terça-feira, outubro 24, 2006

E você, bom lusíada, o que faz pela tradição?

"Portugueses ainda perfilham moral tradicionalista", titulava bombasticamente o Público deste sábado (p. 2). Seria motivo de preocupação se fosse verdade. Mas não é. E o pior é que se baseia no empolamento duma questão, a 1.ª, já de si mal formulada.
Devo dizer que, até à data, acompanhara as sondagens da UCP sem sobressaltos. Desta vez, porém, algo saiu do tom, a saber, a elaboração da questão inicial: "Em geral, qual acha que devia ser o objectivo mais importante para a nossa sociedade hoje em dia?"
Em 1.º lugar, não devia ser só A QUESTÃO MAIS importante, como se as nossas vidas estivessem dependentes dum único assunto, qual espada de Dâmocles.
Em 2.º lugar, as respostas possíveis estão mal formuladas, o que me surpreendeu. Dar como únicas hipóteses de resposta "Promover maior respeito pelos valores sociais e morais tradicionais", "Encorajar maior tolerância em relação a pessoas com diferentes tradições e estilos de vida" e "Ambos (resposta espontânea)" parece um pouco surreal, convenhamos.
Para não me alongar muito, dou alternativas para se perceber aonde quero chegar: além de tb. se dever ter proposto uma resposta do género "Promover maior respeito pelos valores sociais e morais modernos", deveria ter-se equacionado o desdobramento desta em valores sociais e valores morais, e ter retirado a 3.ª opção: é uma contradição absoluta que não serve para explicar nada a não ser para pôr em causa as próprias sondagens, pois as pessoas são por vezes contraditórias, respondem apressadamente, não têm a mesma capacidade de responder a questões abstractas do que a questões concretas, respondem àquilo que pensam sobre certos termos ou conceitos (pois estes, regra geral, não são definidos a priori), etc., etc .. Quem escolhe esta 3.ª opção (24%, valor nada negligenciável), quer dizer o quê? Alhos e bugalhos, uma coisa e o seu contrário, é isso?
É caso para perguntar, se esta pergunta tivesse sido melhor formulada, não seria provável que fosse outro o resultado? Isto independentemente de termos a ideia (e dados) que permite concluir que a sociedade lusa é conservadora. Agora, se nos prendermos ao que é expectável em geral (ou ao senso comum) e não procurarmos os matizes conjunturais, as singularidades, as divergências, os pontos de fuga, então estaremos simplesmente a chover sobre o molhado.
PS: tb. a 4.ª questão (p.3), embora com menor relevância, me parece mal formulada. Com efeito, juntar uma droga minoritária a outra maioritária ("Acha que o consumo de marijuana ou haxixe devia ser legal?") já por si só é discutível; mais problemático se torna se tomarmos em conta que a marijuana de imediato será associado por várias pessoas à outra droga mais cultivada na América Latina, a folha de coca, donde se extrai a cocaína, uma droga dura que nada tem a ver com o haxixe, que é uma droga leve. É caso para dizer: não habia nexexidade!

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

só se muda o que é bom para melhor proveito dalguns. o que está mal melhor ficar assim

10:56 da tarde  
Blogger FT said...

É dum optimismo assinalável, admitir que estes questionários e "sondagens" servem para alguma coisa mais que entreter. Concordo consigo, este não foge à regra: um perfeito disparate.

1:53 da tarde  

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