
O organismo responsável (e autor do cartaz ao lado) era (e é) o IASE- Inst.º de Apoio Social Escolar, que saudamos, daqui deste canto, meio saudosos meio estremunhados.
Pois é, o debate sobre a Escola Pública vai lançado, parabéns ao Renato e aos seus oponentes de A Arte da Fuga, por o terem estribado em alto nível. Pelo andar da carruagem, ainda muito pó será levantado.
Da minha parte, convoco, por ora, uma única questão (que Vital Moreira, p.e., refere amiúde): a actual legislação não proíbe a iniciativa privada de criar escolas, sucede que esta em Portugal o que quer é também 'leitinho' do Estado, neste caso sob a forma de cheques, isenções, edifícios e tudo o mais que puder vir a eito. Mas, hélas, e como salienta o Renato, só pretendem instalar-se onde der lucro gordo (deixo de lado o associativismo e as IPSS, também elas bastante subsidiadas, pois não são as parcerias Estado-associativismo voluntário que estão em causa).

quinta-feira, março 16, 2006

A direita fácil

Aqui está o exemplo claro de um ataque demagogo e pouco sério à escola pública.
Sem comentários!

Escola liberal para alguns

O meu post anterior sobre a escola pública suscitou a reacção de um blogue homónimo mas de direita (aqui e aqui). Apesar de não concordar com quase tudo o que por lá se escreve, é um blogue que prezo porque gosta de discutir e de ir ao fundo das questões. Ora bem, nós cá estamos para isso. Quanto ao assunto em causa. Confirma-se a tendência que refiro no meu post. Ou seja, o discurso liberal (de direita) apropria-se de alguns conceitos caros à esquerda para pôr em causa o modelo da escola pública. Um desses conceitos é o de reprodução. Embora não o nomeiem (porque não cabe na sofisma liberal) ele está presente em toda a sua lógica argumentativa.
Basicamente, a noção de reprodução social nasce de um estudo de Bourdieu que, nos anos 60-70, chama atenção para o facto do sistema escolar premiar aqueles que à partida já adquiriram vantagens culturais e socioeconómicas. Isso acontece porque o ensino, e toda a sua base curricular, se estrutura tendo por base um dado arbitrário cultural que valoriza uma cultura cosmopolita e erudita dominante nos estratos mais favorecidos das sociedades ocidentais.
Ao longo destas décadas, a esquerda apropriou-se deste conceito para criticar a escola pública enquanto agente de promoção (e não de atenuação) de desigualdade de oportunidades. Muitos conceitos como os de escola inclusiva representam uma reacção a essa tendência reprodutora. No entanto, para a esquerda a democratização da escola representa um aprofundamento da escola pública. Por exemplo, o conhecimento transmitido deverá ter um carácter público, isto é, diversificado e nada compartimentado. E o acesso a esse conhecimento deverá ser igual para todos, cabendo ao sistema de ensino garantir as condições para que isso aconteça sem discriminações. Contudo, a forma de o transmitir não deve ser neutral. Como se depreende da análise de Bourdieu, não se pode tratar o diferente como se este fosse igual. As crianças sofrem socializações muito distintas devido à sua situação social, económica, religiosa, étnica… Por isso, deverão ser alvo de estratégias pedagógicas diferenciadas. Esse é o grande desafio da escola pública massificada.
Para a direita liberal a escola pública, como é reprodutora, não garante a liberdade individual de escolha, de pensamento… Por isso, a única forma de salvaguardar essa liberdade é privatizá-la. Só assim ela se tornará diferente e se adequará à procura. Ou seja, o mercado resolve. É o milagre da mão invisível: a solução de todos os males. Só que há um grande problema de fundo, o mercado não é parvo e procurará sempre conseguir o máximo de mais valias. E neste modelo, o mexilhão é que se lixa. Pois, a mão invisível tem um particular tacto pelo marisco de alta qualidade (dos fundos dos mares). Quer lá saber daquele que se agarra às rochas com receio de ser levado pela onda. O que quer dizer que teria sempre de ser o Estado a salvaguardar a escola para os pobrezinhos: as do interior e as dos subúrbios mais degradados. E assim teríamos vários modelos: a escola privada para os ricos, a escola semi-privada (subsidiada pelo Estado) para os remediados, e a escola pública para os desfavorecidos. Estes últimos poderiam sempre ter direito a escolher: bastava enriquecer. Perfeito e simples, não é?

quarta-feira, março 15, 2006

Estou mortinho por ler...


Lançamento é hoje na FNAC do Colombo às 20h.

Postal lunar (de Portugal)

"É verdade que as estruturas organizacionais são ainda muito rígidas e persiste um significativo fechamento de classe na nossa sociedade. O princípio da «meritocracia» que as sociedades ocidentais mais desenvolvidas tanto invocam, ainda não funciona ou funciona escassamente entre nós. Em vez disso, funciona a chamada «cunha» e uma mentalidade algo anacrónica, marcada por traços de servilismo e pelo medo do poder. Esse é, aliás, um aspecto que muito se deve ao peso da igreja católica em Portugal ao longo da história. As relações «clientelares» e o compadrio que prevalece em muitos sectores socioprofissionais e institucionais (inclusive no seio das empresas e dos partidos políticos), são ilustrativos de uma certa forma de paternalismo e dependência face aos poderosos que contribuem para manter o atraso do país. Daí deriva também a falta de autonomia e de sentido de risco dos portugueses. Por isso os nossos níveis de desenvolvimento e de competitividade são tão incipientes em comparação com os países europeus mais avançados. É pois fundamental que as medidas e políticas a pôr em prática tenham em conta, por um lado, a necessidade de reduzir as desigualdades, de incluir os excluídos e proteger os mais pobres, e, por outro lado, dar oportunidades iguais a todos no acesso a recursos, conhecimentos e competências, criando mecanismos de recompensa que premeiem sobretudo o mérito e o esforço de cada um" (Elísio Estanque, sociólogo do CES-FEUC, em entrevista à revista Sábado de 9/2).
Comentários para quê? Quem quiser ler o retrato completo das "Elites e desigualdades sociais em Portugal" pode ir aqui.

Postal solar

Durante toda a semana passada creio que não vi o sol. Por razões de ordem profissional passei os cinco dias úteis da dita enfiado numa sala de uma remota empresa inglesa baseada em Oxford e, acho eu de que, talvez por isso o sol tenha feito questão em não aparecer. Terá pensado o astro: "se aquele magano daquele tuga está para ali enfiado num buraco para que hei-de eu dar-me ao trabalho de aparecer? Isto de sol não é só para inglês ver. Além disso para quem é bacalhau basta!!!".
Entretanto, por uma série de razões que me abstenho de enumerar... ou talvez até não, passo a identificá-las e são três (com a devida vénia ao Octávio Machado):
1)trabalho;
2)trabalho;
3)trabalho;
esta pobríssima alma penada doa-vos hoje estas descosidíssimas linhas directamente de Moscovo. E lá fora, vislumbro daqui pelas tiras escancaradas de uma persiana manhosa, o sol brilha. Moscovo ganha uma cor mais clara e contrastes bem mais definidos. Parece outra, ainda não propriamente bonita, mas ainda assim outra, menos descolorida que nos últimos dias. E muito mais amável, pelo menos até o sol voltar a desaparecer.

terça-feira, março 14, 2006

Pela defesa da escola sou fundamentalista

Os hospitais já capitularam, as telecomunicações só à opa, a electricidade nem vê-la, a segurança social tornou-se muito insegura… falta a escola: é o próximo alvo a abater. Quase todos os dias se fala mal da escola pública. A direita esganiça-se toda para demonstrar que a escola que temos é um desperdício de recursos e que, ainda por cima, é incapaz de educar as nossas criancinhas. As elites nunca lá puseram os filhos. A classe média mais endinheirada faz tudo para se pôr em bicos de pés e prefere depositar os seus descendentes num colégio qualquer, desde que este se chame Coração de Jesus ou de Maria ou de José.
Alguma elite intelectual irrita-se com a generalização dos certificados que, segundo a sua opinião, certificam a estupidez. 'E para quê gastar-se tanto dinheiro para formar tanta estupidez?' 'Acabe-se de vez com isso!' 'Invista-se em bons liceus privados para as melhores famílias e deixemos o resto com os empresários e com os empregadores'. 'Esses é que são a boa escola para quem não pode, nem deve saber mais'.
A batalha contra a escola não é exclusiva da direita. Há uma certa esquerda que sempre revelou desdém e embirração pela escola. Criticam-na por reproduzir o establishment e ser um dos instrumentos de imposição da cultura burguesa. Consideram a escola um espaço que pouco incentiva a imaginação e a irreverência crítica. Procuram um modelo alternativo que nunca encontraram mas que dizem conhecer. Sem dar por isso, por pura distracção ou porque se estão mesmo nas tintas, acabam por dar uma ajudinha à campanha generalizada que pretende privatizar a escola.
É verdade que a escola lidou mal com a massificação. É verdade que a escola deveria promover mais a criação e menos a reprodução. A escola pública está em crise, é um facto. Mas há quem queira transformar essa crise no seu fim. A sua privatização representaria o definhar de um dos últimos pilares do Estado social. Por este motivo, considero que a luta pela escola pública ultrapassa a reivindicação de meros interesses corporativistas de uma profissão que vê perder a cada passo parte dos seus direitos ditos adquiridos. É mais do que isso, trata-se de uma luta ideológica entre dois modelos distintos de sociedade. E como tal não há volta a dar-lhe: ou se está contra a escola ou se está a favor, não há meias tintas!

Hostil ou meiguinha?

Companheiros de bloga, como é?!, lança-se uma OPAzinha sobre a Central Models ou quê?

Os lucros hiperbólicos da banca portuguesa

Cartoon de Plantu, livremente adaptado para o tema em epígrafe (originalmente publicado no Le Monde; retirado do livro Les cours de caoutchouc sont trop élastiques, Paris, Editions La Découverte, 1982).
Aproveitem a deixa, e não percam a caricatura diária de Plantu.

domingo, março 12, 2006

Benfica 0 Naval 0

Porque é que os portugueses, depois de uma estadia em Inglaterra, sofrem sempre de um ataque de snobismo?

sábado, março 11, 2006

Ali Farka Touré para sempre

Morreu na passada 4.ª feira um dos grandes músicos de sempre, Ali Farka Touré. Só ontem à noite soube da triste notícia; apesar da cobertura dos media (destaco E. Monchique e BBC3), o homem merece algumas palavras mais.
Merece saber que a sua música foi e continuará a ser um bálsamo para muitos. Que é única e prodigiosa. Que preenche o coração de quem a ouve. É como um grande rio que nos embala, ao som da sua corrente. Como o rio Niger da sua terra natal.
Articulou como poucos a modernidade e a tradição musicais, do seu país e do mundo, buscando a raiz tradicional norte-africana do blues. Pelo menos, 2 dos seus 8 álbuns ficam como obras universais: Talking Timbuktu (1993) e In the heart of the moon (2005).
Foi também um cidadão do mundo generoso que, depois de glorificado internacionalmente, optou por regressar à sua comunidade de origem e aí partilhar a sua vida, os seus bens e o seu dom artístico.
Deixo-vos com uma das suas melhores músicas deste último disco, «Soumbou Ya Ya», onde dialoga prodigiosamente com o maior mestre da kora de sempre, Toumani Diabaté.
Felizmente, o Mali tem outros grandes músicos que continuarão o seu exemplo (um cheirinho está nesta excelente reportagem da BBC3, de 1989).

quinta-feira, março 09, 2006

Nunca é tarde para começar a tomar chá

Muito triste o comportamento de Mário Soares na posse de Cavaco. Depois de João Soares ter faltado à investidura de Santana Lopes na Câmara de Lisboa e de o próprio Mário ter chamado «dona de Casa» à deputada que o venceu na luta pela presidência do parlamento europeu, começa a parecer que a falta de «fair-play» é um mal de família.

O que faz falta ao país "é acção, mais acção"

Dinâmicas palavras do novo Chefe de Estado no discurso de apresentação, cuja veloz acção é a seguinte:
Quanto ao aviso garrettiano («Foge cão que te fazem barão/ Para onde se me fazem visconde?»), o novo Chefe de Estado também tem resposta pronta:
Enterre-se, então, o passado. Por decreto presidencial.

A grande vitória de ontem faz-nos esquecer a derrota de hoje

O regresso do Incrível Monstro Aníbal (politicirco 2)

Como anunciado, está de regresso o Circo mais esperado de Portugal, com novos artistas e shows ainda mais fantásticos! O artista superdotado que vêem na imagem estreou um show especial, chamado «Eu estou aqui pêra a-ju-dar»!! Reservai já o vosso lugar, amiguinhos, não percais pitada.
(cartoon de G. R.)

quarta-feira, março 08, 2006

O adeus do palhaço Cenourinha (politicirco 1)

Para os mais distraídos, as medalhas a saltitar são só uma amostra dos milhares de comendas distribuídos no grande Politicirco de Portugal.
Durante vários shows, o palhaço Cenourinha foi acompanhado por outros artistas dotados, como o Urso Durito, o Camelopes das 3 Bossas (PPD/PSD/PSL) e o macaquinho PP (um sagui).
Para a próxima temporada, prestes a inaugurar, está previsto um show surpresa, fantástico!
Aguardem só o que o amanhã vos reserva e não se esqueçam: toca a comprar os bilhetes, o espectáculo vai reiniciar dentro de momentos...
Cartoon de G. R..

Balanço do consulado Sem paio

Confrangedoramente institucional. Cinzento cinzentão, como Eanes. Sensaborão. Irrelevante, portanto. Ou indiferente, como preferirem. Bastas vezes penoso para a base eleitoral que o elegeu, reiterando uma tendência da política actual de desfazamento preocupante entre contrato eleitoral, base social de apoio e acção concreta.
Lembram-se dos seus discursos redondos ao Parlamento e às tv's? De tão obtusos e aflitivamente conciliadores não beliscavam ninguém. Era vê-los aos governantes, no dia seguinte, a repescarem a parte do sermão que os absolviria. Por isso, e pela sua absoluta falta de timing, os discursos caíam sempre em saco-roto. O filme era tristemente previsível: a tal «magistratura de influência» sossobrava a cada nova tentativa de reanimação, por visível défice de autoridade.
Dito isto, discordo do director do Expresso ao responsabilizá-lo pela pior década presidencial do pós-1974: o PR em Portugal não é o factor essencial, mas sim o governo, a conjuntura económica e as elites.
Ficou, porém, aquém do que podia e devia: basta recordar a sua corrida a Fátima (para ultrapassar Guterres na recepção ao Papa João Paulo II); o acatamento da sucessão irresponsável Barroso-Santana, que implicou a demissão do político socialmente mais apoiado de então (Ferro Rodrigues) e hipotecou por muitos anos a possibilidade dum líder socialista social-progressista; a incapacidade em substituir um Procurador da República reiteradamente irresponsável, que deixou instrumentalizar politicamente o caso Casa Pia e que o humilhou pessoalmente ao não apurar responsabilidades internas quanto ao «envelope 9» no prazo ditado; a sua fixação no golfe "para o povo" e na selecção de futebol; as comendas a eito e para as elites; o boné ridículo de basebol.
De positivo, refira-se a sua luta por Timor-Leste livre, a sua preocupação com temas centrais (políticas e coesão sociais, educação, saúde, reformas da política e justiça, etc.), a visita a todos os concelhos do país, a criação e o labor do Museu da Presidência. Certas propostas suas foram muito boas e deviam ter sido mais reflectidas pelos governantes e media: combate prioritário à corrupção e à fraude fiscal, remoção do garantismo ao serviço dos poderosos, responsabilização disciplinar de agentes administrativos por falhas graves, extensão do segredo de justiça aos jornalistas, etc..
Atropelou incrivelmente a questão do ordenamento do território ao dizer que o desenvolvimento é-lhe prioritário, enterrando assim o desenvolvimento sustentável num país refém do betão.
Foi uma espécie de Guterres sem beatice e sem obrigações executivas.
Em suma, uma oportunidade perdida de reforço progressista.

PS: bem gostaria de ter exagerado, mas, em cima do acontecimento, é a síntese mais imparcial que me ocorre.

terça-feira, março 07, 2006

UNIPOP (universidade popular): o início de um novo projecto

Se quiser ler as teses orientadoras da UNIPOP carregue aqui.

Com Ele a vida tem mais Sumo

Reza o DN de 2/3 que o actual «Sumo Pontífice da Igreja Universal», Bento 16, abdicou generosamente de 1 dos seus 8 títulos, o de «Patriarca do Ocidente». As más-línguas (leia-se, Igreja Ortodoxa) logo denunciaram uma tentativa de upgrade vaticana, do estilo «Patrono do Universo e arrabaldes», mas é só mau-perder, estroinice, fumaça desavergonhada.
Como bons patriotas, vimos desde já solicitar os bons ofícios do Altíssimo, para que trespasse essa comenda para o nosso Patriarca, o Cardeal-Patriarca D. Policarpo. Sua Eminência tem acumulado pontos: na última homília ordenou respeitinho pelas religiões e por tudo o que vem de cima (vd. dicas aqui). Mais ditou, a blasfémia deve ser perseguida sem dó nem piedade, olarilas. Temos cruzado!
Quanto ao «Vigário de Jesus Cristo», «Primado de Itália» & etc., propomos-lhe 1 novo título: o de «Supra-Sumo da Batata-Frita».
PS: caricatura de G. R..

segunda-feira, março 06, 2006

O supra-Sumo da batata-frita

O Papa e o seu descarte do título
de «Patriarca do Ocidente»,
visto por G. R..

Vira o disco e toca o mesmo

Ó Nuno, muda lá o tema que meu pequenote passa o dia inteiro a cantarolar "quando eu morrer dêem-me rosas".
Mas podes continuar com o Fausto.

O mérito em ser global

Os filmes premiados na noite dos Óscares são o exemplo paradigmático de como não se pode olhar para a América a partir de uma só perspectiva. Muita esquerda militante confunde a crítica ao imperialismo com anti-americanismo. Não são posições sinónimas (longe disso!). Nem tudo o que vem dos EUA é imposto tendo por base o poder económico e (ou) bélico. Por exemplo, em termos culturais o país é um mosaico onde fervilha uma imensidão de estilos e de estéticas que se expressam por intermédio dos mais variadíssimos modos de ver o mundo (e de se verem no mundo). Alguns destes estilos impõem-se como produtos comerciais servidos por uma poderosíssima indústria cultural. Mas outros tornam-se incontornáveis pela sua qualidade e irreverência, impondo-se à indústria que se rende e se vende aos seus requisitos. Os dois filmes vencedores (‘Colisão’ e o ‘Segredo de Brokeback Mountain’), para além de deslumbrarem têm a capacidade enterrar o dedo em certas feridas bem profundas, com uma subtileza admirável e marcante. Ambos vêm do cinema dito independente, mas ontem foram enlaçados pelo sistema e transformaram-se em ícones da globalização americana. Serão vistos por muitos mais milhões de pessoas porque ganharam Óscares. Mas não é isso que faz esvanecer a sua beleza e a sua singularidade. Pelo contrário, neste caso, a globalização advém do seu mérito. E, por este motivo, tornam-se obras ainda mais universais.

domingo, março 05, 2006

Mega-errata gastronómica

Anuncia o DN de 6.ª, trapalhonamente, que "PS/Porto - Renato Sampaio avança para a distrital em megalmoço".
Podemos desde já afiançar que esta notícia é totalmente falsa, devendo ser alterada para: "PS/Porto - Renato Sampaio avança para a distrital em melgalmoço".
Está corrigido, então, o erro de palmátória.
Tanta distracção, caramba!

PS: Feita a emenda, cuidado com a comenda!!

sexta-feira, março 03, 2006

Estado de sítio... menos para o meu sítio no Estado

Domina na imprensa e na blogosfera a retórica fácil e simplista contra o Estado Social. A propósito de qualquer estatística ou de um índice menos positivo, lá vêm os arautos do liberalismo a apontar o Estado de ineficácia, de gerar desigualdades, de fracasso… Maternidades e hospitais, escolas e universidades, tribunais, repartições... Tudo é corrido a eito, tudo funciona mal. Quando os leio, ponho-me a pensar o que seria de parte desta gente se não fosse o Estado Providência. Muitos deles nunca foram mais do que funcionários públicos a vida inteira. Optaram por uma carreira segura nos escalões públicos e jamais se aventuraram no sector privado. O Estado sustenta-lhes a liberdade de poderem reflectir, comentar e opinar sobre os malefícios do próprio Estado. E esse é um dos pilares básicos da democracia que alicerça todo o sistema público. Se pertencessem aos quadros de uma universidade ou de uma empresa privadas, tenho dúvidas que criticariam os accionistas da mesma forma como arrasam o Estado Social. Esta é uma diferença fundamental, que descuram a cada passo, apesar de serem os seus maiores beneficiários. O Estado garante-lhes o direito de serem livres, e ainda bem que é assim! Talvez, por isso, se achem intocáveis, visto terem as suas carreiras asseguradas. Assim podem proclamar à vontade a destruição do Estado Social, pois sabem, à partida, que isso nunca os afectará.

Alguma vez esteve dentro?

Crime económico está fora das prioridades da Polícia Judiciária.

quinta-feira, março 02, 2006

Completamente ao lado

A posição do ministro português dos negócios estrangeiros em relação às caricaturas de Maomé merece críticas, nomeadamente, de falta de intransigência. Mas Freitas é mesmo assim, um conservador, como o mostrou a sua oposição à guerra do Iraque. Umas vezes isso é bom, quando se trata de exigir legalidade para certas operações, noutros é péssimo, porque se deixa dominar por um bom-senso atrofiante que o faz perder o essencial de vista. Agora, não deixa de ser anedótico ouvir a direita portuguesa acusá-lo precisamente da última coisa de que se pode acusar Freitas. Para o CDS-PP, o ministro é um «parlamentar radical». Tanta coisa feia para chamar ao homem e logo tinha que ser esta que é a mesma coisa que dizer que Cavaco é um tagarela ou que Soares adora dossiês. Que belo seguro de vida Sócrates arranjou.

Brokeback Mountain (os homens que subiram uma colina e desceram uma montanha)


Algum cinema de Ang-Lee tem uma força que apelidaria de serena. Algo que vai crescendo, em lume brando, e quando damos por ela é um bloco coeso que se manifesta já plenamente na tela. Tempestade de Gelo era-o de certa maneira. Este Brokeback Mountain é-o também. No final, aquele amor não tem género. É amor de pleno direito (e porque não haveria de o ser?) com tudo o que isso implica de sobrenatural, sobrehumano (ou tão somente «profundamentissimamente» - perdoem o combóio - humano). Brokeback Mountain ergue-se entre dois homens como As Pontes de Madison County se ergue entre um homem e uma mulher. Que seja assim mesmo, uma montanha para uns e uma ponte para outros, é apenas uma ironia que ainda reflecte muito dos nossos tempos, muitas das latitudes e longitudes de pensamento dos nossos tempos... mas enfim, há 40 anos Brokeback Mountain seria eventualmente muito maior do que é hoje. Ou estava mais longe.

Caramba (não, este post não é sobre Jorge Sampaio)

Pois é pois é, julgávamos nós sportinguistas que o título vinha aí a caminho, que isto era coisa de mais umas quantas jornadas e estava no papo, enfim, que as favas estavam contadas e bem contadas e dessem os outros lá as voltas que quisessem o campeonato já era nosso. Por uma questão de elementar justiça, como é óbvio. Mas agora uma sombra enorme volta a pairar sobre tão sólidas certezas. Agora uma ameaça real sobre nós se abate. É simples senhores: Vitor Baía está com uma gastroenterite e talvez não jogue nos próximos jogos.
Caramba!
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