sexta-feira, março 17, 2006

Das hierarquias segregadoras

Vai parecer estranho, mas vou começar por falar do treinador do Benfica, Koeman. Paradoxalmente, é sobretudo enquanto cidadão, e não enquanto benfiquista, que o faço.
Faz hoje escola a ideia de que só devem jogar uns quantos eleitos, mesmo que isso seja contra-producente e injusto, face à sobrecarga de jogos (questão que há umas décadas atrás não se punha) e, acima de tudo, à criação de ambientes segregadores. Assim, tomando o exemplo do futebol, forma-se um plantel com 22-26 jogadores, mas só jogam 11-13 jogadores em todos os jogos. Nada mais errado: nos jogos com os «pequenos» e na gestão das substituições, pelo menos, devia-se tentar rodar o maior número posssível de jogadores, para que todos pudessem adquirir experiência e ter aquela coisa muito singela que é uma oportunidade.
O que está aqui em causa não é tanto «tácticas» mas sim a cedência à lógica das hierarquias segregadoras, ou seja, a de que os mesmo bons têm que ser o menor número possível, uns muito poucos. E não é só por motivos de promoção económica de certos jogadores, desenganem-se.
É porque é assim que se reproduz o pior da nossa civilização, do ethos capitalista, no reificado recurso à separação dos indivíduos em grupos distintos, empurrando para a margem os não eleitos, e isto não em função do seu mérito ou valor objectivos, mas sim de questões de poder e carreira, trocas de favores, discricionaridades e/ou agendas particulares.
Escusado será dizer que esta lógica segregadora não poupa nenhuma actividade humana. E que, por vezes, está onde menos se esperaria. Voluntariamente ou não.
É por essa oportunidade condigna que, por estes dias, os jovens e estudantes de Paris e de França estão a lutar, nas ruas das suas cidades. Por uma polis socialmente solidária e inclusiva. Por uma dignidade que não seja precária e descartável.

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