segunda-feira, novembro 06, 2006

BD Amadora: balanço crítico antes da idade adulta

O Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora fez 17 anos e tem já muito para contar. Antes que entre na idade adulta, convém reflectir um pouco na encruzilhada presente. Aqui deixo a minha contribuição.
Este ano, a organização arriscou muito: tema central com autores lusos (destaque para Filipe Abranches e Miguel Rocha, respectivamente vencedores de 2005 e 2006). Embora concorde que se deve apostar mais no produto nacional, houve exagero ao não terem autores (ou temas) chamariz. Havia uma sala lusófona e latino-americana (no piso -1), mas ninguém era avisado da sua existência à entrada, de modo que muita gente nem foi ver essa secção! Na central, a ideia dos baús era interessante se a proposta fosse criativa: por ex., livros de BD, nacionais e estrangeiros que inspiraram os autores, senão dá naquilo da repetição de latas de conservas (3 autores!) e o relambório folclórico-nostálgico à MEC. Há agora palestras, concertos e até alguma animação, mas tudo a eito e muito tímido.
O espaço central foi agora no Fórum Luís Camões (na Brandoa), que é um espaço moderno, mas teve 2 graves problemas: o "calor intenso" (como alguém dizia no Público de hoje, repetindo inexplicavelmente o que já ocorrera no espaço da estação de metro Amadora Este) e o som insuportável duma rádio comercialóide a altos berros, com música agressiva, patrocínios e publicidade. Alegaram ser dum patrocinador quando critiquei a poluição sonora. Portanto, temos um patrocinador a passar os seus próprios patrocínios, seguindo uma tendência intromissiva que pretende invadir todo o espaço público como se fosse uma coisa natural e saudável: ele é nos hipermercados, ele é no Metro (aqui com a agravante de serem écrans a altos berros, além da publicidade nos placards), ele é nos autocarros da Carris, ele é nos centros de saúde, etc., etc.. Repetindo, é poluição sonora, é inaceitável. Para a próxima, se repetirem, não vou! E voltarei a alertar publicamente para o ruído agressivo e completamente injustificável. Ademais, para chegar ao local é um suplício: ninguém conhece aquele fim-do-mundo, nem quer conhecer, o que afastou muita gente, e a localização está mal sinalizada. O edil e a organização deviam tentar arranjar sítios alternativos mais condizentes, isto se querem ter público e impacto. Na minha opinião, o mais apropriado é o Centro Intercultural (na Venda Nova, ex-escola industrial), um espaço muito central, com estacionamento, transportes públicos e logo à saída de Lisboa. O outro seria a «Fábrica» onde funcionou tantos anos.
De há uns anos para cá, o Festival anda em transumância constante, perdeu visibilidade e parece ter esquecido parcerias, apesar da agora anunciada itinerância de parte da exposição. Parece que terá sido o próprio edil a desvalorizar a iniciativa. Se foi isso é pena, pois este é um dos poucos festivais que se afirmou enquanto proposta de política cultural local. Se o edil não apoia não sacrifiquem o público a ruído, sauna e fraqueza de oferta; mudem antes de concelho, é simples. Quereis precedentes positivos? Vide, então, o Festival Internacional de Cinema Imago, no concelho do Fundão, que para aí passou após desinteresse do edil da Covilhã. De certeza que vale a pena tentar outro concelho, ousar mudar. Mas, repito, não sacrifiqueis o público que já abarcaste, sob pena de o perderdes para sempre.

1 Comments:

Blogger Daniel Melo said...

Só mais 2 notas, que reputo relevantes.
O público do festival é proveniente da Grande Lisboa, segundo os resultados do inquérito que fizestes em 2005: não era possível ser mais explícito ou tendes pudor em admitir que a maioria vem de Lisboa? Ademais, se é da Grande Lisboa, então mais uma razão para poderdes mudar de concelho.
Por último, o slogan deste ano, «Contamos com a sua presença», é piroso e até contra o público jovem que frequente este inovador evento.
Pode ser que a concorrência, em Beja e alhures, desperte esse vulcão adormecido...
Seria óptimo! Mas o ânimo também pode vir de dentro, ou não?

10:11 da tarde  

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