quinta-feira, novembro 23, 2006

Os paradoxos da globalização num copo de vinho

Mondovino é um dos documentários mais interessantes dos últimos tempos. Nele se reflecte sobre a situação do vinho no mundo através de cuidadas entrevistas a vitivinicultores de várias regiões de referência (desde a França à Argentina, passando pela Itália, EUA, etc.). Por ele ficamos a conhecer alguns dos melhores vinhos e regiões do mundo e, de par, os paradoxos introduzidos pela actual globalização: a homogeneização tecnológica que favorece a massificação mas empobrece a qualidade dos vinhos (vd. grande parte dos vinhos dos hipermercados de grandes cadeias francesas); o nivelamento por baixo articulado com os circuitos de legitimação do vinho, trazendo especulação e desvirtuamento da crítica (vd. o caso dos vinhos duma empresa californiana que à medida que se vão adaptando aos ditames uniformizantes dum influente crítico norte-americano vão subindo na sua escala e na do mercado). Todavia, o filme é bem mais complexo e a sua riqueza deriva grandemente de nos mostrar estas pessoas falando nos sítios do vinho, nas suas casas e com as vinhas em redor. De nos mostrar os diferentes pontos de vista, os argumentos em jogo, de nada omitir.
O realizador, Jonathan Nossiter, não esconde a sua empatia por um velho vitivinicultor do Languedoc adepto da feitura do vinho pelos métodos tradicionais, respeitando as características do terroir, dos invólucros antigos, do tempo. Aimé Guibert, é dele que falo, diz mesmo a dada altura o seguinte: «Le vin, c'est une relation quasi religieuse de l'homme avec les éléments naturels. Avec l'immatériel. C'est un métier de poète de faire un grand vin». Para logo conluir, pessimista: «le vin est mort». Já o produtor Hubert de Montille, da Borgonha, é mais optimista: «où il y a des vignes, il y a de la civilisation. Il n'y a pas de barbarie». O tom do filme oscila entre estes 2 pontos, ficando a impressão de virem aí umas invasões bárbaras invertidas. Essa é a desconcertante ironia do documentário, que faz lembrar o cinema de Otar Iosseliani.
Mas tudo isto a propósito de quê? Pois bem, do filme em si (exibido há umas semanas na 2: e circulando por aí em DVD- em quadra natalícia, meus caros..) e duma medida da UE que visa, adivinhem, homogeneizar, adivinhem o quê? O vinho, esse mesmo. Pela mão de Viriato, fiquei a conhecer a Campagne contre les naufrageurs du vin, que expõe a medida e os argumentos críticos dela. Vale a pena dar uma olhada. E à vossa saúde!
Nb: uma boa crítica do filme está neste tx. de Sandrine Marques.

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Mesmo se já sabida, cá vai: quando vi o filme, estava a gostar até apanhar um pormenor do fim que referia uma música de «Amália Rodriguez». É uma nódoa que contamina toda a doutrina do filme, pois assim que importa o rigor e as diferenças, mais solo, menos casta, z ou s, califórnia ou borgonha, madeiras e martelos.O que parecia uma questão de autenticidade soube afinal a chauvinismo e snobismo. Mesmo assim não é mau de todo, para não ser mais «chauve» e «snob». gmr.

4:37 da tarde  
Blogger FT said...

É a tendÊncia actual, a da normalização e a dos normalizados. Todos procuram seguir a corrente e os ditados dos eleitos, ser mais seguidista que o vizinho é a forma de sobressair no paradigma de socialização actual. A diversidade, essa, fica para os loucos.

6:32 da tarde  

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