segunda-feira, julho 31, 2006

Amar dentro do peito uma donzela

Amar dentro do peito uma donzela;
Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela:

Fazê-la vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertá-la nos braços casta e bela:

Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:

Vê-la rendida enfim a Amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que há no mundo.
Nb: in Poesias eroticas, burlescas e satyricas de M. M. de Barbosa du Bocage, não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno passado de 1853, Bruxelas, 1854; localidade suposta, como é fácil de crer; nas mesmas circunstâncias se fez outra edição em 1860; deste volume também houve uma contrafacção na Baía em 1861, igualmente clandestina.

domingo, julho 30, 2006

De como degradaram o Rivoli para o privatizar

Ainda sobre o Rivoli, note-se que a crítica à sua privatização contrapõe que esta estrutura tinha uma programação plural consistente e investimentos de médio prazo, podendo estar agora em fase de consolidação, não fosse a actual política cultural populista de Rui Rio, qual bulldozer imparável.
Vem agora o anterior vereador da cultura de Rui Rio, Marcelo Mendes Pinto, criticar esta proposta de privatização e dizer que smpre se demarcou da estratégia de degradação da CulturPorto, donde foram demitidos peritos com provas dadas, em favor duma liderança por uma engenheira alimentar, pasme-se! Só lhe fica bem. A sua argumentação vale ser citada e reflectida:
"A decisão da Câmara Municipal do Porto de entregar a privados a gestão do Rivoli-Teatro Municipal constitui um acto político que me parece profundamente errado e com consequências graves para o presente e, sobretudo, para o futuro dos cidadãos do Porto. [..] em primeiro lugar, evidencia a ausência de uma estratégia [..], de uma política cultural que a Câmara deveria reclamar como sua, e que neste sector se basearia na divulgação, no estímulo e no apoio da criação artística em todas as suas expressões, na tentativa de atingir públicos amplos e diversificados, na formação desses mesmos públicos e dos próprios artistas, enfim, essa política deveria prosseguir o desenvolvimento cultural do Município, e mesmo de toda uma região de que o Porto se reclama lugar central. É ao fomentar os intercâmbios nacionais e internacionais que se alargam os horizontes culturais e que se alcança o cosmopolitismo que faz a diferença com o provincianismo serôdio em que nos debatemos. Em segundo lugar, parece-me que esta decisão deriva da não compreensão de um conceito básico, a distinção entre cultura e lazer. Ao entregar a gestão do Rivoli-Teatro Municipal a privados, a Câmara Municipal do Porto estará a transformar o mais importante equipamento cultural da cidade em mero pavilhão recreativo".
A análise da ofensiva destrutiva prossegue no relato de João Alpuim Botelho (ex-membro da CulturPorto). Começa-se assim a perceber melhor que este assunto não é reduzível a uma contenda paroquial entre PS e PSD pela luta de lugares, por demonstrar a existência duma política de terra queimada face ao legado socialista para a cultura lado a lado com a imposição dum lazer mercantilizado e populista no seu lugar. É aqui que bate o ponto. É isso que urge debater: que política cultural temos nas nossas cidades, que política cultural queremos para as nossas cidades?
Dito isto, é claro que as parcerias público-privado podem ser estimuladas, mas não à custa da destruição de investimentos públicos de médio prazo (era o caso evidente do Rivoli) e não sem ter subjacente uma estratégia cultural bem definida, transparente, publicitada e debatida no espaço público.

sábado, julho 29, 2006

Poema

Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar
António José Forte
(in Poemas de amor e abandono, Coimbra-Castelo Branco, Alma Azul, 2002, p. 55)

sexta-feira, julho 28, 2006

Memória cívica e memória parlamentar (divulgação)

Depois da romagem ao Aljube e da visita à ex-sede da PIDE/DGS no Porto, o movimento cívico Não Apaguem a Memória! prossegue com as suas iniciativas, tendo ontem sido recebido pelo Presidente da Assembleia da República. Para mais informação vd. o seu novo blogue.
Nb: a imagem é o logotipo da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, que os apoiou durante a ditadura de Salazar e Caetano.

Lotes!

-Watts!!!
-Ah, roulotes.
-Ni, ni.
-Hã... lot's?
-Potes!!
-Potes.
-Lotes?
-Lotes.
-Lotes óve laite?
-Meibi.

What's?


quinta-feira, julho 27, 2006

Onde habita o trovão -9

Alvoraçam-me essas casas que primeiro
se erguem dessa névoa de sulfato.
É numa dessas que mora dinamene,
a de insonoro caminhar, leve cântaro
à cabeça, ar de puma ou de gazela
bebendo pelo cachimbo do poente
a prata enegrecida das estrelas.

São adivinhas as marcas que deixam
os seus pés por essas veredas
que um estrépito de maromba agora cobre;
embora durmam ainda os pastores
nesses interiores mergulhados em fuligem.

Os lentes galos
salmodiando a oblíqua indecisão do azul,
espavoram ainda às horas de antigamente.
Mas de dinamene nem o eco minguante
do seu voo, embora nos cimos enevoados
avulte o derramado oiro dos cabelos.

Espantam-me ainda essas casas ardendo
pelo equinócio, seus muros de verde hera,
a névoa de muitos dias. É ao desabrigo
das álgidas madrugadas que a elas regresso,
quando a tenaz do desamor adeja sobre
os errantes rios do coração.
José Luís Tavares, Paraíso apagado por um trovão
(2.ª ed., Cidade da Praia, Spleen Edições, 2004 [or. 2003], p. 21)

quarta-feira, julho 26, 2006

Pelo Rivoli, por uma cidadania cultural

Na sequência da ameaça de privatização do Teatro Municipal Rivoli pelo edil do Porto, Rui Rio, surgiu o movimento de contestação Juntos no Rivoli, o qual lançou uma petição na Internet pela defesa deste serviço público e que já tem c.7 mil assinaturas, além de ter organizado uma sessão de protesto.
É inquietante, sobretudo, a persistência deste preconceito que vê a política cultural como uma flor na lapela e não como eixo estruturante duma política de qualificação urbana e cívica. Esta privatização estava prevista no programa eleitoral do actual edil, dentro duma visão de política cultural para a cidade, ou é tão-só o reconhecimento (mercantilista) da ausência de política cultural para a 2.ª cidade do país?
O TEP exilou-se, o Centro Português de Fotografia está ameaçado de extinção (aqui por culpa do governo, mas com a passividade do município), o Soares dos Reis apanha pó, as festas são uma corrida ao foguetório para ver quem lança mais canas, o Fantasporto ameaça acabar por falta de condições, etc., etc. Que é feito do impulso do Porto 2001?

Jazz com genica e humor

Biréli Lagrène no Montreux Jazz Festival (2002)

É o maior virtuoso da guitarra actualmente vivo, sem dúvida. Ainda por cima, toca músicas bonitas e alegres, que mais podemos esperar dele? Biréli Lagrène merece o título de «novo Django», pois é um digno sucessor de Django Reinhardt, tendo muitas semelhanças com o seu mestre: tb. ele é cigano (tem inclusivamente um grupo chamado Gipsy Project), nasceu próximo do belga (em França), é virtuoso sem esquecer o improviso, tem gosto pela vivacidade e uma paixão pelo jazz. Ora escutem este «Daphne» 'vienense', com o acordeonista Richard Galliano.
Eu preferia ter colocado «Nuages», mas o vídeo está fanhoso, tal como o do «guitar solo». Quem quiser conhecer um improviso virtuosístico ao desafio com o tb. digno sucessor de Stéphane Grapelli é ir ver este excerto do Jazz em Viena 2000. PS: Lagrène deu um concerto inesquecível no Fórum Lx. há 20 dias atrás, alguém gravou?

terça-feira, julho 25, 2006

Geração de Abril

A revolução ainda só lhe deu um terço.

Estavam mesmo a pedi-las, ou Luciano e a sua cruzada purificadora

Não, não é sobre a enésima guerra do Médio Oriente, sobre isso já se disse o que havia a dizer.
É sobre uma jihad mais chã e prosaica, a do Luciano Amaral, cujo alvo predilecto é, agora, tudo o que lhe cheire a vermelhão para lá dos Montes Hermínios, começando no belzebu Zapatero e acabando nos malandros da II República espanhola, uma tenebrosa ditadura desde que Estaline aí desceu, qual Diabo reencarnado nos grevistas e outros cidadãos pró-eleições de 1934.
Sobre a traulitada que estes apanharam na sua última crónica do DN nada como ler este delicioso post de Alexandre Andrade (aí se faz tb. uma resenha extra da generosa chumbada amaralista dirigida a outros malandros da História contemporânea). A resposta mais certeira às diatribes revisionistas do Luciano é dada neste post do Miguel Madeira.
O debate e a reflexão prosseguem aqui (MM), aqui (BCR) e aqui (CL); resenha da revolta de 1934 e links a ler aqui. Adenda: vd. tb. tx. de JPP aqui (23/7).

segunda-feira, julho 24, 2006

Ruy Jervis Athouguia, uma ode à integração luminosa

Um dos melhores arquitectos portugueses de sempre, Ruy Jervis Athouguia, faleceu na passada 6.ª feira, aos 89 anos.
Enqt. modernista preocupado com a harmoniosa integração dos seus edifícios esteve sempre atento à relação dos citadinos com o espaço urbano e a luz. Athouguia foi um farol em tempos adversos, 1.º, de ditadura enleada num tradicionalismo serôdio, depois, de avareza e pato-bravismo.
Da sua obra luminosa, destacam-se a sede da Fundação Gulbenkian (1959-69, a meias com Pedro Cid e Alberto Pessoa), as escolas primárias do B.º de São Miguel (1949-53) e Teixeira de Pascoaes (1956-61) e o Liceu Pe. António Vieira (1969-65), todos em Lx., além de algumas vivendas em Cascais, onde residia. Para o fim, fica a obra para mim mais emblemática: o Bairro das Estacas (1950-55), em parceria com Formosinho Sanchez e pela qual recebeu o Prémio da Bienal de São Paulo de 1954.
O B.º das Estacas não tem frente nem traseira, apenas prédios baixos e compridos assentes em estacas, e espaço, luz e verde. É uma onda marítima, uma brisa dentro da cidade, uma ideia que, de tão familiar, esquecemos por vezes escassear ainda. É um poema que nos legou, uma ode ao urbanismo humanizado.
Hoje, os novos condomínios de luxo são feitos parasitando os poucos jardins públicos que ainda sobram, não acrescentam verde, nem cidade, nem espaço público. É o reino do betão sem inspiração nem integração, acrítico e preguiçoso.
Em 2003, foi-lhe dedicada uma exposição monográfica no Pal.º Galveias (CML), comissariada pelos arquitectos Ricardo Carvalho e Joana Vilhena.
O seu espólio foi depositado no Arq.º Hist.º da CML em 2001, mas permanece inacessível ao fim destes anos todos. Faria melhor a CML em investir nos homens que deram luz e vida à cidade e no seu património cultural, em vez de gastar rios de dinheiro com flores na lapela estilo Frank Gerry e túneis megalómanos chamarizes de mais trafêgo automóvel. Afinal, até o próprio Parque Mayer, apenas com meia dúzia de concertos da EGEAC e uma revista, conseguiu renascer em Junho. E se nele abrissem uma esplanada com concertos ao ar livre, um acesso ao Jardim Botânico e restaurassem o Capitólio, em vez de estarem a estoirar o orçamento dos munícipes em mais betão excessivo e pretensioso?
Nb: fotos do Arq.º Fot.º da CML (as 1.ª e 2.ª de Armando Serôdio, a 3.ª de Mário de Oliveira); mais informação aqui e aqui (referências aos inspiradores Frank Lloyd Wright e Alvar Aalto).

domingo, julho 23, 2006

Fidelidades


Regressaram quase na mesma semana com dois albúns maiores. Aliás, não seria de esperar outra coisa, pois, que eu saiba, nunca fizeram nada menor.
Felizmente, ainda há homens assim!

sexta-feira, julho 21, 2006

Ars erotica

Mastro. Moca. Músculo.
direito à loca; à mina;
demorando-se embora
nos recôncavos onde o suco se oculta.

Redivivo lázaro, por paraíso tem
essa ínsula de grama, desencantada
floresta. Esguichantes passarinhos, porém,
alberga, réstia de divindade.

«Zona hiperbórea»?!
«Porta hermética fechada nos gonzos»!?
Talvez meu bom drummond;
mas vasto matagal também;
se encrespando na hora funda, seminal:

lá vão mastros, navios veleiros,
gritos que o cronista não regista
- pobre matéria deste poema
que não cheira a «enxofre da lascívia»,

mas a despetalada flor dessa mata
purpurina, onde não bate luz
nem onda que em marítima linguagem
de preia-mar se denomina.


José Luís Tavares, Agreste matéria mundo
(Porto, Campo das Letras, 2004, p. 149)

quinta-feira, julho 20, 2006

Temos o prazer de vos apresentar o último romântico, Terence Trent D'Arby

É um grande músico, mas azarado: surgiu quando explodia já o tb. talentoso artista Prince, pelo que foi sendo ofuscado, ele que é lunar.
Terence Trent D'Arby nasceu no Harlem (N. Iorque) em 1962, e foi expulso da tropa, na RFA (1985). Pouco depois, lança Introducing the hardline according to Terence Trent D'Arby (1987), um êxito imediato graças à balada «Sign your name», além doutras canções cheias de energia, soul e R&B.
Em 1995, e após 2 bons lp's mal acolhidos, sai o brilhante Vibrator (vd. videoclip em baixo, dum concerto ao vivo em Londres). É a sua melhor fase artística, aliando lirismo tocante e energia orgasmática. Junta-se aos INXS em 1999, substituindo brevemente o seu amigo (entretanto falecido) Michael Hutchence.
Em 2001, muda de nome legal e artístico para Sananda Maitreya, vem para a Europa e envereda por uma via espiritual pessoal, conciliando descoberta individual, amor, paz e harmonia. Desde então trabalhou no álbum Angels & vampires (vol. 1 de 2005, vol. 2 de 2006). Ainda não deu para perceber se é tão bom qt. aqueles, quem quiser comparar pode ir ao seu site e ouvir amostras.
Este gato sarado vive agora em Itália, com uma bela italiana, sorte a dele. Sorte a nossa, tb., por termos o privilégio de admirar a sua arte.
A balada que aqui se mostra é uma das melhores canções de amor das últimas décadas. Se não acreditam, vão espreitar...

Holding on to you
I left the east side for a west coast beauty
A girl who burned my thoughts like kisses
She was down by street decree
She swore she'd pull my best years out of me
Fat painted lips on a live wire beauty
A tangerine girl with tambourine eyes
Her face was my favourite magazine
Her body was my favourite book to read
They say that all poets must have and unrequited love
As all lovers must have thought provoking fears
But holding on to you means letting go on pain
Means letting go of tears
Means letting go of rain
Means letting go of what's not real
Holding on to you
I left the rough side for a seaside baby
A chamomile smile that pouts on cue
For every moment I breathe her sigh
Her bosom contains my sweet alibi
In an emotional mist she breathes in fog
And breathes it out as garden flowers
Why me of all the tough talking boys?
I guess she heard my heartbeat through the noise
They say that all poets must have an unrequited love
As all lovers must have thought provoking fears
But holding on to you means letting go of pain
Means letting go of tears
Means letting go of the rain
Holding on to you
Means letting sorrows heal
Means letting go of what's not real
Holding on to you
They say that all poets must have an unrequited love
As all lovers I'm sure must have thought provoking fears
But holding on to you means letting sorrows heal
Means letting go of what's not real
Holding on to you
I left the east coast for a west coast beauty
A woman who burned my thoughts like kisses
She was down by street decree
She swore she'd pull my best years out of me
Fat wet lips on a sea salt canvas
Goodbye Picasso hello Dolly/Dali
The soil is fertile where her footsteps trod
She's my new religion she's all I got
They say that all poets must have an unrequited love
As all lovers I'm sure must have thought provoking fears
But holding on to you means letting go of pain
Means letting go of tears
Means letting go of rain
Means letting sorrows heal
It means letting go

quarta-feira, julho 19, 2006

Assumir o erro

O anterior ministro David Justino cometeu um erro grave na regulamentação do concurso de professores do qual nunca assumiu a responsabilidade. A actual ministra, e respectiva equipa, prepara-se para minimizar o erro e sacudir a água do capote. No entanto, entre estes dois ministros há uma diferença fundamental, apesar de arrogante, David Justino soube aproximar-se dos sindicatos, de tal modo que estes se tornaram parceiros essenciais para a resolução do problema. Maria de Lourdes Rodrigues afastou-se irremediavelmente dos sindicatos e dos professores. Por isso, irá ter muita dificuldade em gerir esta crise senão assumir directamente a responsabilidade.

terça-feira, julho 18, 2006

Saída para a crise Israel/Líbano: apoiar a ONU na aplicação da resolução 1559

No actual conflito que opõe Israel ao Hezbollah (e ao Líbano?) é óbvio que Israel tem a razão do seu lado, sendo o único aspecto inaceitável a provável tomada de civis como alvos e a desporporção na resposta (vd. como raptos doutros soldados, nos anos 70, não deram direito a este tipo de resposta). Ambos os pontos foram já referidos pela ONU aqui.
Eis os principais factos contextualizadores: de 12 a 18/7, o norte de Israel foi atingido por c.700 mísseis lançados pelo grupo xiita libanês Hezbollah, causando a morte a 12 civis; a resolução 1559 da ONU (de 2000) ordenou a deslocação do exército libanês para o sul do Líbano (consumada que estava a retirada do exército israelita) e o desmantelamento militar do Hezbollah, o que ainda não foi feito, passados 6 anos! Para abrilhantar a festa, o Hezbollah só aceita "um cessar-fogo incondicional" (fonte: LUSA).
Dito isto, é tb. óbvio que quem está agora à frente em Israel são falcões e que a situação de ocupação de territórios e de inviabilização da Palestina é injustificável e uma das causas principais do reforço do fundamentalismo na região, sobretudo no seio dos palestinianos, mas que não nos deve fazer esquecer a corrupção instalada na OLP, a atitude destruidora da Síria e do Irão (que irrompeu logo no imediato pós-independência de Israel decretado na ONU), etc..
O exército israelita prossegue a sua contra-ofensiva contra os fundamentalistas do Hezbollah e esperemos que isto não seja o início duma nova guerra regional, pois acarretaria consequências imprevisíveis para o resto do mundo.
Entretanto, perante as centenas de mortos, as dezenas de milhares de deslocados e o sofrimento e angústia de milhões de pessoas, a única coisa que Blair e Bush fazem é assobiar em voz alta, em vez de dar total apoio à ONU e ao seu sec.º geral, que, mais uma vez, são quem tem as soluções sensatas para as crises internacionais. Com efeito, Kofi Annan apelou a uma trégua e preconizou o envio duma "força internacional de estabilização" para o sul do Líbano, onde impera sem rei nem roque o grupo xiita libanês Hezbollah, isto desde a retirada militar israelita em 2000!
Perante isto há quem goste de se concentrar no anedótico e omitir o essencial. Mais tarde, virão novamente alertar-nos para uma acção terrorista noutro qualquer ponto do globo, em regulares impulsos securitários e descontextualizadores.

Este é o post 600

Chegámos até aqui com muita seriedade e respeitinho. Somos muito polidos e limpinhos. Também gostamos de engomar e de lavar a loiça. Não se está mesmo a ver a responsabilidade...

Desabafo oco

Depois da catarse do futebol o país esvaziou-se e tornou-se ainda mais insuportável.

O beco sem saída de Blair (impressões de Londres V)

Para finalizar o balanço do consulado de Blair falta avaliar a sua política externa. Numa evolução normal, esta apenas ficaria nos anais da política local, mas 1 facto inesperado surgiu: a decisão de envolver o seu país nessa perigosa aventura bushista de invasão do Iraque. Pior: Blair alinhou cegamente com os falcões de Washington, fraccionando a Europa e o mundo dum modo perigoso e adiando o aprofundamento europeu. O Reino Unido continuou a sua política ambígua de jogo em 2 tabuleiros (EUA e Europa), comprometendo o reforço da União Europeia enqt. interlocutor internacional e dinamizador da paz e da democracia, do desenvolvimento sustentável, do comércio justo, e exemplo de espaço de bem-estar para todos assente em Estados-providência com programas de protecção social básicos.
Blair aceitou ser o Iznogoud de Bush, célebre personagem duma BD que fazia de frenético grão-vizir servidor do califa de Bagdad. A única diferença é que Blair nunca ambicionou ser califa no lugar do califa, apenas manter-se grão-vizir (mas não desgruda, já vai no 3.º mandato e, apesar da crise política e moral em que envolveu o seu partido, está agora no jogo do diz-que-dá-lugar-a-outro-mas-não-dá).
Como hoje se sabe, e na altura muitos denunciaram, a invasão do Iraque foi um embuste, não havia qualquer ameaça séria qt. às apregoadas armas de destruição massiva, não houve qualquer empenho consistente em democratizar o Médio Oriente, a guerra civil larvar instalou-se no Iraque (e, possivelmente, na Palestina e no Líbano), o terrorismo fundamentalista islâmico encontrou novo élan para a sua intolerância destruidora, a autoridade democrática foi corroída com sequestros selvagens (em Itália), com casos de tortura (no Iraque e nos voos da CIA que sobrevoaram a Europa) e desrespeito por convenções internacionais (a de Genebra, no caso de Guantánamo). O objectivo era dar um sinal de quem continuava a mandar no mundo, independentemente da existência dum problema real e grave no terrorismo religioso. Porém, foi pior a emenda do que o soneto.
O unilateralismo discriccionário vingou, em prejuízo do multilateralismo e da concertação de esforços nos fóruns próprios, como a ONU e os tratados internacionais, além de ter ajudado fortemente ao bloqueio dum espaço, o europeu, que poderia ter contribuído para alternativas válidas, consensuais e construídas.
Daí que o balanço da política de Blair só possa ser defraudante.
(c) cartoon de Steve Bell, «Allowed on the couch» (The Guardian, 2006).

segunda-feira, julho 17, 2006

Verão quente

Mais de 30 graus, o que é que vamos fazer com as crianças antes que torrem em casa? Vamos à praia, é claro! O pior é que neste fim-de-semana todos os arrabaldes lembraram-se de fazer o mesmo e rumaram para a linha ou para a costa. Escusado será dizer o que passámos até chegar ao minúsculo rectângulo de areia que ainda conseguimos ocupar. A praia transbordava de gente que se acotovelava para poder molhar o pezinho. A aglomeração era tal que mal conseguimos esticar as toalhas. Fomos quase empurrados para um delírio colectivo em que toda a gente se esganiçava ao sol à procura de não sei bem o quê, provavelmente, à procura de uma sombra (da sua!?!). Estranho este país que perdeu o espaço público nas praças e largos das cidades e recauchutou-o na periferia das grandes aglomerações comerciais. No Inverno o português vai ver montras e no Verão vai a banhos. A diferença é que tanto num caso, como noutro o espaço individualizou-se, basicamente as pessoas amontoam-se à procura do último modelo de qualquer coisa. Não interessa o quê, desde que seja o último modelo… para ver, para experimentar antes de comprar (se alguma vez o comprar). Entre o Verão e o Inverno permanece o doce e amargo lar. Um lar esbaforido de calor que nos faz correr para a praia à procura da leveza de uma brisa que alivie a transpiração por uns breves instantes. E depois temos de regressar… Felizmente o carro tem ar condicionado. Fechamos as janelas e só voltamos a abri-las quando finalmente fecharmos a porta de casa.

Indícios de caos - 5

Por valado, ribanceira, lá vai o poeta,
de trotineta, ave perneta no pino
do estio, animal quase ladino,
em vagares galináceos, assesta

o monóculo, abre a selecta, recita:
já meu talento levou o duro vento,
sou agora o homem sem nada dentro,
marçano do cri-cri já pronto pra sebenta.

Mas feliz o que abraça a fórmula pronta,
a esse não há-de sujar as mãos
o lodo que denuncia o crime; será então

marchand doutra mais glabra arte
(tu aqui feito mono de plantão,
josé, entretido em fisgada vã).
José Luís Tavares, Agreste matéria mundo
(Porto, Campo das Letras, 2004, p. 71)

sábado, julho 15, 2006

Projecto Gutenberg digital (35.º aniv.º)

Enquanto é tempo, sugiro uma visita à World eBook Fair, o maior espaço virtual de livros digitais (mais de 300 mil livros em 100 línguas), e com descarregamento gratuito durante o mês da feira (4/7 a 4/8), uma prenda comemorativa do 35.º aniv.º do Projecto Gutenberg.
Como adianta Ana Gomes, entre os mais de 50 títulos em língua portuguesa, encontram-se obras de Camões (Os lusíadas), Camilo (p. ex., Amor de perdição), Eça (A cidade e as serras, A relíquia e As farpas, com Ramalho Ortigão), Florbela Espanca (Livro de mágoas), Cesário Verde (O livro de Cesário Verde), António Nobre (), Júlio Dinis (Uma família inglesa), Garrett (Frei Luís de Sousa) e Fernão Lopes (Chronica de el-rei D. Pedro I). Aproveitem!

sexta-feira, julho 14, 2006

Blogues sobre livros e leitura

Sem qq preocupação de exaustividade, aqui listo blogues sobre livros e leitura que entretanto mirei e que me pareceram úteis em termos informativos. Grande parte deles são novos, o que demonstra a vitalidade desta área, da blogosfera e dos blogues temáticos, sendo que estes parecem estar, saudavelmente, a ganhar terreno.
(c) reprodução do quadro «On the map» (1937), de William Coldstream.
Alcameh (M.ª Sameiro Pedro; lit.ª inf.-juv.); As bibliotecas (de profs. da UCP-Braga); Bibliotecas em Portugal (c/mt. inf. actual); Biblioteconomia (Ana & Alexandrina); Bibliotequices (Paulo Izidoro); BSF - Bibliotecários Sem Fronteiras (vd. aí a bib.ª digital de imp.ª da BM Vila do Conde); O bibliotecário anarquista (Adalberto Barreto); O bicho dos livros (Sérgio & Andreia); Blogs em bibliotecas (Mónica André); La imagen social del bibliotecario (Odd Librarian); Rato de biblioteca (Pedro Príncipe); Vivabibliotecaviva (Luísa Alvim).

quinta-feira, julho 13, 2006

Tiken Jah Fakoly & Yanis Odua, «Y'en a marre»

Na esteira do perfil de Tiken Jah Fakoly aqui esboçado, deixo-vos agora o videoclip duma das suas músicas mais conhecidas, o qual só entretanto descobri. Nela a denúncia de abusos tanto é dirigida aos neocolonialistas como aos dirigentes africanos despóticos. Ademais, a música que dá o título ao álbum (bem como outras) é um libelo acusatório do oportunismo francês em África, que é cúmplice de parte das atrocidades aí cometidas e do estado crítico de muitas sociedades africanas. O que é extensivo a outros Estados. Para eles a prioridade é o negócio, mesmo que à custa dos direitos humanos, da democracia e da justiça social. É a real politik a funcionar.

Y'en a marre (Françafrique, 2002)
On en a marre
L'Afrique en a marre marre marre
On en a marre
Le peuple en a marre marre marre

Des journalistes assassinés
Parce que des présidents assassins
Des généraux aux commandes
Des populations opprimées
Des aides aux pays détournées
Des populations affamées
Les fonds du pays dilapidées
Les droits de l'homme ignorés
{au refrain}
Après l'abolition de l'esclavage
Ils ont crée la colonisation
Lorsque l'on a trouvé la solution
Ils ont crée la coopération
Comme on dénonce cette situation
Ils ont crée la mondialisation
Et sans expliquer la mondialisation
C'est Babylone qui nous exploite
{au refrain}
[Yanis Odua:]
Faut qu'on arrete de cautionner
Ca, la vie de nos frères ne compte pas pour cette bande de vanpayas
Stoppons les guerres gardons la foi
Faya sur tous les chefs d'Etat qui nous envoient tuer nos brothers
Ils ne nous respectent pas c'est la même chose pour leurs lois
Ils ne regardent même pas quand le peuple réclame ses droits
Ils ne partagent surtout pas l'argent c'est pas qu' y en a pas
Ils ne font rien pour nos sisters qui se vendent pour vivre dans ce monde-là
{au refrain}

Des présidents assassins
On veut plus
Des généraux aux commandes
On en veut plus
Des enfants militaires
On veut plus
Des orphelins de guerre
On n'en veut plus
{au refrain}
L'Afrique en a marre
De toutes ces machinations
Mon peuple en a marre
De toutes ces manipulations
L'Afrique en a marre
De toutes ces exploitations
Mon peuple en a marre
De toute cette oppression
L'Afrique en a marre

quarta-feira, julho 12, 2006

Basta! Nem mais uma mulher condenada por aborto

Cláudia Castelo propôs o seguinte tx. para publicação, a que acedi prontamente e o qual subscrevo por inteiro:
"Em Portugal, há poucos dias, mais uma mulher foi condenada criminalmente por ter feito um aborto. Mais uma mulher portuguesa com a sua vida íntima devassada, publicamente perseguida e enxovalhada, porque, num determinado momento, optou em consciência por não dar continuidade a uma gravidez não desejada.
No Reino Unido, o aborto é legal até às 24 semanas de gravidez se dois médicos concordarem que ter o bebé prejudicará mais a saúde mental ou física da mulher do que fazer o aborto. Isto pressupõe que a mulher explique ao médico o que é que sente face à gravidez não desejada. O aborto pode ainda ocorrer em qualquer momento da gravidez se a saúde da mulher estiver em perigo ou em caso de malformações do feto. Para mais informações, consultar aqui.
A moldura penal inglesa que enquadra o aborto legal no Reino Unido tem perto de 40 anos (o Abortion Act data de 1967). Para uma breve história do aborto no Reino Unido veja-se aqui.
O Departamento de Saúde publica estatísticas sobre os abortos realizados em Inglaterra e Gales. O relatório relativo a 2004 pode ler-se aqui.
Perante factos tão divergentes, sinto uma enorme perplexidade e revolta. Com ou sem referendo (não vou entrar nessa polémica), a condenação criminal de mulheres portuguesas pela prática de aborto tem de acabar. Como povo com princípios democráticos e humanistas, devemos ter a coragem de dizer BASTA: NÃO QUEREMOS uma lei que permite que uma mulher possa ser acossada, interrogada, humilhada, julgada, condenada, aprisionada e destruída, porque interrompeu voluntariamente e conscientemente a gravidez."
Cláudia Castelo
ADENDA: informação sobre este caso aqui (a pena foi suspensa por 2 anos), historial recente de casos similares levados a tribunal aqui; a este propósito, vd. tb. a opinião de Rui Tavares aqui.

Livro de reclamações (interrupção no Metro de Lx., 10/7)

Com o propósito de auxiliar na defesa dos utentes de serviços públicos em Portugal, inaugura-se aqui uma nova secção, a do Livro de Reclamações.
Começa com a enésima interrupção no Metro de Lx., por 2 razões: sucede em demasia e nunca há uma justificação pública avisando os utentes, qual castigo dos céus. Registo dos factos: interrupação da Linha Azul das 7h37 às 8h52 de 2.ª feira, 10/7/2006, entre as estações de S. Sebastião e Laranjeiras (fonte: DN, 11/7, p. 25).

terça-feira, julho 11, 2006

Do amor e da cólera, hoje

Em Tiken Jah Fakoly temos a junção do amor e da cólera, elementos opostos mas constitutivos da existência da maioria de nós, em maior ou menor grau. A cólera não é aqui uma irritação caprichosa, mas a indignação face às injustiças cometidas em África.
Fakoly segue uma via própria de intervenção; composições para o corpo e o espírito, com mensagem ao ritmo do reggae e doutros géneros musicais. Envolveu-se e canta os dramas recentes de África, em particular os do seu povo, da Costa do Marfim, viu vários dos seus próximos serem assassinados pelo regime (em 2003), foi tb. perseguido e teve de se refugiar em Fr. e no Mali. É um dos exilados da «globalização», a outra face da moeda, incómoda e amiúde ignorada, ocultada.
A sua qualidade foi rapidamente reconhecida: figura popular e porta-voz da juventude no seu país natal, requisitado pelos principais festivais europeus alternativos, e convidado por Youssou N'Dour para uma festa da ONU pela convivência no mundo. É tido por muitos como o novo Bob Marley (gravou no estúdio deste com 3 ex-Wailers), a sua energia e presença em palco são contagiantes, como se pôde constatar no concerto de sáb.º passado, em Lx. (integrado no África Festival).
Algumas das suas letras podem parecer cair no maniqueísmo, o mal todo condensado nos neocolonialistas, mas logo surgem outras denunciando a corrupção e os abusos de poder no seu país (vd. p. ex. «Mangercratie»). O que prevalece é a chamada de atenção (pela música) para as desigualdades sociais no mundo (participou tb. no álbum colectivo Drop the debt, pró- extinção da dívida aos países subdesenvolvidos); a defesa da coexistência pacífica, da tolerância religiosa, ele que é muçulmano (e rastafari) mas denuncia as divisões forçadas no seu país, entre Norte e Sul, cristãos e muçulmanos, etc.. Em suma, pela apologia da democracia, da união entre as pessoas, do amor.
Nb: letras aqui e aqui; trechos audiovisuais aqui (inc. Le pays va mal, Tonton d'America, etc.) e aqui; mais info no ARTE, aqui e aqui.

Morte no futuro e esperança no presente

Um fim genial de uma série que nos vai deixar de luto.








domingo, julho 09, 2006

Indícios de caos - 6

Poesia é arriscar-se ao erro
sem blindagem ou armadura
não a procura da cor mais pura
mas no mais fundo fedido aterro

Irmanar-se à noite escura
sua lei por obscura requer
lâmina metal não por seu ser
recesso mas porque sua luz crua

limpa da enxúndia da cultura
dá-lhe a condição de inculta pedra
ou de coisa que sobrou impura

como este soneto de incerto
metro negra matéria negra
que toda a noite me traz desperto

José Luís Tavares, Agreste matéria mundo
(Porto, Campo das Letras, 2004, p. 72)

sexta-feira, julho 07, 2006

A avaliação dos alunos - novas tendências

Caros amigos,
As coisas têm de mudar, dizem as novas correntes da Educação..
Aqui está um exemplo da NOVA ATITUDE que os professores têm de adoptar, a bem dos tempos modernos.
Avaliação de um exercício nos tempos que correm...
QUESTÃO PROPOSTA: 6 + 7 = ?
A . EXERCÍCIO FEITO PELO ALUNO: 6 + 7 = 18
B . ANÁLISE:
A grafia do número seis está absolutamente correcta; o mesmo se pode concluir quanto ao número sete; o sinal operacional + indica-nos, correctamente, que se trata de uma adição; quanto ao resultado, verifica-se que o primeiro algarismo (1) está correctamente escrito - corresponde ao primeiro algarismo da soma pedida.
O segundo algarismo pode muito bem ser entendido como um três escrito simetricamente - repare-se na simetria, considerando-se um eixo vertical!
Assim, o aluno enriqueceu o exercício recorrendo a outros conhecimentos.. A sua intenção era, portanto, boa.
C . AVALIAÇÃO:
Do conjunto de considerações tecidas nesta análise, podemos concluir que:
A atitude do aluno foi positiva: ele tentou!
Os procedimentos estão correctamente encadeados: os elementos estão dispostos pela ordem precisa.
Nos conceitos, só se enganou (?) num dos seis elementos que formam o exercício, o que é perfeitamente negligenciável.
Na verdade, o aluno acrescentou uma mais-valia ao exercício ao trazer para a proposta de resolução outros conceitos estudados - as simetrias... - realçando as conexões matemáticas que sempre coexistem em qualquer exercício...
Em consequência, podemos atribuir-lhe um......"EXCELENTE"...
...e afirmar que o aluno...
..." PROGRIDE ADEQUADAMENTE"!!!
Nb: tx. de autor anónimo.

quinta-feira, julho 06, 2006

Revista de opinião (a crise política em Timor Leste; o ordenamento territorial em Portugal)

Para reflexão sobre a crise política em Timor Leste sugiro a leitura destes 2 textos (aqui e aqui).
Sobre o ordenamento do território em Portugal e o novel PNPOT sugiro este texto de José Reis.

quarta-feira, julho 05, 2006

...

Django, Grappelli e o Hot Club de France!!!

J'attendrai...

Artistas como Django Reinhardt e Stéphane Grappelli serão sempre universais. Bem como o quinteto de que fizeram parte, o Hot Clube de France (1933-1942).
Que este filme mágico de 1938 possa inspirar-nos na velocidade de execução, na elegante melodia e na magnífica mudança de ritmos.
Uma breve preciosidade vinda do imediato pós-II Guerra Mundial, do racionamento e da energia libertadora, encontra-se aqui. Outro cheirinho do Django acelerado acolá.
Porquê a lembrança de Django? Por 2 razões: uma delas é a vinda a Lisboa de Bireli Lagrene, o discípulo de Django, na noite de 5.ª (Fórum Lx.). A outra razão, bom, a outra já a disse...
Deixemo-nos embalar na doce beleza da arte!!!
Adenda: um breve documentário sobre Django pode ser visto aqui.

terça-feira, julho 04, 2006

Balanço do consulado de Blair (impressões de Londres IV)

Em post anterior, revi a política cultural de Blair, avaliada positivamente. Cabe agora abordar as áreas das políticas sócio-económicas e a estratégia política preconizada.
Da pesquisa que pude fazer, os indicadores sociais e económicos são tb. maioritariamente positivos (e melhores do que os dos conservadores), embora haja 2 senões relevantes: 1) as desigualdades sociais extremas mantêm-se quase na mesma; 2) fraca queda do desemprego e mau perfil dos novos empregos. Acresce este detalhe: em 1997, Blair diz que o PIB será o instrumento para aferir da bondade da sua política (Blair said that GDP growth would be the «judge and jury» of Labour's success”), em vez dum Indicador de bem-estar humano/ desenvolvimento sustentado (o IDH- Índice de Des.º Humano da ONU, o GPI- Genuine Progress Indicator, o ISEW- Index of Sustainable Economic Welfare, etc.). Por estranho que pareça, e apesar dos 9 anos de Blair e batalhões de economistas, até hoje o RU não fez a sua série completa de des.º sustentável (cf. aqui). Mas há alguns indicadores já disponíveis: o desemprego pouco baixou; melhorou o capital humano; a mortalidade infantil é quase estacionária ou subiu mesmo em estratos das classes populares, ainda que, no cômputo global com outros indicadores, a desigualdade na saúde desça (cf. aqui).
Quanto ao núcleo ideológico do New Labour, agita uma economia do conhecimento que não obteve grandes resultados no emprego: nos últimos 15 anos o segmento dos «colarinhos brancos» apenas subiu de 35 para 37%, a maior parte dos novos empregos foram para ocupações de baixa qualificação (empregados de limpeza, de lojas e de segurança, assistentes de vendas, recepcionistas, etc.), sendo que, ainda em 2010, 78% dos empregos dispensarão diploma. A sua fraqueza está nisto: o regresso a uma teoria neo-clássica da economia política, cuja prioridade não é a igualdade e a justiça sociais, tudo girando à volta do mercado e do crescimento económico. Sobre o assunto vd. análise aprofundada de Jon Cruddas no tx. «Neo-classical Labour». Aproveitando a boleia do Hugo Mendes, afinam pelo mesmo diapasão o livro Nova economia: novo mito? (vd. resumo deste livro de Jean Gadrey aqui) e o excelente site do Réseau d’alerte sur les inégalités.
Como refere Madeleine Bunting, a armadilha de Blair é cooptar o social para servir o económico, pois, ao falar de responsabilidade individual e de oportunidade (inspirado nas teorias da escolha racional e do capital humano), o fito central é o crescimento. Eis o que nos diz o próprio Blair: “And the huge possibility of this agenda is driven forward by one new political reality. Today, the economic and the social in politics go together. Human capital is the key to economic advancement in a knowledge economy. Individual responsibility is the key to social order. Both depend on developing the potential of all our people to the full to provide a more mobile and a flexible economy”. Na prática, isto vai significar o que já temos, sobretudo para as novas gerações: precaridade laboral, pouco tempo num dado emprego significando a erosão dos mecanismos de lealdade laboral, profissional e social, corroendo os alicerces comunitários e morais. Daqui emergem a anomia e a incapacidade de estabelecer compromissos de longa-duração, de que fala Richard Sennett na obra The corrosion of character (1999). É o reino do individualismo capitalista, tout court. Nada mais há a esperar da sociedade senão servir a economia. Não devia ser o inverso?
O correspondente político disto é a fixação no centro do espectro partidário, com todos os efeitos decorrentes, incluso ao nível do discurso (retomando M. Bunting): "This process began with an attempt to codify intellectually a straightforward move to the political centre. Since then, however, these selfsame ideas have had an ever more systematic influence over public policy making. The most obvious example of this process is in the current debate around the efficient allocative properties of markets and the reform of healthand education policy. Once again, the language of choice is used because of the traction it creates among ruthlessly polled swing voters. Policy is then built around these buzz phrases with reference to rational choice analysis developed by marginalist theories of efficient exchange – in education around the form of parent power, in health around patient choice".
Ilusão? Falhanço? Maus conselheiros? Como, se logo em 1994 o Partido Trabalhista assinara o environmental policy document «In trust for tomorrow»? Má liderança, então?

Outra questão fulcral foi a invasão do Iraque, não só qt. às suas implicações duradoiras a nível mundial como qt. ao modelo de globalização que se preconiza: multilateralismo gizado nos fóruns adequados (a começar pela ONU, protocolos e convenções), ou unilateralismo duma superpotência com negociações pontuais, à la carte, para certos problemas? Este será o tema final do balanço deste consulado.
Nb: links para dados do RU aqui; cartoon «Blair's upward trajectory», por Steve Bell (The Guardian, 2006).

segunda-feira, julho 03, 2006

"Jornalismo está enfermo de espírito crítico"

"-O que o encanta nos jornais?
Excerto da entrevista a Marina Almeida por Manuel Ferreira, decano do jornalismo e figura de relevo das letras nos Açores; nb: o título da entrevista ao DN de ontem é o título deste post.
A BN presta-lhe tributo com uma mostra bibliográfica durante este mês no corredor da sua liv.ª, com o pretexto da edição de O açor eterno, o maior livro do mundo, galardoado com o Prémio de Artes Gráficas; foto e perfil biográfico de Ferreira aqui.

domingo, julho 02, 2006

Racionalizar custos e serviços: e se começássemos por cima?


Petição da campanha para a racionalização de custos com a estrutura do Parlamento Europeu, hoje dispersa por 3 países membros (Fr., Bélg. e Luxemburgo): O objectivo é atingir 1 milhão de peticionários para que a questão seja discutida no Parlamento Europeu. Mais informação aqui.

sábado, julho 01, 2006

Afinal Marx estava enganado

Para a Inglaterra a história repete-se como tragédia.

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