quarta-feira, novembro 30, 2005

“Eu vou faltar à votação do orçamento”

E como é que justifica a falta, caro candidato? Não é com um 'atestadozinho', pois não?

700, só?

A cena dos setecentos sindicalistas que apoiam Cavaco é uma das maiores rábulas de campanha. Lembro-me de uma professora numa universidade privada, que frequentei só por um ano, fazer a mais escandalosa apologia do senhor de botas cardadas e depois dizer com toda a candura que era dirigente de uma organização de trabalhadores democrata-cristãos. Há coisas que não jogam umas com as outras. Mas não vejam nisto qualquer espécie de teimosia: no dia em que Carvalho da Silva apoiar Cavaco, o meu voto vem logo a seguir ao dele. Atreve-te, moço...

E Alegre se fez triste

Durante a entrevista televisiva desta noite Alegre deixou-se emular no seu quadrado. Não se percebe o que propõe a não ser uma retórica insistentemente oca sobre a refundação de uma pátria de esquerda. O candidato não só se agarra a um certo populismo nacionalista para se conseguir segurar nas sondagens, como favorece a candidatura da direita ao cair na esparrela da deriva presidencialista. As sondagens são (e foram desde o início) o seu único argumento de peso. Se começar a perder terreno, esfumar-se-á de um dia para o outro. Se conseguir manter-se bem posicionado nas percentagens, continuará a arrastar-se em contradições e em justificações errantes sobre litígios mal resolvidos. Concordo com o Celso, é melhor não falar mais dele e, verdade seja dita, também não há muito mais para dizer.

terça-feira, novembro 29, 2005

Aviso à navegação

Soaristas, amigos, eu percebo que é preciso fazer passar a ideia de que Manuel Alegre é uma curiosidade política se se quer que Soares tenha algumas hipóteses de passar à segunda volta. Mas, convenhamos, as sondagens têm sido implacáveis e vamos a caminho de Dezembro. Alegre pode ser um candidato pouco consistente mas também não é um populista medonho. Por outro lado, a sua popularidade é o melhor barómetro do actual prestígio do sistema político. E nem foi preciso que entrasse em grandes tiradas demagógicas. Nas actuais circunstâncias, ridicularizar a candidatura de Manuel Alegre pode ser um beco sem saída para a esquerda, já para não dizer o óbvio: o verdadeiro adversário está do outro lado. Não alimentem o sapo porque ele depois pode ser demasiado gordo para engolir.

Eles vivem

A direita populista tem andado adormecida. Pela força das circunstâncias, Paulo Portas e Pedro Santana Lopes saíram de cena. Telmo Correia perdeu o congresso do PP. Nobre Guedes vai ter com que se entreter para os próximos tempos. A previsível chegada à presidência de Cavaco abre-lhes, porém, uma janela. Conscientes de que, a partir de Belém, Cavaco só pode desiludir a direita mais presidencialista ao mesmo tempo que vai transformar o PSD no seu quintal presidencial, os populistas preparam toda uma reconfiguração do lado direito do espectro político. O patético artigo de Santana Lopes ao Expresso é um sinal, a que se junta um outro na mesma edição do semanário de um seu ex-adjunto, Ricardo Alves Gomes, que prepara a vingança do PPD sobre o PSD e a união com o PP à revelia do CDS de Ribeiro e Castro. Os últimos meses de higiene democrática não devem fazer esquecer a política da trapalhada. E se tudo ruir – o governo Sócrates e a presidência «dinâmica» de Cavaco Silva -, cá estarão eles, com uma patine de falsa modernidade, para rapidamente apanharem os cacos.

Explique-me como se eu fosse muito burro

Mãe Natal? A propósito do envelhecimento da população, tem sido aventada a necessidade de aumentar a natalidade. No entanto, num mundo globalizado só faz sentido pensar os seus desafios e procurar soluções que o reconheçam como tal. Se a Europa está alarmada com o decréscimo dos nascimentos, outras regiões do globo apresentam dificuldades opostas.Como tal, colocar esta questão como resolúvel pelo aumento da natalidade apresenta vários problemas. Nega a questão da necessária racionalidade sobre os recursos planetários e a solução para o rejuvenescimento da população europeia através da emigração. Ou seja, falha ecológica e globalmente. Além do mais, comporta o risco de interpelar o controlo da natalidade enquanto direito das mulheres que, independentemente das circunstâncias económico-sociais, devem poder optar.
Joana Amaral Dias no DN de hoje

O conservador

Em termos políticos Cavaco não é um liberal, mas também não é um puro social-democrata. Sempre se assumiu como um tecnocrata com alguma sensibilidade social, mas apolítico. Esta fachada do homem quase neutral que está acima da política e, de certo modo, da ideologia, é uma imagem eficazmente construída mas que não corresponde à verdade. Se assim fosse seria, no mínimo, estranho que Cavaco conseguisse fazer o pleno da direita. Seria de facto engolir um grande sapo para muitas pessoas de direita apoiarem um homem que não se acha de direita e que até faz gáudio de algumas políticas de centro-esquerda que levou a cabo enquanto primeiro-ministro. Ora bem, a resposta veio ontem com a posição que tomou sobre a polémica dos crucifixos. Como ficou bem patente o homem é, acima de tudo, um conservador. É essa característica que agrada a quase toda a direita. Com Cavaco a direita pode, de facto, dormir descansada quanto à despenalização do aborto, ou ao casamento e à adopção de crianças por parte dos casais homossexuais, ou às salas de chuto... Com Cavaco os amigos de Bush, de Blair e de Sharon, também podem dormir descansados. Porque Cavaco é o melhor garante para que nestas e noutras áreas tudo fique na mesma.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Deus, pátria e escola

Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.

Círculo de feras

A propósito da crítica à reforma da lei eleitoral que prevê os círculos uninominais, Louçã revela que se essa lei for aprovada as mulheres serão discriminadas. E “para justificar que os círculos uninominais excluem as mulheres, o candidato citou um estudo do Observatório da Paridade francês, onde é referido que os partidos colocam as mulheres nos círculos com menor possibilidade de eleição, e os homens nos círculos onde a vitória se afigura previsível”. Nesta óptica, os círculos uninominais até seriam, ao contrário do que advoga o candidato presidencial, uma pequena revolução no nosso país, pelo menos, teríamos mais mulheres como cabeças de lista a participar activamente na vida política. Coisa que actualmente não acontece de todo. Este é um daqueles casos em que a ênfase desmedida na causa politicamente correcta a torna politicamente ridícula.

Por uma política da família

A nossa situação sócio-demográfica começa a ser preocupante. Se não se inverter a tendência actual, Portugal será daqui a duas ou três décadas um dos países mais envelhecidos da Europa. Esta previsão foi anunciada na semana passada, mas não mereceu grande debate nem nos media, nem na blogosfera. O que é estranho, dado que os nossos consecutivos governos têm demonstrado uma tremenda ineficácia e incapacidade política em relação às questões da família e da natalidade. A esquerda sempre teve algum complexo em lidar com estes assuntos. A família foi e continua a ser um tema caro à direita conservadora. E nisso este governo, apesar de se posicionar numa esquerda muito pouco à esquerda, não foge à regra. Praticamente não se propõe nada de inovador e de concreto sobre assuntos como o planeamento familiar, a despenalização do aborto, o apoio à maternidade e à paternidade, o incentivo à natalidade, a facilitação do processo de adopção por parte de famílias monoparentais e de casais homossexuais, etc. Algumas destas bandeiras são propagadas praticamente desde 1974, mas não saem do papel ou das meras boas intenções. Desde essa altura tem-se avançado pontualmente, num ou noutro aspecto, mas, no essencial, não existe uma política estratégica que, pelo menos, consiga compensar o aumento do custo de vida e as perdas consecutivas no direito (e nos direitos) do trabalho, que afectam cada vez mais famílias. O aumento da precariedade agrava, sobremaneira, a propensão e o desejo dos casais jovens em terem mais filhos.

Para uma política verdadeiramente estratégica nesta área é necessário dar um primeiro passo: assumir a família como uma instituição central na organização da sociedade. Para seguidamente dar o segundo passo decisivo: encarar a família no plural. Ou seja, já não faz sentido conceber a família como uma instituição relativamente invariável em torno de uma estrutura nuclear tradicional (pais e filhos), como foi apanágio do governo de direita sob tutela de Bagão Félix. A família muda de dia para dia, não só devido aos reagrupamentos causados pelas separações e pelas novas uniões, mas porque as condições e os modos de vida também mudam aceleradamente. Por tudo isto e muito mais, a política da família deveria ser uma das principais bandeiras da tal esquerda moderna que Sócrates tanto apregoa.

sábado, novembro 26, 2005

Imprensa sensacionalista 1

António Guterres está no Paquistão com... cof, cof... Angelina Jolie. Calma, o Brad também foi.

Imprensa sensacionalista 2

A Sábado oferece esta semana «Cavaco na intimidade». Mas será mesmo necessário?

sexta-feira, novembro 25, 2005

Tabloidização vs tabloidização

O assunto das faltas de substituição tem gerado muita polémica. É uma medida simples, perfeitamente justificável e que em princípio não deveria causar tanta revolta. Mas os sindicatos são, cada vez mais, organizações corporativistas dominadas por um discurso de resistência que tende a encarar qualquer mudança como um atentado às conquistas passadas e adquiridas. Optando por esta estratégia os sindicatos acabam por proteger fundamentalmente os interesses dos trabalhadores instalados (os tais efectivos). Daí toda esta mobilização fervorosa em torno da extensão da idade de reforma e agora das horas de substituição. De repente, parece que deixaram de haver outros problemas na educação, nomeadamente, o da precariedade e da instabilidade de emprego nos professores mais jovens. Paradoxalmente, a bandeira de luta contra as aulas de substituição suplantou a questão central do concurso de professores, que está igualmente a ser debatida com o governo.

Contudo, considero que esta ênfase dada às aulas de substituição e às faltas se deve em grande medida à inabilidade e a alguma arrogância que o governo demonstrou em todo este processo. Não entendo porque é que o actual governo ‘socialista’ se deixa afectar tanto com o facto dos funcionários públicos fazerem greve. Não compreendo porque é que iniciou e/ou respondeu à contestação, que naturalmente o sindicatos assumem nestas circunstâncias, com uma estratégia arruaceira. No dia da greve ouvimos o Secretário de Estado da Educação avançar com um número claramente provocatório, sugerindo directamente que os professores são dos profissionais mais faltosos da Função Pública (em declarações à TSF). O que é que ganhou o governo com esta postura guerrilheira? Acharia o governo que os sindicatos e alguns partidos de esquerda optariam por uma atitude construtiva e de concertação com um governo que fez tudo para a inviabilizar?
O Secretário de Estado não só foi muito inábil politicamente como demonstrou uma grande falta de sentido de Estado, porque face à contestação respondeu, ele sim, com a ‘tabloidização’. E todos nós sabemos que quando se entra no jogo da mediatização, gera-se e é-se alvo de mais mediatização. Por isso, não entendo o espanto de algumas vozes do PS, como Paulo Pedroso, sobre a dita tabloidização levada a cabo pelo Bloco de Esquerda sobre o caso das faltas não justificadas do ex-vereador Valter Lemos. O BE não fez outra coisa com os governos do PSD, lembre-se do caso da filha do Ministro dos negócios estrangeiros. E nessa altura o PS sorria e até achava alguma piada ao estilo. Não têm por isso nenhuma legitimidade para se virem agora queixar com ar ressentido do estilo tablóide de Louçã.

quinta-feira, novembro 24, 2005

O delírio explica-se

Para uma certa clarificação sobre os números delirantes apresentados hoje nas páginas dos jornais é favor de ler este post.

Sondar é preciso

Sobre sondagens aprendi uma coisa verdadeiramente certa, os resultados são como os gostos: não se discutem. Pode-se discutir a metodologia, mas nunca os resultados, pois, há sempre uma especificidade técnica que legitima qualquer valor, apesar de, por vezes, certas percentagens poderem parecer-nos um tanto delirantes. O caso de hoje é flagrante. A sondagem da Católica atribui 57% das intenções de voto a Cavaco. No dia em que o barómetro da Marktest indica uma votação para o mesmo candidato na casa dos 44%. Bem sei que são duas técnicas diferentes mas, de qualquer modo, uma diferença na ordem dos 13% dá para desconfiar. Por sua vez, entre Soares e Alegre as diferenças continuam a ser grandes: para a Católica estes estão praticamente colados, no caso da Marktest, Alegre destaca-se do antigo presidente em mais 4% das intenções. É nos candidatos mais à esquerda que encontramos a única sintonia: nas duas Jerónimo vence Louçã por uma pequena margem. Contudo, o indicador mais relevante destes dois estudos de opinião é o peso considerável que atribuem aos indecisos. O que quer dizer que ainda há esperança para qualquer candidato. E pronto, todos ficam contentes! Afinal, as sondagens cumpriram mais uma vez a sua função ao revelar a sua efemeridade, dando azo para que todas as interpretações sejam credíveis.

O que não 'Valter' amigos

Portuguesas e portugueses

Muito se tem dito que, mais do que nunca, é essencial que o próximo PR perceba de economia. Não sei, realmente não sei, mas percebo-os. Assim como assim, depois de 10 anos de Jorge Sampaio, a malta já só pede que o próximo PR perceba de qualquer coisa. Não é? Bom, é de tal maneira que alguns há que até vão votar Cavaco por causa disso.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Mais 'Valter' cargos do que não ter faltas

O Secretário de Estado da Educação Valter Lemos, que pelos vistos sempre cessou o seu mandato como vereador em Penamacor por acumulação de faltas, é mais um ícone representativo de todo um conjunto alargado de pessoas que foi ocupando diversos cargos de direcção e de chefia na função pública ao longo destes 30 anos. Não fizeram mais nada na vida, pois tiveram a sorte de lhes ter rebentado uma revolução enquanto jovens que lhes possibilitou uma ascensão rápida no mundo do Estado. Já conheci diversos Valter Lemos ao longo da minha vida profissional, estão em toda a parte e são desde há muito um dos poderes mais cristalizados e perversos da sociedade portuguesa. Sempre passaram de cargo para cargo com a maior das leviandades e sem nunca prestar contas a ninguém. Jamais se responsabilizaram perante a comunidade e os contribuintes pelas decisões que tomaram e pelo modo como, em algumas circunstâncias, desbarataram os dinheiros públicos. Sempre saíram e voltaram impunes. Esta gente está agarrada ao seu privilégio que quer manter a todo o custo. E para isso emaranham-se no jogo partidário para tirar dividendos de circunstância. Estão-se nas tintas para a coerência política e refugiam-se quase sempre naquela figura que está a fazer escola nos anais da política portuguesa: a figura de independente (Valter Lemos que agora está no lado socialista foi, há não mais de dez anos, eleito vereador pelo CDS). Muito daquilo que vai mal no Estado e na Administração Pública se deve a esta gente. Neste sentido, quando se fala em diminuir privilégios e reduzir o peso do Estado era por aqui que se deveria começar. Mas isso é certamente uma impossibilidade, visto que os partidos que nos governam sempre alimentaram e se alimentam deste polvo.

terça-feira, novembro 22, 2005

Verso e reverso


Adriana Varejão no CCB

Do Manifesto Antropófago, à carne tagarela do herói Macunaíma, de Mário de Andrade, passando pelos índios canibais de Portinari ou pelos matadouros de Miguel Rio Branco, a carne é uma presença insinuante na cultura brasileira.
Adriana Varejão, de quem já se viu uma mais pequena exposição em Lisboa (Museu da Cidade, 1998), é um dos mais interessantes exemplos recentes desta sensibilidade marcada em partes iguais pela violência da colonização, pelo esplendor teatral do barroco ou por uma mítica visão de um Brasil índio originário que não cessa de se auto-dissecar.
Brasileiríssima na vivência dessas ambiguidades, mas cosmopolita e contemporânea no espectro das suas referências, Adriana Varejão pratica uma arte, simultaneamente, antropológica e teatral que tenta, ao mesmo tempo, olhar o todo e dar-se à proximidade da pele.
No seu trabalho, difícil de classificar disciplinarmente, a carne, o sangue e sobretudo a pele enquanto lugar que une ou divide interior e exterior, revelado e oculto, ganham com frequência uma condição metafórica ou transformam-se em imagem forte de uma cultura que traz a violência e o sacrifício inscritos na matriz.
Talvez por isso, o seu horizonte estético seja o de uma beleza sanguínea, capaz de sobrepor erotismo, sublime e morte que, em vez de se apresentarem como elementos contraditórios, se tornam interdependentes.
Logo no título - «Câmara de Ecos» - a exposição produzida pela Fundação Cartier e pelo CCB, que chega a Lisboa algo transformada, mostra as várias encarnações (e a palavra aqui é rigorosa) desse jogo de ressonâncias.
Estão lá algumas das pinturas inspiradas nas figuras de convite que fazem conviver a estética do barroco português com o canibalismo e as violências suas contemporâneas, mas também um gigantesco painel («Celacanto provoca maremoto», 2004) de igual aparência azulejar onde certos elementos surgem mal colocados como se o lastro histórico e iconográfico que eles transportam se transformasse numa abstracção ilegível ou reformulada de acordo com uma mundividência que já não entende os seus códigos originais. Entre as obras que revelam outras facetas do trabalho de VareVarejão encontram-se as «Saunas», pinturas a óleo de grande dimensão e pequenos desenhos a lápis que mimam o interior vazio desses espaços forrados pelos contemporâneos azulejos industriais. Varejão recupera a banalidade destes lugares funcionais para estabelecer verdadeiros teatros de luz, erguidos sobre jogos de perspectiva, quase fotográficos. Na verdade, é o mesmo inquérito aos espaços e imagens que vimos anteriormente projectados sobre o tempo da colonização, tentando ler na arquitectura (aqui são quase casulos) uma sensibilidade menos evidente da arquitectura contemporânea. Noutras obras, Varejão faz propositadas referências à arte internacional e a uma evidente afinidade electiva. As pinturas da série «Parede com incisões à la Fontana», de 2002, lembram as incisões sobre a tela do artista italiano, mas são deslocadas da abstracção para o campo dos objectos reais como cortes numa parede carnívora. Essa atracção por um real teatralizável, redobra em ênfase nas obras mais evidentemente escultóricas. «Linda do Rosário» e «Linda da lapa», ambas de 2004, transportam rumores de histórias (como quase sempre acontece com Varejão), nestes casos, o desabamento de um bordel numa favela onde um casal fazia amor, ou o padrão dos azulejos de um famoso restaurante carioca. Essas inscrições no tecido urbano trazem igualmente a ideia de escultura da pura especulação formal para um registo repleto de ecos vivenciais ou de acumulações de relatos e narrativas ainda que seja através da forma e da mistura conflitual dos seus elementos que estas se nos revelam. Esse processo salva-a da retórica e de um culturalismo ostensivo. A experiência da identidade é antes aqui, a experiência cumulativa da vida e da história.
No jogo permanente entre interior e exterior, entre o verso e o reverso do corpo, da história, da linguagem e dos símbolos, a arte de Varejão transforma-se assim numa plataforma de coisas lactentes onde os contrários se debatem e acasalam permanentemente. Em todos os casos, temos sempre o barroco, não como época historicamente delimitada, mas como sensibilidade estética duradoura - tão presente em Aleijadinho como em Cronenberg - a partir da qual procede a uma intensificação fantástica do real. Celso Martins, in Expresso.

Baile de rua


Nas ruas de South Central, bairro suburbano de Los Angeles, os jovens exprimem através da dança a sua revolta contra a opressão latente e manifesta que vivem quotidianamente. Rize mostra-nos o outro lado do gueto. Jovens negros mascaram-se de palhaços ou escondem as faces em pinturas tribais e congregam-se em grupos que dançam até à exaustão. Libertam-se num êxtase de movimentos alucinantes que simulam actos de luta, guerra, sexo… Tudo começou com o palhaço Tommy the Clown que a seguir aos motins de Rodney King se lembrou de animar aniversários de crianças e de jovens por intermédio da dança. A música hip hop foi o mote para a criação de um novo estilo de baile denominado de clowning. Posteriormente surgiram outros estilos “rivais” como o krumpig. No entanto, apesar das variantes, a regra base passa pela expressão de uma improvisação corporal frenética e libertadora. Algumas imagens destes bailados de rua são de uma beleza tocante. Durante o tempo da dança os becos do gueto parece que ganham uma aura que os imuniza face à violência dos dias. Rize é uma pequena esperança que se manifesta em cada corpo dançante. Representa, por isso, o último reduto da liberdade individual daqueles jovens.

A longa marcha para a independência

«Há dez anos senti que depois de o meu partido ter perdido as eleições, tinha a obrigação moral de me candidatar». Cavaco Silva, entrevista ao Público.

segunda-feira, novembro 21, 2005

O retorno à dialéctica

O individualismo e o estatismo acabam por chegar aos mesmos resultados e partem das mesmas premissas. Os estatismos (hegeliano e comunista) dissolvem a sociedade no Estado, fazendo desaparecer a diversidade numa unidade transcendente, a pluralidade dos grupos na centralização. Assim, acabamos por ver apenas nas comunidades sociais um indivíduo em ponto grande. Só se distinguem do individualismo porque aumentam o tamanho do indivíduo. Dado que a vontade do Estado substitui os laços sociais, o “estatismo económico” é apenas um “super-individualismo”.
A mesma demonstração é válida para o individualismo. Este esquece que “fora da sociedade, o homem é uma matéria explorável, um instrumento, por vezes um móvel incómodo e inútil, mas não uma pessoa”. Assim, o individualismo, “pronto a sacrificar tudo à pessoa, mata-a de facto e chega aos mesmos resultados que o estatismo”, que é a condenação irrevogável de ambos.

[Palavras de Proudhon citadas por G. Gurvitch in Proudhon e Marx]

Não te incomodes que não se nota nada

"Estou tão emocionado que não encontro palavras para explicar" - Cavaco Silva numa sala repleta de emigrantes portugueses no Brasil.

Não diga lá Excelência

O muito respeitosozinho programinha do Público e da Renascença, diga lá Excelência, poderá alguma vez ter Cavaco Silva como convidado?

Precisamente por isso

Tratando-me eu de um ultramoderado, confesso que andava a pôr-me dúvidas sobre se o Prof. Cavaco Silva, em caso de vitória, seria de facto tão mau PR como o pintamos. Cá seguia então amargurado, mergulhado em crises angustiadas sobre uma questão que, à minha volta, parece ser consensual - a saber: Cavaco Silva daria um desastroso PR. Assim sendo não poderia deixar de assistir à entrevista que deu a Constança Cunha e Sá. Querem saber que mais? Foi remédio santo. Uma prestação penosa, tortuosa, inconsistente, e de tão esquiva a momentos surreal. Foi há 6 dias e as ondas de choque só não foram maiores porque o candidato fugiu imediatamente a seguir para o Brasil. A mim, felizmente, fez-me bem, isto embora Cavaco não tenha respondido verdadeiramente a nada... e daí, se calhar, precisamente por isso.

domingo, novembro 20, 2005

Soares e o nevoeiro

Soares pretende unir os socialistas na primeira volta, unir a esquerda na segunda, para, finalmente, unir os portugueses se for eleito presidente. A unidade parece tornar-se a sua grande bandeira de campanha. É uma bandeira gasta pela esquerda e que actualmente só é utilizada no reduto de alguns partidos e movimentos de resistência. Sempre que fala em prol da tal unidade Soares torna-se escravo das sondagens e revela a sua fragilidade. Demonstra que está com receio de perder. Em termos sociais e identitários a unidade é uma mistificação, representa a igualização do não igual. O povo português sempre adorou a fábula de uma unidade mítica em torno de um desejado salvador da pátria. Nestas eleições, Cavaco manipula todo o seu silêncio de forma a construir a imagem do desejado unificador. Soares jamais terá qualquer hipótese se jogar nesse tabuleiro. Nunca venceu nenhuma eleição incorporando uma figura sebastiânica. Pelo contrário, ganhou sempre por exclusão de partes. Em momentos decisivos tirou dividendos de uma fervorosa conflitualidade verbal e até física, que o levaram à vitória contra políticos que, esses sim, alimentaram a sua imagem pública recorrendo muitas vezes a um certo misticismo (Cunhal e, em alguns momentos, Eanes). Soares foi o único político que conseguiu vencer os D. Sebastiões da nossa democracia. Fê-lo porque nunca se deixou envolver em nevoeiros imaculados. Se o fizer desta vez perderá certamente.

Quiet heart


Ter um dia de decidir se gosto mais de McLennan ou de Forster... ora aqui está alguma da matéria de que se fazem os pesadelos, a insónia.
Para a escolha... I'd have to see straight and that would make me unkind.

Lovers lie down in trust


I know a thing about darkness/ Darkness ain't my friend

Clouds


Was there anything I could do?

Watch the butcher shine his knives


And this town is full of battered wives

sábado, novembro 19, 2005

O mundo feliz da direita

sexta-feira, novembro 18, 2005

Os sindicalistas governantes são sindicalistas do povo

Pela primeira vez o Ministério da Educação (ME) pretende rivalizar com a estratégia guerrilheira dos sindicatos. Aliás, alguns Secretários de Estado sabem-na toda desde o tempo em que foram dirigentes sindicais. E agora querem a todo o custo ganhar a batalha dos números. Está-lhes no sangue, sempre ganharam! Por que é que não haveriam de ganhar desta vez? Assim, face aos 80% de adesão à greve anunciados pelos sindicatos, os governantes do ME avançam com um número grandioso de 9 Milhões de faltas dadas às aulas no ano passado. Os 9 Milhões suplantaram os 80%. Com este valor, o governo proclamou que os professores não só são malandros, como são os grandes responsáveis pelo estado da educação em Portugal. O povo aplaude e vira-se contra a classe docente. Reclama da injustiça de serem sempre os professores os maiores privilegiados. Os sindicalistas governantes estão atentos a estas reivindicações e preparam-se para apresentar novos números grandiosos, para que todos se sintam lesados e ataquem os privilégios de todos os outros. Afinal tudo isto é feito em nome da equidade social!

quinta-feira, novembro 17, 2005

Sign o' the times

Sabendo que teria de esperar 7 semanas para que a loja entregasse os seus canapés preferidos, que "jogavam tão bem na sala com os tapetes que havia para entrega imediata", W. escolheu a saída mais fácil: o suicídio.

quarta-feira, novembro 16, 2005

Globalização e liberdade

A globalização neoliberal assenta em três pilares fundamentais: a) o comércio livre destituído de qualquer proteccionismo; b) a desregulação dos mercados financeiros, que permita a circulação de capital sem barreiras; c) a deslocalização da produção, que apenas procura a maximização do lucro. Estes três factores associados provocam uma efectiva hegemonização económica e também cultural. Um mercado global plenamente aberto favorece a acumulação de capital e a constituição de gigantes grupos económicos. Favorece também a hegemonia do consumo, do gosto, das práticas culturais e do lazer. A globalização neoliberal é essencialmente uniformizadora!
A esquerda, em contrapartida, não deve refugiar-se no discurso da resistência contra a globalização. Como se esta fosse de facto homogénea. Ao fazê-lo e sem apresentar uma alternativa está, de certa forma, a legitimar o projecto neoliberal. Neste sentido, considero, quase em jeito de manifesto, que a esquerda deve lutar por uma globalização constituída a partir de outros três pilares: a) o comércio justo, em que se ponham a claro as condições sócio-económicas e ecológicas da produção dos bens que consumimos; b) o enfoque na territorialização das empresas, salvaguardando as regiões e os Estados da saída extemporânea das fábricas; c) a regulação global dos mercados, que passe, entre outras coisas, pela tributação das transacções financeiras.
Não se pretende impedir ou travar a circulação do capital ou das empresas, isso seria uma ideia sem sentido, já que a sociedade em rede se funda, acima de tudo, na velocidade de circulação de um sem número de fluxos. O que se pretende é regular por intermédio de três instâncias bem definidas: a) o indivíduo consumidor, cuja consciência pode determinar a lógica de produção das empresas ao recusar-se adquirir bens que são produzidos numa base de exploração; b) o Estado Nação, que pode atenuar o impacto da deslocalização se detiver o poder para aplicar um conjunto de deveres e de direitos às multinacionais; c) finalmente, a institucionalização de uma agência global responsável pela tributação das mais valias. Nada disto é novo na discussão teórica e ideológica. Mas no discurso e na prática político-partidária estas ideias esmorecem e são abafadas por uma empedernida retórica conservadora. A esquerda tem de reconquistar a vanguarda do mundo! E, por isso, deve lutar por uma globalização que potencie a diferenciação individual e a autonomia do Estados.

Um problema na fala

Depois de um presidente que fala demais, os portugueses preparam-se para eleger um presidente que não diz coisa nenhuma. Será um problema com a fala ou a doença pendular?

terça-feira, novembro 15, 2005

É a globalização, estúpido!

Há uns dias atrás Cavaco Silva disse que Portugal não pode ter medo da globalização. Este comentário alegrou muito o sector da direita mais liberal, que o leu como um sinal de que o candidato afinal não é tão social-democrata como dá a entender. Devo confessar que foi uma das frases mais inteligentes de Cavaco desde que se apresentou como candidato. E tem como alvo a retórica fácil de alguma esquerda que se seduz pelo folclore mediático que caracteriza o denominado movimento anti-globalização. Infelizmente, Mário Soares alinha demasiadamente neste registo. O discurso “anti” não faz sentido e é meramente panfletário. As sociedades organizam-se cada vez mais em torno das redes de informação e comunicação e, neste sentido, a globalização é um fenómeno universal em relação ao qual não se pode ficar à margem.
Considero que a esquerda deveria integrar um discurso e uma ideologia vanguardista no que diz respeito a esta temática. A carpideira constante contra a globalização, como sendo a porta aberta para o papão do neo-liberalismo, já não convence ninguém e tornou-se oca. É preciso apontar para uma nova visão da globalização. O primeiro passo é vê-la como uma oportunidade e não como um mal. E deste ponto de vista Cavaco tem razão. O segundo é encará-la como um fenómeno heterogéneo. E aqui já nos estamos a afastar da concepção neoliberal. O terceiro passo é precisamente o de encontrar aspectos positivos na globalização, ou melhor, encontrar outras globalizações. Elas andam por aí nas redes virtuais. E estas não são nada hegemónicas, pelo contrário, fundam-se precisamente na diferença. É fundamental largar o discurso da resistência, caro ao PCP e também ao Bloco. Ou o discurso da inevitabilidade liberalizante, caro ao PSD e também ao PS. Mário Soares deveria mobilizar o discurso da criação. É preciso que Portugal se recrie na sociedade em rede como fez, por exemplo, a Finlândia. Este é o discurso positivo que faz falta!

segunda-feira, novembro 14, 2005

Lá nisso é poupadinho

«Eu só tenho uma palavra». Cavaco Silva em entrevista a Constança Cunha e Sá, TVI.

Um momento pueril

«Os portugueses conhecem-me, eu até escrevi uma autobiografia.», idem.

Um país de surdos

«Eu disse numa televisão que era contra uma intervenção [no Iraque] fora da égide das Nações Unidas». Ibidem

domingo, novembro 13, 2005

Gostamos da vida como ela não é

Experimenta na Travessa do fala só

Sarkozy tentou, sem êxito, desfilar nos Campos Elíseos.

Marcha por marcha antes a outra

Saí de casa ao fim da tarde para tentar ver A Marcha Dos Pinguins. Com os problemas do trânsito, cortes de estrada, sentidos invertidos e mais a chuva, as coisas acabaram por não correr nada bem. Marcha ainda vi, pinguins chapéu!

sábado, novembro 12, 2005

Sinais divinos da retoma

Maria desce dos céus de Fátima e percorre as ruas de Lisboa. É a consagração da nova evangelização! Largas centenas de caixas de cartão, contendo milhares de pedidos, são transportadas pelos fiéis durante a procissão. Se, pelo menos, um terço dos pedidos receber a graça do Senhor, prevê-se, segundo alguns economistas, uma autêntica retoma da economia. A expectativa é grande! Os especialistas fazem fé na evolução positiva dos indicadores económicos para o próximo trimestre.

É... é qualquer coisa... gigante e assim... e... e azul...

Cavaco falou e disse "Quero um Portugal que não tenha medo da globalização!". Assevero-vos que não contava ouvi-lo dissertar tão exaustivamente sobre um assunto, mas folgo em saber que estava bem acompanhado nesta desesperança, pois se até os próprios apoiantes exultaram. Quanto ao futuro, caro leitor, as instruções são as seguintes: procurar uma "coisa gigantesca e azul" e olhar bem para ela. Pois...

sexta-feira, novembro 11, 2005

As receitas da verdadeira direita para resolver a crise social

Problema: os filhos de imigrantes causam distúrbios nas ruas e põem em causa a ordem pública.
Diagnóstico: é a crise do Estado social que os subsidiou mas não os conseguiu integrar.
Resolução: Acabe-se com os subsídios e com o Estado Social.

Problema: os funcionários públicos fazem greve porque não querem perder direitos.
Diagnóstico: todos os funcionários públicos são privilegiados porque têm o emprego garantido.
Resolução: desemprego para os funcionários e acabe-se com o Estado Social.

Problema: os níveis de insucesso e de abandono escolar não diminuem.
Diagnóstico: os professores são incompetentes e a escola pública não tem qualidade.
Resolução: gestão empresarial, privatização da educação e acabe-se com o Estado Social.

Problema: as listas de espera na saúde aumentam.
Diagnóstico: o sistema nacional de saúde fracassou.
Resolução: privatizem-se os hospitais e acabe-se com o Estado Social.

Conclusão: é preciso matar o Estado Social!

Anúncio de concurso

Tendo em conta o diagnóstico anterior, faz-se saber que se encontra aberto um concurso para o lugar de pistoleiro cuja função é matar o Estado Social. Os candidatos deverão enviar os seus CV com a máxima urgência. Aceitam-se candidaturas de todos os quadrantes políticos da direita, mas dá-se primazia aos que já foram de esquerda. Para além do respectivo salário, o cargo contempla subsídio de refeição, subsídio de risco, carro de serviço, direito a posse de arma, telemóvel, computador portátil, etc. Depois da morte do Estado social este será o último cargo a ser extinto. No entanto, o funcionário terá direito a uma pensão vitalícia pelo trabalho oneroso prestado ao Estado.

Respectivamente, portanto

A meio da leitura de Carpenter's Gothic, de William Gaddis, já é possível afirmar que o homem é provavelmente o 2º ou 3º maior escritor americano, morto, ainda em actividade nos anos 80. Isto atrás de 1 ou 2, respectivamente portanto.

The insider


O André Belo escreve-nos directamente de Paris, sobre os motins e outras coisas. E esperemos que não sejam só 15 dias ó André.

Mas já nem se pode sair à noite para comer uns amendoins?

«11 detidos em casas de alterne»
Título do DN online

Candidato a «esfingir»


«Cavaco Silva remete para os portugueses avaliação das críticas de Mário Soares»
Título do Público online, referente ao facto de Soares ter considerado Cavaco um candidato esfinge

May contain nuts


Wallace e Gromit são duas adoráveis criaturas. Assim posto pouco resta para contar d' A Maldição do Coelhomem. As aventuras destes dois organismos de plasticina valem sempre uma vista de olhos, e mesmo que não sejam todas igualmente entusiasmantes, existem sempre alguns episódios que redimiriam quaisquer 80 minutos na sala escura. Desta vez é um barril de madeira servindo de indumentária a Wallace (salvo o erro) com a seguinte inscrição: may contain nuts. Fazê-lo num filme destes deve dar um grande gozo. A sequência inicial é também um prodígio. O pastiche do filme de terror, as tomadas de câmara tão frequentes no género, os clichés, tudo um enorme prazer que transborda da tela para o espectador. Arrisco mesmo a dizer: Nick Park, Steve Box, seus maganos, vocês têm o melhor emprego do mundo.

Saber da poda


Um bom domínio do tempo narrativo, uma bem urdida teia de flashbacks, um sólido grupo de actores, uma realização segura e um argumento conspirativo mas credível (ou não fosse ele baseado num romance de Le Carré). É assim O Fiel Jardineiro, de Fernando Meirelles. Bastante estimável, portanto. A colagem da estética Cidade de Deus com o ambiente frio centro-norte da Europa origina contrastes que se sentem na pele. A diferença de temperatura desses dois mundos torna-se palpável, materializando-se em muito mais que apenas isso, em muito mais que uma mera amplitude térmica. Meirelles apostou bem nessa mistura de estilos. E deixou marca. Pena que, não se quedando por aí, o próprio filme, por vezes, vá todo ele atrás da pureza algo ingénua da activista Tess (Rachel Weisz). São poucos momentos assim, é certo, mas os suficientes para tornar inconstante um filme que, livrando-se deles, seria um objecto tão pertinente naquilo que teria a dizer como coerente na forma como o diria. Conclusão: o fiel jardineiro até sabia da poda, acordou foi tarde. Fernando Meirelles, esse, ainda vai muito a tempo.

Apenas um «supônhamos»

A direita sente claramente que numa 2ª volta a vitória de Cavaco Silva estará comprometida. Isso inquieta-os. Afinal de contas estas presidenciais foram ensaiadas, pelo menos durante 2 anos, como um passeio de Cavaco. Por isso o apelo ao voto esquerdista, seja em que candidato for, é vital.
Faça-se um pequeno exercício de futurologia. Imagine-se que Cavaco é eleito PR em Janeiro de 2006. Exercerá portanto o cargo até início de 2011. Para não mencionar o desejo revanchista da sua entourage, pense-se pelo menos no seguinte: no princípio de 2009 haverá eleições legislativas. Depois de 4 anos de poder, dificultados por uma presidência que, já o assumiu, actuará com forte cunho executivo, é bem possível que o PS as perca. Eventualmente, uma reedição da coligação PSD/PP assumirá de novo o poder. Nessa altura, com Cavaco Silva em Belém, imagine-se o que seria. Se nos 4 anos de Durão/Portas/Leite/Félix/Santana o ataque à classe média foi o que foi, imagine-se essa dúzia e meia de meses. Não são maniqueísmos. É apenas um «supônhamos».

quinta-feira, novembro 10, 2005

Onde pára o capuchinho?


Esta campanha eleitoral está a virar uma luta entre alcateias. Surgem blogs que uivam a favor ou contra Cavaco. Uns querem falar por ele, os outros querem é que ele fale. Estranha esta história, em que o candidato prefere esconder-se na casa da avozinha a enfrentar a companhia dos lobos.

A pitonisa

«Lá para o fim do ano já ninguém pode ver este governo à frente, e a agitação política e social deverá estar no seu pico de fúria e revolta». Luis Delgado, in DN de ontem.
As pitonisas eficientes são as que são capazes de substituir, rapidamente, mil retomas floridas por outras tantas catástrofes oportunas.

Trabalho de casa

A triste história da perseguição descriminatória a um casal de adolescentes lésbicas na Escola Secundária António Sérgio em Gaia vem mostrar duas coisas: é urgente a educação sexual nas escolas portuguesas; é prioritário que ela seja primeiro ministrada ao corpo docente.

O pesadelo de Pacheco Pereira

José Pacheco Pereira está a transformar-se num liberal dos quatro costados. E, tal como outros tantos que passaram do maoismo para a direita liberal, vai vestindo a camisola ideológica de circunstância com fervor e fundamentalismo. Ontem, na Quadratura do Círculo, JPP foi de uma clarividência rara. Para ele os distúrbios de França significam a crise do estado social que incentiva a subsidio-dependência e, desta forma, acaba por promover o desemprego. Na lógica de JPP os imigrantes encostaram-se ao subsídio e protestam porque não querem trabalhar. No fundo, são uns privilegiados que só desejam a mama do Estado. E o que é JPP propõe em alternativa? Claro está, o tão o bem sucedido modelo americano onde só não trabalha quem não quer. E quem não quer é a escumalha do costume, toda a gente sabe isso. Na América é que é!
Mas com que América sonha JPP? Só no pior pesadelo é que alguém pode ainda ousar sonhar com o american dream. Não será certamente a América das grandes cidades onde «o confinamento espacial de negros das classes mais desfavorecias reproduziu a sua crescente exclusão do mercado de trabalho formal, diminuiu as suas oportunidades educacionais, delapidou o seu meio habitacional e urbano, deixou os bairros sob uma ameaça de gangs de criminosos e, devido à sua associação simbólica com o crime, a violência e as drogas, usurpou a legitimidade das suas opções políticas» (in Manuel Castells, O Fim do Milénio). Não, não será certamente este o sonho de JPP? Ou será que é?

quarta-feira, novembro 09, 2005

A propósito da revolta dos imigrantes

"Na sociedade, o espírito de revolta só se torna possível em grupos nos quais uma igualdade teórica oculte grandes desigualdades reais"
(Albert Camus, O Homem Revoltado)

As causas de Sampaio

No início do seu primeiro mandato o nosso presidente elegeu a causa da lamúria como o grande mal nacional. Agora no fim descobriu o mal do 'chico-espertismo'. Levaria mais dez anos para Sampaio perceber que os portugueses da lamúria são precisamente aqueles que não conseguiram ser portugueses chico-espertos.

Só os clássicos me trazem novidades


Blogoversa

Não. Acho que só a partir de 3ª feira que vem.

terça-feira, novembro 08, 2005

The Lizard-King


Pela ouvidela rápida dificilmente escapará à lista de melhores do ano. Mas como isso importa tanto como lixo, melhor será dizer que, pela escutadela fugidia, este será álbum para voltar a colocar Oldham (aqui vestindo a fatiota Prince Billy) lá bem no alto, onde poucos chegaram e onde muito menos se mantêm. Desde logo uma alegre notícia para aqueles que acreditam que os álbuns ao vivo deveriam ser uma reeinvenção do material de estúdio: este é-o completamente. Depois, talvez melhor ainda, imagine-se o reportório de Oldham, proveniente das suas diversas encarnações - Palace, com ou sem Brothers, Oldham ou Prince Billy - esmagado por um poderoso rolo compressor que o deixa como se acabadinho de ver a luz do dia há cerca de 30 anos, que o mesmo é dizer, confere-lhe uma roupagem de rock setentista com tudo o que isso tem de bom, de muito bom e de excelente. Só que a coisa não se fica por aqui, pois o som dos Doors de LA Woman (ou outro qualquer dos melhores), dos Crazy Horse e Neil Young ou dos Velvet de Loaded é por sua vez mastigado pela trituradora de Oldham (várias guitarras, baixo, bateria, teclas e ainda coros femininos), que usa essa massa para revestir depois as canções de uma aridez cortante. Isso mesmo, esta música abrasiva corta como poucas hoje em dia. Se em Viva Last Blues os Palace já a tinham ensaido, aqui levam a experiência um passo mais adiante e saem-se muitíssimo bem, e o seu country-rock de agudas e serradas arestas não se ressente minimamente pela invocação de referências de cariz mais urbano, chamemos-lhe assim, para a sua paisagem sonora de seca extrema. Assim de repente... um disco que cospe directamente do turbilhão folk-rock da década de 70 um epíteto que Oldham pode, mais que ninguém hoje ou ontem, pendurar ao pescoço, dizendo: eu sou o rei-lagarto, eu posso fazer o que bem entender. Os últimos 10 anos têm-no provado.

Kentridge no Chiado


«Animar é dar vida. Esta é uma chave possível no diálogo com as animações mostradas pelo artista sul-africano William Kentridge (Joanesburgo, 1955) no Museu do Chiado e para nos abeirarmos do tributo que nelas presta ao pioneiro do cinema Georges Méliès, que no final do século XIX transportou a Sétima Arte da intenção documental para o campo da efabulação e do fantástico. (...) No seu caso, a animação não é tanto uma adequação à expectativa de movimento da imagem do espectador contemporâneo mas um produto de condensação do próprio processo de trabalho onde o desenho, sempre em estado de transfiguração detém um papel crucial. (...)Conhecido internacionalmente a partir dos anos 90 pelos seus filmes feitos com desenhos a carvão e pastel, onde o humor e a angústia se misturam, Kentridge apresenta em Lisboa um conjunto de trabalhos em que o nível de abstracção se adensa e a performance ganha terreno. (...) Mas é ainda um mundo misterioso onde o erotismo, o humor e o sonho se oferecem em múltiplas efabulações.»
excertos de «Ao Vivo no estúdio», Celso Martins, in Expresso, 15.10.05

Zack la Rogue


Zack Rogue é nome de rapaz que anda descaroçando orelhas de melómanos no mundo pop/rock lo-fi de guitarra. Em cerca de um ano a Sub Pop mandou cá para fora dois discos da banda do moço, os Rogue Wave, e os resultados, diga-se, sem arrebatar agradam. Não havendo propriamente razão para fazer o coração ribombar a 800 bpm (batidas por minuto), o facto é que a música é inspirada. É certo que a cada 90 segundos lembramo-nos de alguém que há 2, há 20, ou há 40 anos fez algo parecido, mas, escutada a cançãozinha, não enjoa, bate-se o pezinho e fica na cabeça. E quando assim é, venham os tremocitos e a bejeca que às vezes também não apetece ir mais longe. É que vamos lá ver, um gajo não pode ouvir Dylan, Eitzel, Edwards, Berman ou Oldham todos os dias. O coração não aguenta... a cabeça também não.

segunda-feira, novembro 07, 2005

Esquerda liberal vs direita liberal

Actualmente a ideia de liberalismo esfrangalha-se pela direita e pela esquerda, conforme as conveniências. Para a esquerda o direito à liberdade individual é propagandeada, sobretudo, ao nível dos valores. Nesta óptica, por liberalização entende-se o acesso relativamente livre, de impedimentos legais exclusivistas e excessivamente punitivos, a determinado tipo de práticas sociais e culturais - como é o caso do aborto, do uso de drogas, da sexualidade, etc. Para estas situações, a esquerda considera que o arbítrio moral depende, acima de tudo, da consciência individual de cada um e não de uma regulamentação geral determinada pela chancela do Estado. Neste sentido, a luta pelo liberalismo dos valores é uma luta contra o Estado.
À direita o projecto liberal é fundamentalmente de natureza económica. Também aqui o Estado é o alvo principal de contestação, quando se apregoa a desregulação de todo o tipo de proteccionismos. Para a direita liberal, a liberdade individual só se concretiza plenamente por intermédio do mercado livre.
Deste modo, a esquerda luta contra o Estado em nome de uma sociedade mais livre, a direita luta contra o Estado por um mercado mais livre. A situação inversa parece à partida impossível. Jamais veremos a direita a favor da liberalização das drogas ou do aborto, assim, como será difícil ver a esquerda apoiar uma liberalização absoluta do mercado.

No entanto, há uma grande diferença. Para a esquerda liberal o mercado só pode ser justo se for regulado pelo Estado. E isso faz-se, entre outras coisas, ao conseguir-se garantir uma certa igualdade de oportunidades a todos os cidadãos (à educação, à saúde, à justiça…). Assim, a liberdade perante o mercado só é plenamente alcançada se as principais desvantagens no acesso aos mesmos bens e serviços forem anuladas. Só igualizando as oportunidades se garante uma sociedade meritocrática e, neste sentido, liberal. Esta é a utopia da esquerda (pelo menos da esquerda em que me posiciono). Em contrapartida, para a direita liberal não existe liberalismo nos valores. Nestas questões a sua posição é essencialmente conservadora, na medida em que defende a regulação da moralidade por parte do Estado. Para a direita a moral deve ser imposta pela lei do Estado. Esta deverá estar acima de qualquer liberdade individual.

domingo, novembro 06, 2005

Escolha a crise que lhe dá mais jeito

Os distúrbios violentos que decorrem em França têm sido abordados como sendo um sinal de insustentabilidade do sistema. Para a direita é a crise do sistema político, nomeadamente, do modelo social europeu e do Estado Providência. Para a esquerda é crise do sistema económico que, devido à globalização, provocou um aumento brutal das desigualdades sociais e dos níveis de pobreza. A retórica da crise enche os tablóides e as televisões. Cada lado culpa o outro de cegueira e de não querer ver a verdade dos factos. Já não há paciência para ouvir ou ler estes arautos do óbvio que pintam o mundo a uma só cor. Como se tudo isto se tratasse de um concurso: globalização ou estado social? Acerte você mesmo!

sábado, novembro 05, 2005

Aurora


Ao contrário do que tem sido veiculado por alguns cinéfilos, é perfeitamente possível amar cinema e não ser particularmente entusiasta desta obra de Murnau. A esta distância de praticamente 80 anos, o que ela nos pede de pureza no olhar é quase sobrenatural, e se alguns a concedem de bom grado, pela beleza que no todo a empreitada encerra, outros nem por isso. E não virá daí grande mal ao mundo, nem a Murnau. Quanto muito, apenas aos próprios. Mas não se preocupem com isso.

Deixem de sonhar seus privilegiados

O ministro das finanças disse que nem nos melhores sonhos o ordenado mínimo nacional chegará aos 500 euros até 2010. Na mesma semana em que afirmou considerar perfeitamente merecido o ordenado chorudo do director geral dos impostos (o tal que foi contratado por Ferreira Leite), que ultrapassa três ou quatro vezes o que ganha o Presidente da República. E é assim que um governo socialista faz política! Comparado a este nível de arrogância até a Manelinha parece ser uma santa. Poderiam no mínimo dizer: “bem esse é um objectivo legítimo mas que é difícil concretizar a médio prazo…”. Pelo menos ainda aparentavam algum respeito pelos trabalhadores.

Nisso?

Li há pouco o texto (Pensem nisto) em que o historiador Rui Ramos vem dizer o que espera de Cavaco na presidência da república. Conclusão: ou os governos deste país seguem a cartilha cavaquista ou devem ser destituídos. Para sustentar esta ideia de controlo musculado da acção governativa, o texto envereda ainda por quatro ou cinco linhas fortes, mas confesso que, de Rui Ramos, esperava bem melhor.

Desde logo a questão de os governos hipotecarem o futuro, ou a tentativa de “salvar o ‘statu quo’ à custa do futuro”. Como todos sabemos, entre 1985 e 1995, no consulado de Cavaco, o controlo do défice era implacável. Não, não é ironia, falo a sério, só que ao contrário: mal o “monstro” descia da casa dos dois algarismos percentuais, accionava-se imediatamente o plano nacional de emergência e, à falta de ideia melhor, enterravam-se algures uns milhões de contos em betão. Estranha forma de não hipotecar o futuro.

Do sebastianismo. Havendo cinco candidatos, não parece estranho a Rui Ramos que se fale de sebastianismo apenas em relação a um deles, curiosamente aquele que na verdade andou dez anos desaparecido e agora pretende ser Presidente da República? Vejamos, também acho que por cá se refere o sebastianismo por dá cá aquela palha, mas a candidatura de Cavaco não é certamente o exemplo mais estapafúrdio para o invocar.

Seguidamente o argumento de que tanto Alegre como Soares agora imitam Cavaco. Um, “de repente, também quer ser independente dos partidos”, e o outro “finalmente compreende, depois de muitos anos, que sem criação de riqueza o Estado Social não sobreviverá”. Não se desse o facto de a candidatura do primeiro ser de facto independente do PS, enquanto a de Cavaco Silva não o é efectivamente do PSD, e de o estado do Estado Social português ter muito a ver com os dez anos de governo do professor, e talvez a ideia funcionasse. Assim é gincana argumentativa.

Pelo meio fica também um estranho entendimento do tempo, que põe no mesmo plano “os choques do dr. Barroso e do eng. Sócrates”, isto é, equipara dois anos e meio de governo Barroso (quase quatro anos de PSD/PP, no total) a pouco mais de seis meses de governação Sócrates. Deve ser porque dá jeito.

Diz ainda que em política, hoje, “quem quiser ser levado a sério tem de ser um pouco ‘cavaquista’”. Eventualmente até será verdade, só que a sê-lo é por aquilo que efectivamente Rui Ramos não escreve, isto é, que dez anos de desaparecimento dão para conferir um certo ar de neutralidade a qualquer acto de ressurgimento, sobretudo pelo não comprometimento com nada nem com ninguém durante esse período. Até vou mais longe: nesse sentido é fácil ser Cavaco Silva. Mais difícil seria ser Presidente da República.

sexta-feira, novembro 04, 2005

A cidadania do consumo

A distinção entre cidadão e consumidor que tem alimentado algum debate na blogoesfera, reflecte uma concepção redutora de cidadania de alguma esquerda e que provocou algum alarido por parte da direita. De facto, entendo que, cada vez mais, a identidade cultural e política dos indivíduos passa pela forma como constroem os seus estilos de vida. E as práticas de consumo são uma componente essencial dessa identidade. A roupa que se veste, os livros e Cds que se compram, os alimentos que se confeccionam, etc. Tudo isto e muito mais faz parte integrante da nossa identidade e do modo como nos apresentamos perante o outro. Neste sentido, encarar o acto de consumo como um mero acto de alienação (essencialmente passivo), não só é um engano como reflecte uma incapacidade da esquerda enquadrar o mercado como uma realidade (económica, social e cultural) concreta na qual nós participamos todos os dias.
O consumo pode ser visto como um acto de cidadania quando, por exemplo, em consciência as pessoas recusam adquirir determinado produto de tal marca porque foram utilizadas substâncias poluentes, trangénicas, ou porque a empresa em causa empregou mão-de-obra infantil… Deste modo, o acto de consumir poder ser plenamente político, porque é reivindicativo.
Como escrevi noutro sítio, na sociedade moderna o consumo tende a assumir uma dimensão política. Pode constituir um poderoso instrumento de reivindicação e uma verdadeira força de expressão de descontentamento e de mal-estar. Representa a possibilidade de, através do mercado, reduzir as desigualdades determinadas pelo sistema produtivo. É urgente que a esquerda compreenda esta capacidade e integre no seu movimento uma política de consciencialização perante o consumo.
Concluindo: ser cidadão é mais do que ser mero consumidor, mas ser cidadão também é ser consumidor.

O mundo simples de José Manuel Fernandes

É um mimo de sociologia de esplanada a visão do director do Público sobre os bairros problemáticos dos arredores de Paris que estão na origem dos motins dos últimos dias: «Os que fizeram pela vida partiram e vivem em habitações que correspondem às suas ambições sociais. Outros não o fizeram. Ficaram para trás, queixando-se, desistindo, aceitando a marginalidade e convivendo com ela.» Simples, não é? Quem quer, enriquece; quem não quer acomoda-se. Os preguiçosos merecem o pouco que têm e os audazes são sempre recompensados. Ao menos Sarkozy foi directo, chamou-lhes escumalha.

Um Rio demasiado turvo

Depois de uma manchete menos simpática do Jornal de Notícias, Rui Rio resolveu entrar em «blackout» parcial. Só aceita entrevistas por escrito, ou seja, não aceita contraditório, como só se passa nas ditaduras. Este tipo de coisas acontece em Portugal quando os políticos, investidos de uma forte legitimidade eleitoral, se esquecem que o jogo democrático não acaba aí, como se tivessem todos os trunfos na manga. Alberto João Jardim anda a explicar-nos este processo há anos. Aos jornalistas sobram duas opções: ou entram no jogo e amocham ou fazem um bocadinho de pedagogia democrática e a solução é só uma: boicote.

quinta-feira, novembro 03, 2005

A direita revolucionária

Para a direita (sobretudo a liberal) o mercado é naturalmente justo e o Estado é por natureza perverso. Em contraposição, para a esquerda, o Estado representa um garante fundamental de justiça social, enquanto o mercado sem regulação é gerador de fortes perversões e injustiças. A direita desconfia do Estado e a esquerda desconfia do mercado. São posições de princípio obviamente inconciliáveis. No entanto, existe uma diferença nos pressupostos que sustentam esses princípios: a direita liberal quer acabar com o Estado, em contrapartida, a esquerda (mesmo a menos moderada) não apregoa o fim do mercado. Neste sentido, a proposta liberal é actualmente muito mais radical do que qualquer outro movimento de esquerda. Esta implica uma forte ruptura estrutural que passa pela destituição do Estado providência e a instauração de um modelo de sociedade determinado pelas leis do mercado livre. Um mercado sem qualquer tipo de regulação estatal entregue ao domínio absoluto de uma divindade: a mão invisível. Toda a proposta da direita liberal assenta na convicção desta crença. Para eles o mercado livre é inquestionável. Tal como foi para outros a ditadura do proletariado. E o resultado foi aquilo que se viu.

O medo ao contrário

À direita, e ontem Constança Cunha e Sá, entrevistando Soares, insistiu nessa tecla, diz-se que a esquerda tem medo de Cavaco. Para dar consistência ao mito fala-se do número de candidaturas à esquerda, quatro, todas contra o professor de economia. Trata-se, claro, de uma baboseira, desde logo visando esconder a realidade inversa. Na verdade, o eleitorado de esquerda pode rever-se nas suas múltiplas tendências nos vários candidatos. Já a direita esconde-se inteirinha atrás de um homem apenas, que, sabemo-lo, não corporiza todas as inclinações do sector ideológico a que está efectivamente a dar voz. Isto sim é medo. Não o contrário.

O coaching de Alegre

Jesualdo Ferreira e Manuel José apoiam Manuel Alegre
A táctica do quadrado será com certeza bem ensaiada.

Grande capital ameaça fazer férias no estrangeiro...

quarta-feira, novembro 02, 2005

A fuga da direita liberal

O que procura a direita liberal? Este post publicado num blogue homónimo (mas de direita), é revelador do modo como esta área política encara a sua missão na sociedade portuguesa. Primeiro, não deixa de ser curioso verificar a mudança do estilo retórico. Palavras como batalha ou luta deixaram de ser exclusivas do vocabulário da esquerda. E isso é positivo. Mas que luta é essa? Basicamente são dois os alvos dos liberais. Por um lado, apregoam o desmantelamento radical do Estado Providência que, segundo a sua visão, representa o cancro maior da nossa sociedade. Por outro, entendem que a partir os despojos desse Estado emergirá a verdadeira liberdade individual, sob a alçada de uma sociedade de mercado. Ou seja, uma sociedade onde o indivíduo dependa exclusivamente de si e das suas condições objectivas e subjectivas para poder não só subsistir, como ascender economicamente. No fundo, a ideia base é: mate-se o Estado para que reine a vontade individual. É uma utopia antiga que tem por base uma crença: a crença que uma tal mão invisível faça justiça. Isto é, se todos os indivíduos jogarem o mesmo jogo (sem perversão, nem corrupção), utilizando as mesmas regras (as do mercado), aqueles que são mais capazes vencerão e terão naturalmente acesso a melhores condições de vida. Portanto, a consequência da mão invisível (o tal jogo livre do mercado) é uma espécie de selecção natural que separará o trigo do joio. Só assim a sociedade tornar-se-á mais fértil e logo mais avançada.

Ao propor uma batalha cultural, o que indica uma certa perspectiva vanguardista, a direita liberal tenta distanciar-se do pensamento conservador. No entanto, não é difícil perceber que no essencial a direita liberal continua a utilizar a mesma lógica conservadora para criticar o Estado social. Segundo Albert Hirschman, o pensamento conservador utiliza sobretudo duas teses para pôr em causa o Estado Providência. A primeira é a da futilidade, que nos diz que este tem o seu fim anunciado independentemente da vontade política dos governos e de grande parte da sociedade civil: o Estado social é fútil porque não tem remédio, por isso, vai destruir-se. A outra tese é a da perversão, que considera que o definhamento do Estado social se deve ao facto de este ter gerado uma série de perversões ao seu objectivo inicial. Ou seja, o Estado providência foi constituído para atenuar as desigualdades sociais, mas acabou por gerar um sem número de perversões que tiveram precisamente o efeito contrário: gerar mais desigualdades. As teses da perversidade e da futilidade são caras à direita tradicional e, neste aspecto, a direita liberal veste uma roupagem essencialmente conservadora.
Quanto ao seu projecto vanguardista, este, como vimos, não passa de uma crença. Basicamente tem-se fé numa mão que ninguém vê. Também aqui pouca diferença a direita liberal faz em relação ao património conservador. Basicamente não propõe nada de novo. A sua diferença é meramente na sua retórica mais agressiva e voluntarista. E também isso não é novo, pois, não fizeram mais do que importar algumas bandeiras da esquerda, como a ideia da revolução cultural… De facto, a direita liberal está para o conservadorismo, um pouco como o maoismo estava para o comunismo soviético. Mudam-se as vestes mas o fato continua a ser talhado com a mesma tesoura.

terça-feira, novembro 01, 2005

Foi há 250 anos

Fica aqui a nossa sugestão de leitura sobre o grande terramoto:



E já agora podem consultar o pequeno blogue sobre o mesmo assunto.
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