quinta-feira, dezembro 29, 2005

Um alienado sem cozido na cova dos leões

Um tipo anda cheio de trabalho e só lhe foge a cabeça para os pequenos prazeres da vida, assim a modos que a ver se desanuvia um pouco. Vai daí, acorda-se com um desejo de gula infelizmente muito mais frequente do que se gostaria: um cozidinho à portuguesa. As papilas gustativas só pensam nestas coisinhas, já o coração foge delas como o diabo da cruz. Mas como todos sabemos o coração manda pouco nisto de paladares e carnes bovinas, suínas e assim, pelo que o corpo é que paga. E as superfícies dos espelhos até parece que vão encurtando, não é? Bom, feito o intróito, socorro-me pois da agenda de restaurantes e procuro: 5ªs feiras... ora ora, 5ªs feiras, pratos do dia... cozido à portuguesa, cozidinho cozidinho, cá está!!! Vou ao ******. Pega-se na viatura, mete-se o cinto de segurança, conduz-se de forma ultra segura e civilazada e chega-se à casa de pasto. Enquanto se aguarda mesa já se pensa em tudo menos em trabalho. As travessas de carnes fumegantes passam apetitosíssimas, bem servidas, o feijão, as gorduras, a couve, o nabo, o arrozinho... um petisquinho para a boca. Sentamo-nos e pedimos, directos: duas de cozido se faz favor. A resposta é imediata. Brutal. Seca. Trágica. Cozido é que já não há... E de repente o mundo desaba. E de uma manhã de sol se fez inverno. E num dia tão bom desce o inferno à terra. Desesperado, espeto os olhos nas travessas prazenteiramente degustadas nas mesas em volta... um pesadelo. Aposto que estes tipos nem de cozido gostam caramba! Vemo-los cruzar os talheres sobre pratos ainda cheios de comida. Sacanas! Que desperdício. Um cozido só deve ser vendido a quem provar gostar dele. Mas gostar a sério caraças!! Não é chegar ao restaurante e desatar a pedir doses só para lixar os gajos que chegam tarde. Decreto daqui hoje que Cozido à Portuguesa é coisa demasiado séria para ser vendida ao desbarato a quem nem dela gosta por aí além. E nós? E nós que sonhamos com ele, cozidinho au point, carnes ricas, feijãozinho branco ou encarnado consoante a vontadinha do freguês, sim, e nós? Desilusão, pois, desilusão que será carpida durante a tarde ao som de The Sound... From The Lions Mouth para uma tarde cinzenta, para afogar mágoas, para mergulhar na alienação do trabalho... sem cozidinho, na cova dos leões. É que na próxima 5ª feira já estarei em Budapeste, onde nem consta que haja cozido...

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