sábado, setembro 30, 2006

Cidades com pés de barro


O estudo divulgado hoje pelo jornal Público sobre o índice de competitividade das cidades, revela uma realidade que, há pelo menos duas décadas, vem alterando a estrutura territorial do país. De facto, as cidades médias, nomeadamente as que se situam no interior, têm conhecido um desenvolvimento apreciável que se expressa, entre outros aspectos, no aumento da qualidade de vida. No entanto, a natureza desse desenvolvimento assenta principalmente em factores que se podem tornar pouco sustentáveis a médio prazo. Na sua maioria estas cidades são pouco industrializadas, e cresceram sobretudo à custa da terciarização da economia (com destaque para o comércio e algum turismo) e da implantação de certos serviços públicos: hospitais, escolas e instituições de ensino superior. Por exemplo, as universidades e os politécnicos tiveram um grande impacto (ainda por estudar) nas economias locais e nos respectivos tecidos urbanos.
Contudo, actualmente depreendem-se, neste como noutros sectores, alguns sinais preocupantes que tendem a inverter as tendências de crescimento, que conheceram a sua época de ouro na segunda metade da década de 90. A perda contínua de alunos, que atinge principalmente o ensino politécnico, levará inevitavelmente ao encerramento de algumas instituições de ensino superior. Por outro lado, as políticas de concentração de serviços levadas a cabo por estes últimos dois governos (umas necessárias, outras nem por isso), como as que ocorrem actualmente no sector da saúde, implicarão, não só, uma redução da população activa, como representarão uma diminuição nos índices de competitividade e na capacidade de atracção de novos residentes.
Urge portanto investir em políticas urbanas e regionais que dotem estas cidades de plataformas sustentáveis de desenvolvimento. No sentido de se gerarem as condições necessárias para se constituírem nódulos de inovação e de excelência que possibilitem verdadeiras parcerias, entre empresas privadas e universidades públicas, capazes de concretizarem projectos de investimento que mobilizem e rentabilizem os recursos locais. Para isso acontecer é fundamental apostar nos serviços públicos e no ensino superior de qualidade. Começo a ter dúvidas sobre se este é o caminho que está ser traçado. Na verdade, a via do encerramento sem contrapartidas (de maternidades, de urgências hospitalares, de escolas, de cursos…) pode a curto prazo beneficiar as contas públicas, mas, no futuro, poderá comprometer o desenvolvimento destas cidades.
Foto: imagem aérea do centro histórico da cidade de Évora.

Feiras de artesanato urbano: a próxima é no Jardim da Estrela (divulgação)

Vieram sorrateiramente e, agora, parece que pegaram. Que o diga o Jardim da Estrela, que vai ter a sua 2.ª Feira de artesanato urbano já amanhã, das 9h às 19h30 (repete no feriado do 5 de Outubro, 5.ª feira).
Conta com a presença de artesãos, mas tb. de designers, ilustradores, ceramistas, etc.. Para mais detalhes vd. o blogue dos mentores, o Arquitexturas.
A quem decida ir a esse acolhedor parque alfacinha, um bom passeio!

sexta-feira, setembro 29, 2006

Revitalizar Lisboa, pelo bom uso do seu património, devolvendo-o às populações

Na 3.ª passada, a Assembleia Municipal de Lisbou (AML) aceitou a venda da Quinta da Nossa Senhora da Paz, mas impôs como condição a manutenção de uso público (impossibilidade de mais construção e obrigação de preservação do espaço verde: vd. aqui). Valeu a pena a contestação argumentada de muitos cidadãos e autarcas, dos partidos da Oposição e de associações locais, a começar pela Associação de Residentes de Telheiras.
Esta última, e para vincar que o destino a dar à Quinta deverá ser o aprovado pela própria AML em 2002 (o Museu do Brinquedo) ou afim, lançou uma petição on line, que pode ser lida aqui. O abaixo-assinado tb. é apoiado pelo Fórum Cidadania Lisboa.
Em 2005, Os Verdes tinham tb. sugerido medidas para recuperar o palacete (cf. aqui).
Entretanto, o próximo alvo parece ser o Pal.º Braancamp (ao B.º Alto), onde viveu Fontes Pereira de Melo e era o ex-Liceu Francês (para mais inf. vd. aqui). Já para reforçar a frota automóvel dos srs. dirigentes da CML é que parece não haver falta de dinheiro: "a CML irá levar a votação na AML uma proposta de aluguer de viaturas para os vereadores e chefias da CML que custará ao longo dos próximos 4 anos 5 milhões de euros… e a Quinta da Paz vai a hasta pública por 4,2 milhões". São as linhas com que se cosem as opções políticas de parte das nossas elites. Depois não venham dizer que não havia alternativas.
Nb: imagens da CML e IPPAR.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Celebridades: suas mães também erram...

8 motivos para não se confiar sempre nos conselhos das mães das celebridades (especialmente para si, sr. telespectador de bons pugâmas):
1.º- Deixa de jogar à bola e vai estudar para poderes ter um futuro! (conselho descabido da Mãe do Ronaldinho)
2.º- Pára de gritar! (Mãe de Luciano Pavarotti)
3.º- Deixa de brincar com essas máquinas ou nunca terás nada na vida! (Mãe de Bill Gates)
4.º- É a última vez que rabiscas as paredes da casa de banho! (Mãe de Michelangelo)
5.º- Pára de bater na mesa, estou cansada desses ruídos! (Mãe de Samuel Morse)
6.º- Fica quieto duma vez por todas, daqui a pouco vais querer dançar nas paredes! (Mãe de Fred Astaire)
7.º- Nada de igualdades, eu sou a tua mãe e tu és o meu filho! (Mãe de Karl Marx)
8.º- Pára de mentir! Tu pensas que estares sempre a mentir te irá ajudar a seres alguém na vida!? (Mãe de José Sócrates)
Nb: autor anónimo.

terça-feira, setembro 26, 2006

É justo que se 'link'

Ora aqui está uma iniciativa interessante. Obrigado pela dica evatrai e, já agora, parabéns pela concepção gráfica.

Blogues sobre Lisboa, bem precisamos deles

É oficial: foi aprovado pelo executivo da CML a venda em hasta pública da Qt.ª de N.ª Sr.ª da Paz, pondo em causa 1 espaço classificado e protegido pelo IPPAR (o Conjunto do Pç. do Lumiar), parte integrante do Parque Periférico (2.º pulmão de Lx.) e contrariando a proposta dos serviços municipais de aí se instalar o Museu da Criança/ do Brinquedo (cf. aqui). Sugiro tb. uma visita à resma de promessas para o 1.º semestre de mandato do eng. Carmona (pomposamente designada Nos primeiros 180 dias da minha governação na Câmara Municipal de Lisboa), é um delírio completo. Vide só este mimo: "Promover, junto de Associações de Moradores, Colectividades e organizações de juventude, a realização de concursos de ideias para a elaboração de super-grafismos em superfícies edificadas como por exemplo empenas cegas, viadutos, túneis, muros de suporte, entre outros, no sentido de fomentar a Arte Muralista em Lisboa propiciando a descoberta de novos talentos".
Por Zeus, nem tudo vai mal, pelo menos há escrutínio cívico e debate; aqui ficam alguns blogues que fazem um ou outra, ou ambos:
Bic Laranja (c/mts. fotos antigas, sobretudo do Arq.º Fot.º da CML, e comentários actuais);
BlogNoBotânico (dedicado ao Jardim Botânico de Lx.);
Cidadania Lx, do Fórum Cidadania Lisboa (é o blogue +activo no escrutínio da acção municipal, daí ser obrigado a concentrar-se na vigilância crítica dos sucessivos casos criados pela actual edilidade; c/boa lista de links);
De Lisboa (c/mt. inf. genérica, e tb. sobre a história da cidade, tem a melhor lista de links específicos, por secções);
Forum Lisboeta (porta-voz dos autarcas e representantes do CDS-PP/Lisboa, c/mt. inf. sobre a sua actividade específica);
LisboaLisboa e LisboaLisboa2, ambos de José Carlos Mendes (ligado ao PCP/Lisboa, c/mt. inf. útil e comentário político);
Olissipo (c/mt. inf. útil quotidiana, retirada sobretudo da imp.ª, e links úteis);
Planeta Alfama (inf. sobretudo sobre Alfama, urbanismo e arq.ª, c/boa lista de links);
Sétima Colina, de Ant.º Almeida (dedicado à freg.ª S. Mamede, c/boa lista de links);
Viver melhor no Bairro Azul (pugna pelo mero respeito do estacionamento civilizado, do não abate de árvores antigas, da segurança rodoviária, etc.);
Viver na Alta de Lisboa (c/inf. própria sobre a Alta de Lisboa, c/boa lista de links específicos).
Sobre associações de moradores (que não porta-vozes de dirigentes) vd. ainda os seguintes sites: ART - Assoc. de Residentes de Telheiras (f.1988, defende 1 urbanismo sustentável no b.º e promove actividades sócio-culturais: vd. tb. aqui); Assoc. «Vamos Renovar Lisboa» (f.2004, activa da reabilitação urbana, responsável pelo cadastro de prédios abandonados, vd. infra); Jornal da Praceta, de Carlos Fontes (c/inf. sobre as freguesias de Alvalade, Cp. Grande e S. João de Brito); Lisboa Verde. Assoc. para a Defesa dos Espaços Verdes de Lisboa (foi a 1.ª a dar o alerta sobre o caso Infante Santo e a lançar 1 petição contra a absurda cont. do Campo de Tiro de Monsanto); SOS Bairro Azul - Comissão de Moradores (prossegue actividade similar à do blogue do B.º Azul).
Resta referir 1 site mt. relevante, o Lisboa Abandonada: deprimente mas esclarecedor do que está ocorrendo em termos de degradação do edificado, cadastrando 1808 casas abandonadas (mas fala-se em +de 5 mil: vd. aqui) e só 33 delas recuperadas. Para quando o reforço das obras coercivas e a criação de taxas penalizadoras pela não utilização de prédios devolutos?
PS: há tb. o site do Grupo dos Amigos de Lisboa, instituição criada em 1936 para a defesa do património lisboeta mas que se ateve sobretudo à olisipografia (edita a revista Olisipo, faz visitas de estudo); por ter sido despejada recentemente, e por outras razões, tem tido pouca intervenção pública. Ah, e quem quiser saber dos Prémios Valmor, é só ir aqui; quem quiser saber de des.º comunitário promovido pela Fundação Aga Khan é ir aqui. Boas visitas!

domingo, setembro 24, 2006

Volver


Vi o último filme de Pedro Almodovar e, tal como os anteriores, gostei imenso. Aliás, saio sempre da sala com a sensação de que vi o melhor filme realizado pelo próprio. Esta sensação não me acontece em relação a muitos mais realizadores. Talvez isso suceda porque tudo aquilo nos é tragicamente próximo. Este filme é sobre mulheres fortes e os seus silêncios. Mulheres que, de alguma forma, conhecemos e que nos são ou foram familiares. Não é muito difícil recordá-las e imaginá-las na vida daquelas personagens. Durante o filme também eu voltei a alguns lugares (reais ou imaginados) que já não me lembrava há muito tempo.

Zygmunt Bauman, o pensador da globalização individualizada

Excelente o post de ontem de João Paulo Sousa sobre a desagregação actual dos laços sociais, incutida por um medo social ideologicamente fabricado e independente dos contextos económicos objectivos particulares.
Tudo isto a propósito da tradução para português de Portugal (para o Brasil já fora traduzido há séculos, por Jorge Zahar Editor, vd. artigo analítico de Daniel Soczek aqui) dum dos últimos livros do sociólogo polaco Zygmunt Bauman (n.1925), um dos grandes pensadores actuais das vivências sociais sob a globalização e, em particular, das consequências das representações sobre a convivência urbana. O medo social como escapatória para o interelacionamento social, o individualismo como único refúgio, é uma das teses principais da sua obra seminal, Modernidade líquida, or. 2000, Polity Press (vd. aqui).
É um post pertinente, não só pela síntese divulgativa que faz mas, sobretudo, pelo sentido de oportunidade que almejou, ao remeter para as implicações sociais das opções políticas em matéria de Segurança social.
Vale a pena atentar nas ressonâncias plurais, mais do que proféticas, do pensamento de Bauman, como nesta passagem em que retoma Herbert Sebastian Agar (A time for greatness, 1942): a verdade que torna os homens livres é, na maioria dos casos, a verdade que os homens preferem não ouvir»" (Modernidade líquida, Rio, Zahar Ed., 2001, p. 26). Indo mais além, Bauman interroga-se sobre os benefícios da liberdade, revendo toda uma galeria de autores até chegar a Émile Durkheim e à sua "filosofia social compreensiva": "«O indivíduo se submete à sociedade e essa submissão é a condição de sua libertação. Para o homem a liberdade consiste em não estar sujeito às forças físicas cegas; ele chega a isso opondo-lhes a grande e inteligente força da sociedade, sob cuja proteção se abriga. Ao colocar-se sob as asas da sociedade, ele se torna, até certo ponto, dependente dela. Mas é uma dependência libertadora; não há nisso contradição»" (ibidem, p. 27).
Nb: para mais informações vd. perfil aqui.

sábado, setembro 23, 2006

Gaiteiros de Lisboa prestes a tomar de assalto o Parlamento!

Preparem-se, é já hoje que esta horda bárbara tomará de assalto o vetusto Parlamento português, no âmbito das Jornadas Europeias do Património (org. do IPPAR). O estrilho começa às 18h, quem puder já sabe, tem nesta suave tarde uma oportunidade única para conhecer os últimos sons mais desvairados do planeta.
Para mais informação sobre esta trupe de bardos mágicos vd. site oficial (onde se pode ouvir algumas das suas toadas) e crónica em cima do acontecimento do Fuga aqui.

sexta-feira, setembro 22, 2006

HI FI

Ontem teve lugar mais uma “Beatice” da direita liberal. A oração, como se viu, não se altera e repete-se até à exaustão, até cansar o ouvido e banalizar-se. É uma técnica clássica de propaganda. Aliás, sempre que se auto-propagandeia esta direita, que se diz radical e moderna, veste uma postura conservadora de modo a transmitir alguma seriedade. A começar pelo título do evento: Compromisso Portugal. É, de facto, uma direita séria que quer manter o compromisso a todo o custo. A relação de fidelidade é para o resto da vida. Por isso, não será de estranhar que daqui a 20 anos as intenções se mantenham, independentemente do contexto e da situação económica. O que é preciso é que continuem a existir sectores para privatizar e funcionários públicos para despedir. Qualquer outra opção será sempre considerada irrelevante e dogmática. Daí que para esta direita não é possível a infidelidade. Eles sabem que têm razão e, por isso, nunca poderão ser traídos. Não é Portugal?

Lisboa em saldo

Com o despautério das promessas feitas, a começar pelo sorvedouro do túnel do Marquês, era de prever que um dia chegaria uma pesada factura.
Em vez da moralização dos gastos- cortando nas assessorias e motoristas aos molhos, nas horas extraordinárias indevidas (há uns 5 anos atrás, foi revelado pelo Público que 1/3 da massa salarial era devido a horas extraordinárias, apesar de haver 10 mil funcionários públicos na capital) e outras mordomias que tais-, a edilidade de Lisboa optou pelo caminho mais fácil (e apetitoso para alguns): o da venda dos anéis.
Por ora, foram 13 os palacetes e quintas colocados em 'leilão', como noticiou o Público de 19/IX e reproduziu o Fórum Cidadania Lisboa no seu blogue Cidadania Lx. Nem se hesitou perante os avultados investimentos e valor patrimonial de alguns deles, como foi o caso do Pal.º Pombal. Entretanto, dado o repúdio generalizado e a atmosfera de ridículo que começou a espalhar-se sob algumas silhuetas, o vice Fontão de Carvalho deu 1 passo atrás qt. a este anel, mas deixou os outros espaços no cadafalso.
Após o caso das piscinas municipais (que ainda vai no adro..), esta é mais uma prova da desorientação estratégica que reina nesta liderança. Este leilão é um útil bode expiatório: se o propósito era arrecadar fundos para reduzir a dívida, então que se arrendasse e vendesse as centenas de prédios devolutos da CML existentes na cidade. Do mesmo passo, estancar-se-ia a sangria demográfica verificada na capital nas últimas décadas, dado o alto custo da escassa oferta imobiliária disponível.
Tal postura contraria qualquer perspectiva de desenvolvimento urbano: estes espaços deviam antes ser vistos como pólos revitalizadores dos contextos locais e comunitários, como foi comprovado pela actuação em alguns deles até há bem pouco: é o caso exemplar do labor duma comissão de moradores na agora ameaçada Quinta da N.ª Sr.ª da Paz (Est. Pç. Lumiar, 46). Sobre este caso, aqui fica a análise crítica da ART – Associação de Residentes de Telheiras, uma das mais mais antigas do género no país (f. em 1988: vd. este oportuno tx.):
"Esta Quinta e Palacete, vendidos à CML em 1975 pelos seus antigos donos para servir a população local, foi usada até 2000 como ATL e creche por uma comissão de moradores que a cuidou com zelo e a entregou nessa data à CML, dada a abertura da Escola EB 1 e Jardim-de-infância do Alto da Faia. A partir de então ficou ao abandono, sendo vandalizada e saqueada pois não tinha qualquer vigilância e serventia. A Junta de Freguesia do Lumiar propôs a instalação ali dum Museu do Brinquedo, proposta aprovada em 2002 pela Assembleia Municipal, mas sem qualquer efeito prático. O bonito jardim anexo poderá constituir um espaço verde para a freguesia, sobretudo numa área em rápida urbanização e como envolvente ao Templo Hindu, edifício característico e de utilidade pública. Por todas estas razões, a intenção da CML de vender este imóvel merece da parte da ART [..] a maior desaprovação e caso se concretize, um enorme protesto! A alienação de tão significativo património a particulares irá sem duvida alterar o seu uso, quiçá torná-lo num condomínio privado, com densificação urbana duma zona histórica sensível e afectar o ambiente próprio e peculiar do Paço do Lumiar. Receber um património, deixá-lo ao abandono para depois o vender e pagar passivos, não é decerto a melhor forma de gerir! Não existe o arrendamento? A cedência temporária com contrapartidas? Quantas instituições públicas e privadas procuram um espaço daqueles a título temporário?" (excerto de comunicado de 19/IX).
Perante isto, resta-nos continuar a contestar, com argumentação e alternativas: além da venda de prédios devolutos (e reabilitação e venda doutros pela EPUL), a CML devia antes apostar nas parcerias com as associações locais como a que ocupava a Qt.ª de N.ª Sr.ª da Paz e viabilizar as propostas fundamentadas dos órgãos mais próximos dos cidadãos, como a junta de freguesia local, que propôs um Museu do Brinquedo que tanta falta faz na capital.
O que aqui fica dito é com a esperança de que ainda prevaleça o bom senso pelos lados dos paços do concelho. Esperemos que sim.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Media mainstream, descubra as diferenças

"Sabe bem poder escolher e ter por onde. [...] O problema é que nem sempre a quantidade, pelo menos nesta matéria, é sinónimo de diversidade. Vamos ao exemplo mais fácil e mais óbvio da televisão [de sinal aberto]. [...] como ninguém pode nem deve proibir que os senhores nos massacrem os serões só com aquilo [telenovelas], e sempre só com aquilo, sempre só com aquilo, a solução é deixar abrir mais canais. [...] E com os jornais também a coisa não muda demasiado. Tenho, de há anos, a sensação de que eles vêm ficando cada vez mais parecidos uns com os outros: nos temas em que apostam, no grafismo com que se 'refrescam', nos colunistas que fazem rodar entre si, no género de títulos, nas primeiras páginas até. Muitas vezes me apeteceu fazer uma espécie de jogo às cegas: pegar em páginas ou bocados de jornais, misturá-los todos e pedir depois às pessoas que adivinhassem a que título pertencia cada bocado. Cá para mim o jogo ia dar muitas confusões bem engraçadas".
(Joaquim Fidalgo, "Fome na fartura", Público, 20/IX, p. 9)

quarta-feira, setembro 20, 2006

Em serviço

O debate de segunda-feira sobre educação (no programa Prós e Contras) foi um tanto estranho. Não percebi muito bem os critérios editoriais na selecção do painel principal de intervenientes. Não compreendi o excessivo direito de antena atribuído aos presidentes dos conselhos executivos e a vassalagem que prestaram aos governantes e às suas políticas. Ultrapassou-me a razão pela qual os sindicatos foram relegados para 3º plano e só se pronunciaram sobre questões laborais. Não entendi por que é que não se discutiram algumas das questões mais problemáticas como o estado da educação especial. Depois de um ano lectivo cheio de celeuma, fiquei surpreendido com o unanimismo e a completa ausência de crítica demonstrada pelos diversos entrevistados. Afinal, vai tudo bem na educação! Desculpem, mas eu ainda não tinha percebido. Aliás, continuaria na minha cegueira se não fosse este servicinho público prestado pela RTP.

terça-feira, setembro 19, 2006

O anti-neura ideal

De regresso ao trabalho, estais com ganas de torcer o pescocinho ao canário, de dar uma canelada no chefe, ou de, finalmente, não vos despedires do porteiro-segurança carrancudo?
Não desesperais mais: chegou aquilo de que precisáveis, o borbulhento!!
Experimentai uma vez, não mais o largareis...
Boas sessões!

segunda-feira, setembro 18, 2006

Por uma política pró-emprego

O pacote pró-emprego proposto pelo Bloco de Esquerda nesta sua rentrée é de saudar, pois coloca na agenda uma questão fulcral.
Marcelo Rebelo de Sousa elogiou-o ontem, na RTP1 (ainda não localizei o tx. de 60 p. de que falou). Mas há quem teime, por preguiça ou preconceito ideológico, em afastar logo propostas merecedoras de debate.
Concordo que nem tudo será perfeito, sobretudo qt. à redução do horário laboral num país com tantas empresas frágeis e acumulações indevidas. Qt. ao travão à deslocalização de empresas, ignoro o teor integral dos enunciados; agora, não dá mais para fingir que este não é um problema e não serve dizer que tem que ser como é para evitar a saída de empresas rumo a outros países mais desregulados: isto é chantagem e só reforça o dumping social. Porque não apostar antes em baixar o IRC, colocando-o ao nível (ou mais baixo) do que o espanhol?
Vale a pena referir algumas das medidas do BE (cf. aqui):
1) reforma da formação profissional (p.e., apostando na qualidade, em empresas com mais valor acrescentado e no reforço da formação nos locais de trabalho); 2) apoios à criação de emprego no sector privado (com incentivos, legalização de imigrantes, programa para jovens licenciados, etc.); 3) políticas macro-económicas para o emprego (+inv.º público, IRC único na UE); 4) criação de emprego no sector público (enfermagem, insp.º das finanças e econ., segurança alimentar, protecção florestal, tratamento/ acompanhamento de idosos, educadores no pré-escolar).
Além de apresentar este conjunto de propostas, o BE teve o cuidado de as fundamentar e de medir o seu impacto, o que devia ser critério a seguir por todos. Várias das medidas foram já objecto de projectos legislativos seus (vd. aqui).
E que tal debater um pouco assuntos vitais para o país, em vez de se insistir no discurso de que a Oposição não trabalha?
Nb: imagem da col.º de cartazes do SDUA.

domingo, setembro 17, 2006

Teatro do Centrão apresenta: os Marretas de Portugal

(c) desenho de GoRRo

sábado, setembro 16, 2006

Avaliação pró sucesso

Debate sobre a avaliação dos trabalhadores da Função Pública, nomeadamente sobre a situação dos professores, a seguir aqui.

sexta-feira, setembro 15, 2006

A culpa é do lenhador da Lapónia


Pode parecer estranho, mas foi isso mesmo que descobri. Isto de navegar na Internet a desoras tem destas vantagens.
Então não é que há um blogue devotado à Causa Suprema da Mãe-Burocracia, o ABC da Burocracia, que descobriu o elo desaparecido do grande pioneiro burocrata?
Como?, perguntais vós. É simples: basta ir aqui e toda a Verdade será revelada. Eu também me converti, após ler o texto.
Entretanto, falta ainda o melhor. Em tempos de encostos, redes e interacções, não é que aquele ABC revelou majestosamente as suas ramificações até ao Topo Celeste, o do Grande Partido, humildemente O Partido!! o ABC nasceu, então, para servir O Partido, espaço próprio de divulgação e agitação.
E O Partido é um maná que desceu à Terra; tem de tudo: comités, politburos, comunicados, facções (como a F.I.B.R.A.), processos disciplinares, o pMpC- pequeno Manual do pequeno Camarada, a RIS (Revista Semanal de Informação), além do C.R.I.P., que é, nem mais nem menos que o subnome do grande ABC da Burocracia. E o que quer dizer essa sigla?, indagais vós. Quer dizer uma coisa muy singela: Comissão de Reeducação Ideológica e Propaganda d'O Partido!!! Têm até um PREBUROCU- Processo Revolucionário Burocrático em Curso. Bate tudo certo.
A finalizar, e para os saudosos M-L's (agora Militaruchos-Liberocas) que continuam a guardar com acrisolado carinho o Estado no regaço, reparei no seguinte pormenor: a vanguarda prá-frentex continua a assinar como dever ser> Camarada Partidário, Camarada Busílis, Camarada Pala Pala, Camarada Polichinelo, e por aí fora, em gloriosos esforços camaradescos. E estão abertos a novas inscrições...
Boas leituras militantes!
Nb: as imagens são retiradas dos 2 blogues referidos e são de sua laboriosa lavra.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Em Setembro voltamos a ser gente

Setembro é o mês do recomeço. Retomamos os mesmos percursos e as mesmas tarefas. Se algumas circunstâncias mudam elaboram-se novos circuitos em função das disponibilidades profissionais e quotidianas. Estipulam-se horários e dividem-se funções. Cada elemento tem a cargo um conjunto de obrigações que, em articulação com o outro, fazem a engrenagem funcionar. As famílias modernas organizam-se cada vez mais como se fossem autênticas empresas. Umas são mais democráticas, outras mais desiguais, umas mais conflituosas... Mas todas procuram os seus equilíbrios de modo a superarem as exigências deste tempo veloz que nos escorre pelos dias. É um tempo que endurece e nos faz mais gente. E é uma seca ser gente!

quarta-feira, setembro 13, 2006

O pior são os fins


Já referi noutros posts que nos princípios estou de acordo com muito do que é proposto pela actual Ministra da Educação. O problema é quando estes são operacionalizados em propostas concretas. Um dos casos mais gritantes é a actual revisão do Estatuto da Carreira Docente, e mais especificamente a estipulação da avaliação dos docentes. Por princípio estou de acordo com a avaliação, acho que é essencial para a melhoria da qualidade do ensino. Mas quando se estabelece uma relação directa entre a avaliação do desempenho docente e o sucesso educativo dos alunos, ou quando se entende que os pais representam a componente externa do processo avaliativo, ou quando se põem os professores mais idosos a avaliar os mais novos só porque são mais graduados, fico com sensação de que os princípios se esvaziam das boas intenções que à partida pareciam contemplar. Hoje, numa entrevista ao DN, a Ministra disse uma das coisas mais lúcidas que já ouvi sobre as desigualdades salariais geradas por este sistema, passo a citar:

As comparações internacionais revelam que as remunerações à entrada da carreira são muito inferiores à média da União Europeia, ao contrário das remunerações no topo da carreira, que são comparativamente das mais altas. Para mim, um dos maiores problemas do actual estatuto é que organiza a carreira num pressuposto que me parece errado. Quando se entra, ganha-se menos de mil euros e trabalha-se muito. A um jovem professor que acaba de entrar na carreira, que trabalha longe de casa, pode ser atribuída a coordenação de um departamento. Já a um professor com experiência, que acumulou conhecimentos e competências, paga-se bastante mais e diz-se que se pode afastar da escola e trabalhar menos. O resultado é que as escolas são muito sustentadas no trabalho dos mais jovens e inexperientes. Propomos que os jovens professores se concentrem mais no ensino, que lhes sejam dadas hipóteses de desenvolvimento pessoal de competências, e que aos seniores, com mais experiência, se peça para assumam mais responsabilidades dentro da escola.

Não poderia estar mais de acordo, vamos ver se na regulamentação os fins correspondem aos princípios enunciados.

O povo é quem mais orquestra

É a 1.ª orquestra virtual que pode ser recriada por pessoas comuns, bastando ocuparem uns assentos especiais.
PLAY.orchestra recria uma orquestra vazia com 60 lugares, materializados em 'bancos musicais'. Os transeuntes podem escolher um desses cubos e experienciar uma peça musical na perspectiva do músico, pois, ao sentarem-se, accionam um registo do instrumento relacionado com esse lugar particular no seio da orquestra. À medida que mais pessoas se sentam, a peça é gradualmente revelada na sua integridade.
Uma designer portuguesa, Arlete Castelo, integrou a pequena equipa que concebeu esta maravilha sinestésica.
O evento faz parte da animação do Royal Festival Hall, no londrino South Bank Centre. É a sua mais ambiciosa instalação interactiva, e foi idealizada por estudantes do mestrado de Artes em Narrative Environments da Central Saint Martins, onde também se formou o caricaturista Mel Calman, a quem dediquei o post anterior. Inaugurado a 19 do mês passado, termina a 2 de Outubro. Este projecto teve a colaboração da Philharmonia Orchestra, que deste modo pretendeu promover o seu projecto internáutico «Sound Exchange», onde se pode descarregar sons da orquestra e criar outros.
Para mais informações recomenda-se a visita ao sítio oficial dos autores (que inclui os outros projectos da equipa), e ao da Philharmonia Orchestra.
What a wonderful world!

terça-feira, setembro 12, 2006

Mel Calman, o mais terno caricaturista do mundo

Para os que vivem em Londres, eis uma excelente novidade: abriu a exposição antológica dedicada ao grande caricaturista Mel Calman (no The Cartoon Museum), a qual aqui anunciáramos em Junho passado.
Este artista londrino (1931-1994) estudou ilustração na St. Martin's School of Art e no Goldsmith's College. Exerceu o seu ofício nos jornais Daily Express (1957-63), Sunday Telegraph (1964/5), Observer (1965/6), Sunday Times (1969-84) e The Times (1979-1994).
Dos seus cartoons, sempre desenhados a lápis, ressalta um personagem peculiar, um pequeno homem que questiona a condição humana com perguntas desarmantes. Os seus desenhos são simples e directos, sempre interpelantes da vida de todos nós, havendo um fundo filosófico ou psicanalítico em vários dos seus trabalhos.
Fundou uma galeria (talvez a 1.ª) dedicada à arte do cartoon, The Workshop/ The Cartoon Gallery, e, em 1988, co-fundou o The Cartoon Art Trust, com Simon Heneage (agora The Cartoon Museum). Colaborou com ilustrações para muitos livros, além da dezena de autoria própria. Produziu ainda 1 celebrado filme de animação para o British Film Institute, «The Arrow», esteve 1 ano como caricaturista residente na BBC (1963/4) e escreveu 3 peças para a BBC Radio.
Já agora, não se esqueçam de comprar o catálogo, pois, uma vez encerrada a exposição (a 15/X), tornar-se-á uma raridade quase inalcançável.
Fontes: The Cartoon Museum e Univ. de Kent (aqui com bibliografia activa); peças teatrais aqui.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Caprichosos, mas não vencidos

Marques Mendes acusou o governo de manter um capricho de esquerda ao não querer ceder na continuidade de uma Segurança Social plenamente pública. Vem isto a propósito de um post que já vinha a engendrar há algum tempo sobre esta coisa de ser de esquerda. Para muita gente, incluindo a que vota regularmente em partidos ditos de esquerda, essa questão de esquerda vs direita é uma artificialidade, uma teimosia. Perante a política executiva, os dois lados anulam-se no inevitável e unívoco pragmatismo. Por exemplo, para a redução do deficit (tinha de ser!) não há política esquerda ou de direita, há somente uma política: a diminuição das despesas e o aumento das receitas. Ou seja, para aquilo que vale (e estamos, como é óbvio, a falar de finanças), não há outro sentido senão o sentido certo. Tudo mais são meros caprichos ideológicos que só servem para enfeitiçar o caminho traçado.
Este modo de ver a política generalizou-se e tem convencido muita gente. Neste aspecto, há que tirar o chapéu aos nossos últimos governantes (tanto a Durão, como a Sócrates): conseguiram! O povo rendeu-se ao pragmatismo e anseia por resultados. E os dados saem todos os dias. São as previsões em alta sobre previsões de baixa naquilo que é para subir, e as previsões de baixa sobre as de alta no que é suposto descer. E neste sobe e desce de décima em décima se vai alimentando as expectativas da populaça. Há quanto tempo nos anunciam a retoma? Provavelmente, o tempo todo que a crise leva. É esta a ciência precisa em nome da qual se anularam esquerda e direita? É este o rumo certo do inquestionável pragmatismo? Afinal, por que lado é que andam os tais feitiços que iludem a realidade?

domingo, setembro 10, 2006

O instinto perante a queda

Faz cinco anos que ocorreu o atentado sobre o World Trade Center. A aproximação da efeméride tem provocado uma autêntica enxurrada de textos, documentários, filmes… O acontecimento marcou-nos de tal modo que nos impele a participar nele e dizer qualquer coisa de nosso. Como se estivéssemos de luto. E, de facto, vivemos o mesmo luto. É inegável que perdemos alguma coisa com o 11 de Setembro.
Há cinco anos atrás o meu primeiro filho tinha ainda alguns meses. Durante o dia enquanto assistia às imagens brutais, lembro-me de pensar quase instintivamente: “que mundo vai ser o do meu filho”. É lamechas, é óbvio, é primário, mas, é assim. A paternidade dá-nos a volta e subverte a nossa relação individual com o Mundo. Em certo sentido ela deixa de ser individual e passa a ser algo de diferente. De facto, para além da (i)rracionalidade, e de todos os sentimentos que gera, acrescenta-se um outro que se torna dominante: é uma espécie de pulsar instintivo de protecção. Naquele dia senti esse arrepio.
A consciência da fealdade do mundo global (e da sua crescente inumanidade) instiga-nos a construir uma bolha para os nossos filhos. Rodeamo-los de afectividade, de fantasia e de muita facilidade. Uma variante doce da quinta dimensão que se auto-imuniza face à realidade real. Hoje uma reportagem da revista Notícias revela as conclusões de um estudo que alerta para as consequências nefastas desse mundo paralelo que está a criar uma geração de “atadinhos”. Esta forma de educar globalizou-se com a mesma facilidade da CocaCola ou dos hambúrgueres. E penso que isso se deve ao agudizar desse tal instinto, para o qual o atentado sobre as torres gémeas se tornou um marco simbólico. A violência entra-nos em casa por todos os canais e nós esforçamo-nos até à exaustão por fechar todas as portas. Ao fazê-lo podemos estar a criar uma cegueira. O que acontecerá quando os nossos atadinhos se fizerem à vida? Recusá-la-ão? Provavelmente sim, e da pior maneira. Fechar-se-ão ainda mais… até à indiferença em relação a tudo o que esteja fora, ou seja, a própria realidade. Ou então, rebelar-se-ão. Será justo projectar neles essa esperança? Serão os filhos a nossa última utopia? Investimos tudo na sua felicidade e ansiamos que no futuro ela se concretize de algum modo.

quinta-feira, setembro 07, 2006

A terra

Estes posts sobre a Reforma Agrária surgiram agora por nenhum motivo especial. Contudo, há já algum tempo que pensávamos escrever qualquer coisa sobre o tema. Não tem sido assunto muito badalado na blogosfera e muito menos na imprensa, ao contrário de outras temáticas recorrentes (algumas delas estéreis) relacionadas com a natureza do regime ditatorial do Estado Novo. Para a direita, a Reforma Agrária foi uma perversão, uma aberração histórica. Curiosamente, para a esquerda, mesmo para a mais ortodoxa, deixou de ser assunto de discussão e debate, que quando existe é envergonhado e até complexado. A Reforma Agrária não está na moda, tal como a questão da terra.
Neste mundo global que parece não ter chão, pelo menos, é essa rábula que nos contam todos os dias, falar de reforma agrária pode ser encarado como algo surreal. E, em certa medida, até o é. Mesmo para os alentejanos que a viveram, a reforma agrária representa um tempo que já não se encaixa na vida que levam, está fora do tempo. Foi um parêntese nas suas histórias pessoais e das comunidades locais. No entanto, como descrevemos brevemente, este processo constituiu um dos maiores e mais intensos movimentos sociais e cívicos que o nosso país conheceu. Não é possível olhar para ele de uma só perspectiva. Para além das paixões contraditórias que gera, convoca-nos necessariamente para uma reflexividade inquietante sobre um sem número de problemáticas, muitas delas bastante actuais.
Por exemplo, remete-nos para a questão da apropriação dos territórios e o modo como estes são ocupados e desocupados pelo capital económico-financeiro. Na maior parte dos casos a (des)cupação decide-se por intermédio dos circuitos electrónicos e informacionais. A terra perdeu poder. No Alentejo as aldeias, que apesar de continuarem rodeadas pelo latifúndio, separaram-se da terra, já não labutam nela e até desconhecem os seus donos. Em certo sentido, parece que também deixaram de ter chão.

quarta-feira, setembro 06, 2006

A alegoria da enxada


No excelente documentário Torre Bela (1977)* sobre a ocupação de uma grande propriedade assistimos a um diálogo impressionante entre dois homens: o revolucionário e o trabalhador agrícola. A discussão gira em torno da propriedade de uma enxada. O trabalhador recusa-se a entregar a sua ferramenta à cooperativa, enquanto o revolucionário tenta convencê-lo de que ao fazê-lo aquela enxada passa a ser de todos e, como tal, continuará a ser sua. O primeiro não se convence totalmente, aquela é a sua enxada é com ela que quer trabalhar e levá-la para casa no fim da jornada de trabalho. O segundo responde-lhe argumentando que é por se juntarem todas as enxadas na mão de todos que aumentará o benefício colectivo.
Este episódio dramático, que culmina com a cedência do trabalhador, simboliza bem o significado e a profundidade da reforma agrária. O trabalhador destituído de propriedade entrega o único meio de produção que detém. A colectivização é vivida como uma esperança que se impôs quase como uma inevitabilidade. Ao entregar a enxada o trabalhador deixou de preocupar-se com ela, libertou-se do seu peso e entregou-se a uma exaltação.
Mais tarde vemo-lo numa cena obscena a profanar a casa dos lavradores e a embriagar-se com objectos e roupas que arranca das gavetas e das prateleiras. Transformou-se numa criança que se desresponsabiliza perante o deslumbre do exagero. Tudo passou a ser de todos, deixou, por isso, de haver limites e a enxada torna-se irrelevante. Esta desresponsabilização condenou a reforma agrária a uma tragédia.
Ao longo destes 30 anos a esquerda pouco aprendeu com o erro. Reincidiu na mesma cegueira, e nos mais variados sectores da economia e da sociedade foi deixando a enxada ganhar ferrugem e tornar-se inútil.

*Realização e argumento: Thomas Harlan.

terça-feira, setembro 05, 2006

Breve história da Reforma Agrária (IV)


Desde o final da década de 70 e durante os anos 80, grande parte das terras ocupadas retornam aos antigos proprietários, na medida em que foi sendo cada vez mais alargado o direito de reserva a favor destes, por intermédio de um conjunto de leis que iam sendo aprovadas pelos vários governos constitucionais. Assim se em 1975/76 chegaram a ser ocupados 1140800 hectares de terra, formadas 550 UCP’s/Cooperativas Agrícolas que empregaram 72 mil trabalhadores; em 1988 a área ocupada reduzia-se para 285000 hectares, correspondendo a 252 unidades de produção que empregavam somente 15000 trabalhadores. Esta evolução radical, em pouco mais de dez anos, demonstra a velocidade acentuada com que o processo se desenvolveu até 1976 e o modo como posteriormente se foi definhando.
Está ainda por fazer a história do impacto da reforma agrária no Alentejo. No entanto, podemos dizer que as suas marcas foram desaparecendo ao longo das últimas duas décadas na estrutura agrária e na organização das relações sociais. Sem dúvida que foi um factor determinante para a destituição do latifundismo. Contudo, acabou por não representar um sistema alternativo que para além de suplantar pudesse ter substituído o anterior. Provavelmente se o modelo de reforma agrária tivesse dado um pendor mais determinante à divisão da terra pelos pequenos e médios agricultores, as suas consequências teriam sido diferentes. Mas essa é uma história que nunca poderemos comprovar.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Breve história da Reforma Agrária (III)


O modelo de reforma agrária implantado assentou na instalação das novas unidades de produção: as Unidades Colectivas de Produção e a Cooperativas de Produção Agrícola. Como refere Afonso de Barros, salientou-se «logo de início a natureza colectivista das soluções organizacionais adaptadas com larga predominância no processo da reforma agrária. Aconteceu na realidade que, para além de alguns casos, com reduzida expressão, de distribuição individual a pequenos agricultores de parcelas de terra ocupadas ou expropriadas, na esmagadora maioria das situações prevaleceu a exploração comum das terras, no quadro da antiga herdade ou exploração agrícola ou no quadro ainda mais alargado da aglutinação de herdades ou explorações agrícolas distintas em novas e mais vastas unidades produtivas»*.
Segundo este e outros autores, este facto deve-se à conjugação de uma série de factores, a saber: a) o tipo de agricultura vigente na Região que assentava na exploração extensiva de sequeiro tornava-se um tanto inviável em pequenas e médias áreas agrícolas; b) a impreparação e as dificuldades técnicas demonstradas pela maior parte dos trabalhadores agrícolas para gerir individualmente uma exploração; c) o facto da reivindicação dominante dos trabalhadores assentar na garantia de emprego permanente e não na divisão da terra; d) o predomínio ideológico das concepções colectivistas veiculadas pelos partidos e movimentos políticos de esquerda.
A generalização do modelo colectivista provocou um afastamento cada vez mais conflituoso entre os trabalhadores e os pequenos agricultores. Pois se a estratégia de princípio das principais forças políticas, como era o caso do PCP, apontava para uma confluência de interesses entre estas duas classes, a acção no terreno acabou por marginalizar as pretensões destes últimos.

*Idem, p. 117.

domingo, setembro 03, 2006

Breve história da Reforma Agrária (II)


As primeiras movimentações deram primazia à necessidade de estabelecer uma regulamentação colectiva do trabalho agrícola que garantisse o emprego à generalidade dos trabalhadores e o aumento dos salários. Esta fase decorreu de forma muito atribulada e conflituosa ficando conhecida a expressão “distribuições de pessoal”, que designava a pressão levada a cabo pelo sindicato para a colocação de maior número de trabalhadores nas explorações agrícolas. Desta colocação compulsiva resultou uma reacção dos agrários que boicotavam a aplicação das convenções colectivas de trabalho.
Segue-se então a fase das ocupações que se desenrolam numa zona relativamente alargada do Centro e Sul do país tendo como epicentro os distritos alentejanos e o distrito de Setúbal. Até ao final de 1975 foram ocupadas na Z.I.R.A. (Zona de Intervenção da Reforma Agrária) mais de 1 milhão de hectares que correspondiam a sensivelmente 1/3 do total da superfície cultivada nesta zona.
É sintomático como em pouco mais de um ano parte considerável das grandes propriedades são invadidas por trabalhadores agrícolas que para além de afastarem os proprietários e os feitores vão tomar conta da gestão das explorações. Uma série de factores determinam a acção bem sucedida dos trabalhadores: a sua forte motivação (sobretudo no caso dos eventuais), a eficácia com que se desenrolaram as acções sindicais, o apoio político e administrativo demonstrado pelos primeiros governos provisórios e pelas forças militares do MFA, a penetração e a capacidade de organização que o partido comunista detinha nesta zona.

sábado, setembro 02, 2006

Breve história da Reforma Agrária (I)


O processo da reforma agrária e respectiva destruição do latifundismo desenvolve-se num crescendo mas de forma muito intensa e rápida. É tese relativamente consensual considerar que esta não representou uma mera «(...) consequência da aplicação de qualquer projecto político definido pelo poder central e por este claramente assumido, antes tendo resultado da relação de forças e do desenvolvimento das contradições na zona sul do país, antes se tendo ficado principalmente a dever à avançada consciência de classe (...)»*.
O factor mais relevante que espelha bem a vincada consciência de classe manifesta-se na capacidade de organização dos diversos agentes, que logo nos meses posteriores a Abril de 1974 formam diferentes associações e sindicatos. É no distrito de Beja que se desenrolam mais cedo as movimentações que levam à formação de três organizações de classe: a A.L.A. (Associação Livre de Agricultores) que representa os grandes empresários agrícolas, as Ligas de Pequenos e Médios Agricultores e o Sindicato do Trabalhadores Agrícolas.
É esta última organização que assume o maior protagonismo nas duas primeiras fases do processo que culmina com a constituição das novas unidades de produção colectiva. Nos primeiros meses posteriores ao 25 de Abril, o sindicato dará voz às reivindicações dos trabalhadores, principalmente daqueles que não tinham trabalho fixo. Na verdade, logo a seguir à revolução a questão central dos trabalhadores agrícolas não era a reforma agrária mas o problema do desemprego e dos salários, só mais tarde se poria a questão da ocupação de terras.

*Afonso de Barros (1979), A Reforma Agrária em Portugal: das Ocupações de Terra à Formação das Novas Unidades de Produção, Oeiras, Instituto Gulbenkian de Ciência, p. 51.

Finalmente!...

...«Here comes the sun» (The Beatles)

Aqui vai uma muita conhecida, com imagens fantásticas de Londres, o interregno veranil justifica a escolha e o texto lacónico.
Por isso, boas férias, divirtam-se, e, se puderem, portem-se mal!!!

sexta-feira, setembro 01, 2006

Camané, um cantor para o futuro




Camané,
com Carlos do Carmo,
este sábado (2 Set.º, 22h),
na Torre de Belém, Lx.


Camané é um intérprete genial, de vários géneros musicais. Não lhe bastando a arte do fado, é tb. exímio cantor de músicas rock, pop-rock e de músicas populares brasileira e portuguesa. Tem o condão de tornar canções boas ainda melhores: vd. versões suas de «Laços» (Toranja), «Circo de Feras» (Xutos & Pontapés), «A noite passada» (Sérgio Godinho) e «Maria Albertina» (Variações).
Este videoclip apresenta um Camané todo desportivo interpretando «Quero é viver», do projecto colectivo Humanos, que junta ainda Manuela Azevedo, David Fonseca e outros músicos portugueses (é tb. deles a «Maria Albertina», inédito de Variações entretanto descoberto, uma preciosidade sociológica sobre o Portugal híbrido e pós-moderno...).
Tudo isto porque o fadista vai dar um concerto conjunto com Carlos do Carmo, Bernardo Sassetti e orquestra, amanhã (sáb.º, 22h), no relvado defronte à Torre de Belém.
Nb: mais informações sobre a sua vida e obra no sítio oficial, onde se pode ouvir muitas das suas canções.

Dos inauferíveis direitos do Portugal revisionista

"Sob a égide do Chefe do Estado [Sua Excelência o Sr. General Óscar Fragoso Carmona], é fundada, junto do Arquivo Nacional da Tôrre do Tombo, a Academia Portuguesa de História, agremiação especializada dos eruditos que se entreguem à investigação e reconstituïção crítica do passado, a qual terá como primeiros objectivos estimular e coordenar os esforços revisionistas para a reintegração da verdade histórica e enriquecer a documentação dos inauferíveis direitos de Portugal."
(in Boletim, 1.º e 2.º anos - 1937-1938, Lisboa, Academia Portuguesa de História, MCMXL, p. 53).
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